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Megafone

A estante estável

Não é um móvel histórico, nem artístico, nem único. É apenas a estante Expedit, da Ikea, cujo fim de produção foi há semanas anunciado. E a notícia lançou amantes de livros, filmes, jogos e vinis em pânico

O mundo está cheio de movimentos para salvar coisas em risco de extinção: animais, habitats, monumentos, comidas, obras de arte, etc., mas só conheço um movimento para salvar um móvel em risco de extinção.

Não é um móvel histórico, nem artístico, nem único. É apenas a estante Expedit, da Ikea, cujo fim de produção foi há semanas anunciado. E a notícia lançou amantes de livros, filmes, jogos e vinis em pânico, a ponto de se criar um grupo do Facebook em defesa do móvel, que conta já com mais de 25 mil assinantes, que acreditam que esta é a melhor estante da multinacional sueca para guardar as suas coleções.

Não é o primeiro móvel que a Ikea deixa de produzir — antes já houve os móveis de cozinha Varde ou os sofás Ektorp ou Karlanda – mas é o primeiro cuja descontinuação causa tal furor, o que leva a pensar que, para o público, um móvel onde se pousam livros, filmes, jogos ou música é muito diferente de um móvel onde se pousam pratos ou traseiros.

E é também curioso em que numa época em que música, jogos, livros, filmes são cada vez mais imateriais, escondidos em discos rígidos ou a pairar na nuvem da Internet, os objectos que os suportam continuam a ser preciosos, ou, pelo menos, mais preciosos do que o conforto das nossas nádegas.

O filósofo Walter Benjamin afirmou que a reprodução mecânica da obra de arte iria tornar o objecto de arte original ainda mais precioso, mas talvez não imaginasse que a reprodução digital, que na verdade faz desaparecer o objecto da arte, tornasse a existência material da arte — o papel do livro, a caixa dos DVDs ou dos jogos, o invólucro de cartão do vinil — ainda mais precioso, mesmo quando não é mais do que mais uma de milhares ou milhões de cópias.

Pois um livro que habita uma mesa ou uma prateleira é diferente de um livro que se abre com um clique e uma música que se leva no telemóvel, entre contactos, fotos e mensagens, não tem a aura especial de um vinil que é preciso depositar cuidadosamente no prato e dar a beber à agulha.

Possivelmente porque o amor — mesmo o amor às palavras, aos sons, às imagens — é ainda um amor sensual, feito de olfacto, tacto e posse física. E a todas as paixões sensuais se quer dar um palácio para viver, ou, pelo menos, o melhor móvel Ikea que o dinheiro possa comprar.

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