Breakfast of champions

Carta aberta ao "chef" Anthony Bourdain: "Gosto de ti porque odeias vegetarianos, fumas muitos cigarros e bebes demasiado"

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Caro Anthony,

Depois envio-te isto em inglês, num guardanapo de papel da Tascardoso. Não penses que sou mais uma admiradora que só te quer dizer o quão bestial és, isso tu já sabes e eu também. Adianto também que tenho uma sobrancelha que está quase sempre em modo indignado/furioso. Escrevo-te porque cozinho, fumo, bebo, leio, viajo, penso, ouço música e vejo clássicos, e se há alguma coisa que ainda me faz aguentar a "vidinha" são as pessoas com quem faço tudo isso, e, caro Tony desconfio que tu poderias ser uma delas.

Não transbordo de admiração pela voz lânguida da Nigella enquanto chafurda os dedos em mais um prato com natas frescas e deposita a sua prateleira em todos os planos da câmara, nem nutro especial saudosismo pelo cabelo armado da tia Filipa. Não gosto do crápula do Gordon nem do Jamie sopinha de massas. Odeio com especial fervor os "chefs" portugueses moles com pêlos no peito, sapato de vela e colarinho azul, barriguinha de quatro meses. Não gosto de cozinhas Ikea, impecavelmente arrumadas e limpas, como se os pratos se cozinhassem sozinhos, não gosto de "gourmet" nem de "nouvelle cuisine" - a única coisa de jeito da "nouvelle" foi a "vague" - não gosto de estrelas Michelin nem daquela palavra: “redução”. Não gosto da ASAE, gosto de colheres de pau e da minha avó.

Gosto de ti porque és punk. Gosto de ti porque a tua faca de cozinha parece a de um samurai e isso tem muita pinta, porque és giro à brava e tens um brinco (que com o teu cabelo branco...), porque dizes palavrões em redemoinho e não tens paciência para pessoas sem espinha dorsal e com zero personalidade - "wit wit wit". Gosto de ti porque odeias vegetarianos, fumas muitos cigarros e bebes demasiado. Meu pequeno Hemingway culinário, gosto de ti porque, nos anos setenta, na tua cozinha com o teu sub-chef punhas a tocar a intro do "Apocalypse Now" enquanto entornavas brandy na sertã em fogo. Gosto de ti porque não és estúpido, porque sabes que a comida é muito mais do que comida. Há um momento no Kitchen Confidential em que descreves uma epifania da tua infância – a tua primeira ostra, qual madalena de Proust, e é aqui nesta nota quase comovente da tua história que rebenta o teu profundo entusiasmo pela "arte".

E que se lixe a América, são pessoas como tu que fazem a América.

Beijos para as miúdas,

Joana