Opinião

A questão alemã: uma história recorrente

A Alemanha preponderante está de volta. Só que agora é uma democracia.

Completam-se agora 70 anos sobre a Conferência de Potsdam, na qual, em 17 de Julho de 1945, os aliados vencedores definiram o mapa da Europa do pós-guerra.

Churchill, ainda como primeiro-ministro britânico, (perderia as eleições a 26 de Julho) participou nessa conferência nos arredores de Berlim e escreveu nas suas memórias, que ficou “grandemente comovido com aquelas figuras esquálidas e alheadas e roupas andrajosas”, que era à data a população alemã. Como refere o seu mais recente biógrafo Boris Johnson, a “guerra de Churchill nunca fora contra o povo alemão; eram os nazis que ele queria esmagar”.

 A Alemanha determina de facto, com a sua história e geografia, os destinos da maior parte dos países da Europa. Desde o Sacro Império Romano Germânico até hoje, os territórios alemães constituíram sempre o tabuleiro de xadrez para a paz ou uma arena para o conflito: Na “Guerra dos 30 anos” (1618-1648); nas “ Guerras Napoleónicas” (1803-1815); na brevíssima Guerra Franco-Prussiana (1870-1871); na Grande Guerra (1914-1918) e finalmente na II Guerra Mundial (1939-1945). Todos os conflitos fundamentais na história europeia passaram, ou tiveram como agente principal, o povo ou o território da Alemanha.

No início do Séc. XX vigorava, na Alemanha, a noção que ao progresso económico notável do agora Estado-nação, à rápida difusão do investimento e comércio alemães por todo o mundo e aos avanços em áreas como a ciência, deveria corresponder um aumento da sua influência no mundo. A Alemanha, tinha de ser considerada e respeitada. Como assim não era, acabou por mergulhar todo o continente na I Guerra Mundial.

No rescaldo desta, como de todas as guerras europeias, os vencedores impuseram sempre pesadas indemnizações e tratados humilhantes aos vencidos. Ao que consta da história, quase nenhum dos vencidos pagou tais indemnizações.

A Alemanha livrou-se da divida da II Guerra, através dum tratado de perdão assinado, em Londres, em 1953. Curiosamente, a Inglaterra que foi uma das potências vencedoras, teve de pagar todos os empréstimos-aluguer contraídos com os americanos. Apenas em Dezembro de 2006, emitiu o último cheque de 88 milhões de dólares, saldando a divida 60 anos depois.

Ao contrário do sucedido na I Guerra, que a Alemanha perdeu sem que o seu território tenha sido tocado, na II Guerra o solo alemão não ficou intacto. A Alemanha estava muito destruída e no grau que Roberto Rossellini tão brilhantemente ilustra no seu filme de 1948, Alemanha, Ano Zero.

Mas as aparências, por muito evidentes que sejam, podem iludir. E no caso alemão foi mesmo assim. As infraestruturas essenciais sobreviveram à guerra sem grandes danos. Os investimentos nazis em vias de comunicação, fabrico de veículos, óptica, química, metalurgia ligeira, fizeram a diferença. Bancos, seguradoras, distribuidoras, estavam de novo em plena actividade em 1950. Métodos de produção novos garantiam custos de produção baixos. Ainda estava o solo quente pelos bombardeamentos aliados, já a Alemanha exportava Mercedes, BMW, Volkswagen etc.

No início dos anos 60 do Séc. XX, meros 15 anos após a derrota na guerra, a então Republica Federal da Alemanha, fundadora do Mercado Comum, era a mais florescente e próspera sede de poder na Europa: O corporativismo alemão, caracterizado por uma perene intimidade entre o negócio industrial e a alta finança, a subsistência dum estado providência que se foi reformando a tempo, um compromisso social-estatal e o federalismo secular com 16 capitais de província, garantiram a estabilidade.

Dar a entender que foi sobretudo o perdão da divida de guerra, que tornou possível este novo “milagre alemão”, é fazer jus ao ditado que não há pior cego que aquele que não quer ver. Então a produtividade, organização, eficácia e determinação alemã, não foram o factor mais relevante? E a Alemanha não é provavelmente, o Estado de Direito mais consistente da Europa actual?

Segundo George Soros, “a Alemanha não quer dominar a Europa, mas a disposição para fazer sacrifícios desapareceu. Naquela época, (antes do Euro) a Alemanha estava sempre disposta a dar um pouco mais e receber um pouco menos. Foi isso que permitiu, por algum tempo, o sucesso do processo de integração”. Sentimentos antialemães, não farão milagres nos países do sul. O facto é que a Alemanha preponderante está de volta. Só que agora é uma democracia. A conjugação no tempo destes dois factores, não tem precedente. É a grande novidade.

Jurista

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