Samer Issawi é um exemplo da “prisão administrativa” em Israel

A prisão administrativa possibilita manter capturados civis, sem acusação nem julgamento, até um prazo de seis meses. Prazo esse que pode ser renovado indefinidamente

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Ronen Zvulun / Reuteurs

Samer Issawi é, presentemente, o tema principal no quotidiano palestiniano. Samer Issawi é a razão pela qual, neste momento, diariamente centenas de palestinianos saem à rua em protesto contra as práticas de “prisão administrativa” do Governo israelita. Sim, porque a prisão administrativa possibilita manter capturados civis, sem acusação nem julgamento, até um prazo de seis meses. Prazo esse que pode ser renovado indefinidamente.

Samer Issawi é apenas um entre cerca de 200 palestinianos em prisão administrativa e estes fazem parte de um total de 4,812 palestinianos em prisões israelitas, entre os quais se encontram também 219 menores de idade, sendo 31 menores de 16 anos. Samer Issawi encontra-se há exactamente 214 dias - desde do dia 1 de Agosto de 2012 - em greve de fome.

Ele e uns quantos mais. Esta é uma forma de protesto pacífico contra a famosa prisão administrativa. Sim, porque os palestinianos há muitos anos que protestam pacificamente; contra o muro, contra os colonatos, contra toda e qualquer forma de injustiça que têm vindo a sofrer diariamente em 45 anos sob ocupação. Samer Issawi está extremamente fraco, emagreceu 35 kg.

As funções vitais do seu corpo estão a deixar de funcionar. Está literalmente às “portas da morte”. Samer Issawi não foi o primeiro prisioneiro a entrar em greve de fome. Antes dele estiveram Khader Adnan - 196 dias, e Hana Shalabi - 134 dias, entre muitos outros. A situação dos prisioneiros palestinianos, em prisões Israelitas, é de tal forma desesperante que, há um ano atrás, estiveram cerca de dois mil prisioneiros durante três meses em greve de fome colectiva. Todas as acções de greve de fome têm, até agora, chegado ao fim através de negociações com o Governo israelita, que, aquando do perigo eminente de morte de um dos prisioneiros, chega subitamente a um acordo com as autoridades palestinianas. Um acordo “last minute”. Um jogo arriscado.

700 mil palestinianos detidos

Isto, porque o governo israelita sabe que a morte de um prisioneiro resultará provavelmente numa revolta maior. Desde que Israel ocupou o território palestiniano em 1967, como consequência da Guerra dos Seis Dias, foram detidos cerca de 700,000 palestinianos, o que faz aproximadamente 20% da população total, e, 40% da sua população masculina. Deste modo, a situação dos prisioneiros toca e afecta toda a comunidade, tendo como resultado um forte sentimento de solidariedade e de sofrimento colectivo. Dando, assim, forma a uma crescente onda de protestos.

Enquanto a situação de Samer Issawi, e de muitos outros prisioneiros deteriora, o povo sai à rua em protesto contra a ocupação, contra as leis usadas no território que vão contra os direitos humanos básicos e contra a dignidade de um colectivo que sofre as consequências de um projecto colonialista. Várias são as vozes, de momento, a dizer que este é o início da “Terceira Intifada”, chamando-lhe a “Intifada dos Prisioneiros”.

Com o tempo a passar sem qualquer melhoria do “status quo” a tomar efeito, a indignação e a revolta da população aumentam. Os protestos são maiores e as confrontações mais violentas. Mas, não são o gás lacrimogéneo nem as balas de borracha ou mesmo as munições vivas que vão parar a revolta de um povo. Não é a ameaça eminente de morte que vai fazer com que o povo palestiniano resigne. Imagine-se como seria, de manhã, ao pequeno-almoço, abrir-se o jornal e ler-se que, fulano, amigo dos copos, o noivo da vizinha, foi preso por razão desconhecida.

Imagine-se ainda, que não é só fulano, mas também Sicrano, uma vez por outra até um amigo mais chegado, ou um tio, ou até mesmo o próprio irmão. Imagine-se também o que seria ter de explicar à sobrinha que tanto se ama, que o papá ou mesmo a mamã, estão na prisão, e não se sabe quando voltam e se por acaso alguma vez regressarão. Angustiante por certo. Imagine-se então, que isto é só uma milésima parte daquilo que um palestiniano enfrenta diariamente. Inimaginável para a maioria, realidade para todo um povo.