As vidas trocadas de quatro gémeos

O que acontece quando dois pares de gémeos idênticos descobrem que foram trocados na maternidade — e imaginam o que as suas vidas poderiam ter sido.

Era uma tarde de sábado no Verão de 2013. Janeth Páez e Laura Vega Garzón queriam comprar costeletas de porco para um churrasco. Janeth sugeriu que passassem por um supermercado no Norte de Bogotá, não muito longe do sítio onde a amiga vivia. William, primo do seu namorado e um rapaz muito simpático com um forte sotaque rural, trabalhava lá e era perito a cortar os bifes e pés de porco que os fregueses gostavam de cozer com feijão. Janeth tinha a certeza de que conseguiriam um bom desconto nas costeletas.

Quando Laura chegou à secção de carnes, enquanto punha a conversa em dia com Janeth, ficou surpreendida por ver uma pessoa conhecida. Atrás do balcão estava um colega da empresa de engenharia onde trabalhava, a Strycon. Acenou efusivamente, mas ele mal deu por ela. “É o Jorge!”, disse Laura. “Trabalha lá no escritório.” Jorge era um rapaz de 24 anos, muito popular na empresa, que desenhava tubos de transporte de petróleo e que trabalhava alguns pisos acima do escritório dela. Ficou surpreendida por o ver ali, a atender os fregueses.

“Não é, não. É o William”, disse Janeth. William trabalhava arduamente e raras vezes deixava o balcão; só saía dali para ir dormir e seguramente não era empregado da Strycon. “É o Jorge, eu conheço-o”, insistiu Laura. Mas ele não lhe sorria de volta, o que era estranho. Passados alguns instantes, saiu de trás do balcão para um cumprimento rápido, abraçando Janeth, que o apresentou a Laura como William.

Laura estava perplexa. Porque é que Jorge fingia ser outra pessoa? Talvez, pensou, tivesse vergonha de ter sido apanhado a fazer um biscate, com o avental ensanguentado e o boné branco de talhante. Janeth insistia que a amiga estava enganada, mas Laura não estava convencida. Era mais fácil acreditar que o rapaz estava a fazer-se passar por outro do que imaginar que pudessem existir duas pessoas tão parecidas. Não era só a cor de pele ou as maçãs do rosto salientes. Era a estatura física, a textura dos cabelos, o trejeito da boca e dezenas de detalhes que ela não conseguia identificar de imediato, mas que tudo somado resultava numa semelhança raríssima.

Na segunda-feira seguinte, já na Strycon, Laura contou a Jorge aquele estranho encontro com o seu sósia no talho. Jorge riu e disse que, efectivamente, tinha um irmão gémeo, chamado Carlos, mas que não eram nada parecidos.

Naquele instante, Jorge tinha diante de si provas suficientes que indicavam que a sua vida não era aquilo que ele pensava, que a sua família não era aquela que ele pensava. Mas há um ditado que Carlos, homem de muitos provérbios, às vezes aplicava a ele: “O pior cego é aquele que não quer ver.”

A fotografia, a verdade

Um mês depois, Laura disse à amiga que abrira uma vaga no departamento de desenho da Strycon, e Janeth conseguiu o emprego. Pouco depois, foi apresentada a Jorge e compreendeu imediatamente a confusão de Laura no talho. Os dois rapazes tinham os mesmos olhos castanhos e suaves, a mesma forma de andar saltitante, com os pés para fora, o mesmo sorriso alegre e contagiante. Janeth sentiu que não o conhecia suficientemente bem para abordar o assunto, mas mostrou a William uma foto de Jorge. O rapaz riu e mostrou a foto aos colegas do supermercado, divertido com a coincidência.

Seis meses depois, Janeth mudou de emprego. Ainda assim, sempre que ela e o namorado encontravam William, questionava-se se não deveria ter falado dele a Jorge. A dúvida perseguiu-a até ao dia 9 de Setembro de 2014, quando decidiu enviar a Laura, por telemóvel, uma foto de William, para que ela a mostrasse a Jorge. Laura subiu ao andar dele, ansiosa por ver a sua reacção. Sorrindo, olhou para o telemóvel. “Mas este sou eu!”, disse, fixando ecrã.

William vestia a camisola amarela da selecção colombiana, praticamente a farda nacional em dias de jogos importantes. Jorge usava com frequência uma camisola igual, o que tornava a semelhança ainda mais evidente. Um amigo passou pela sua secretária e Jorge quis ouvir a sua opinião. “Diz-me o que achas desta fotografia”, disse, passando-lhe o telemóvel. “Ficaste bem”, respondeu o amigo. “Só que não sou eu”, disse Jorge, sem conseguir tirar os olhos do telefone.

Nesse dia, já não conseguiu trabalhar. Sentou-se com Laura na cozinha do escritório. Talvez o pai dele, que pouco mais era do que um visitante ocasional lá em casa, tivesse tido outro filho, que nunca revelara. Jorge começou a olhar para mais fotografias que William publicara no Facebook, agora no seu próprio telemóvel. Desconcertado, reparou numa foto de William com avental — parecia-se muito com ele próprio, nos raros dias em que tinha de vestir avental no laboratório. Viu também uma foto de William de copo na mão com um amigo.

Depois, foi para o computador, para ver melhor as imagens. Voltou a clicar na fotografia de William com o amigo, com o copo de licor. Agora com a imagem ampliada conseguia ver aquilo que incrivelmente lhe escapara quando viu a foto no telefone. Aproximou-se mais, com o nariz quase a tocar no ecrã. Os cabelos do homem estavam penteados para trás como uma crista de galo e a camisa não estava com nada. Mas ali se via o lábio inferior carnudo e os espessos cabelos castanhos que Jorge conhecia bem. Os botões da camisa sofriam uma ligeira pressão de uma barriguinha que lhe era bem familiar. Jorge ficou confuso e sentiu um frio no estômago. O amigo sentado ao lado de seu sósia tinha um rosto que ele conhecia melhor do que o seu próprio: era o rosto de Carlos, o seu irmão gémeo.

Jorge e Carlos

Depois do trabalho, Jorge caminhou como sempre fazia até à universidade onde estudava à noite. Não conseguiu tirar os olhos das imagens do telefone. Depois das aulas, apanhou um autocarro para casa, para contar a Carlos o que acontecera.

Na infância, Carlos era o gémeo que se esmerava com os trabalhos da escola e Jorge o que os copiava. Ambos se safaram. Carlos trabalhava numa empresa de contabilidade durante o dia e à noite estava também na faculdade. O confortável apartamento de dois quartos que partilhavam num bairro de classe média era já um degrau acima em relação ao lar da infância. A mãe, empregada doméstica, criou os dois filhos e a filha mais velha, Diana, numa pequena divisão de uma casa em Bogotá que pertencia à avó deles. Nunca sentiram que lhes faltasse alguma coisa. Enfiaram ali uma televisão e um frigorífico, e as escolas públicas do bairro eram boas. Mas agora viviam melhor – Jorge podia viajar para assistir a jogos de futebol e Carlos gostava de sair à noite. Os três irmãos só lamentavam que a mãe, que morrera de cancro no estômago quatro anos antes, não tivesse vivido o suficiente para que eles lhe pudessem proporcionar uma vida melhor.

No autocarro, Jorge tentou pensar naquilo que iria dizer a Carlos. Já tinha falado das fotos a Diana. “Mas não fiques a provocar o Carlos com essa história”, dissera-lhe ela. Ao chegar a casa, encontrou o irmão ao telefone com uma mulher, como era seu hábito. Jorge disse-lhe para desligar. “Não me chateies”, respondeu Carlos. Esta era a dinâmica dos irmãos: Jorge importunava-o, fazia piadas, andava à volta dele, sem o largar. E quanto mais o irmão se irritava, mais Jorge se divertia.

Por fim, Carlos terminou o telefonema. Jorge decidiu que tentaria manter o ambiente leve. Arrancou com uma pergunta: “O que é que dirias se eu te dissesse que tens um gémeo idêntico?” Carlos não parecia divertido. Jorge tentou de novo: “Acreditas em telenovelas?”

Carlos começava a perder a paciência. Se ele tinha alguma coisa para lhe dizer, que dissesse de uma vez. Jorge conduziu o irmão ao quarto e sentaram-se diante do portátil, começando a clicar nas fotos, mostrando-lhe William com a camisola da selecção e outras, no talho. Carlos riu, atordoado com a estranha semelhança. Então, Jorge clicou na foto de William ao lado do sósia de Carlos, a foto em que aparecem com um copinho de shot na mão.

Ao contrário de Jorge, cuja primeira reacção fora examinar a foto mais de perto, Carlos deu um salto para trás, como se tivesse sido fortemente atingido no peito. “Quem são?”, perguntou. Estava furioso.

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Foto
Jorge Enrique Bernal Castro

O irmão contou a Carlos tudo que Janeth e Laura lhe tinham revelado naquele dia. Os dois jovens da fotografia tinham sido criados numa quinta remota em Santander, uma região predominantemente rural a norte, cujos habitantes tinham fama de ter um temperamento forte e um grande apreço pelas suas armas. De acordo com o Facebook, nasceram, tal como Jorge e Carlos, no final de Dezembro de 1988.

Talvez, sugeriu Jorge, tenha havido uma troca no hospital — uma enfermeira pode ter trocado por engano um gémeo idêntico por um bebé do outro par de gémeos. Não disse o que aquilo significava: que um dos dois, ou ele ou Carlos, tinha nascido de outra mãe. Que provavelmente não eram irmãos gémeos nem sequer tinham um parentesco biológico. E nenhum dos dois admitiu o que ambos já sabiam: que se acidentalmente alguém entrou na família, era quase certo que esse alguém era Carlos.

Que Carlos nunca se pareceu nem com Jorge nem com Diana era óbvio. Os seus irmãos tinham a constituição física delicada da mãe, as suas maçãs do rosto salientes, os seus olhos. Carlos era mais alto, de constituição robusta, tinha um nariz mais largo e a testa mais ampla. E a diferença não era apenas física: Carlos sempre se sentira um estranho na família, embora preferisse pensar em si como mais independente. Em criança, não se interessava pelas brincadeiras de faz-de-conta da mãe e dos irmãos, as vozes engraçadas que faziam durante horas, a fingir que eram outra pessoa. Desde que a mãe morreu, contactava Diana muito menos assiduamente que Jorge. Era o único da família que se importava com moda e Deus sabe que era também o único que sabia dançar. Os gémeos sempre acharam que Carlos saía ao pai, mas não o conheciam suficientemente bem para ter a certeza.

Mas o seu sentimento de distância não diminuiu em nada a sua ligação à mãe. Sempre a adorou: era uma mulher forte, sem ser propriamente dura — quando ele e Jorge andavam à luta, ela batia-lhes com uma pantufa felpuda, o que sempre os fazia rir e era, provavelmente, o que ela queria. Por menos dinheiro que tivesse, ela garantiu que os filhos frequentassem uma boa escola e convenceu-os de que o futuro seria o que eles quisessem que fosse. Carlos sentia que lhe devia tudo o que conseguira até aqui.

Sentado ao lado de Jorge, desligou o portátil, em silêncio. Depois, foi para o seu quarto e fechou a porta. Jorge foi atrás dele, dizendo coisas que, Carlos sabia, pretendiam consolá-lo — não importa se um de nós foi trocado, ainda somos irmãos —, mas que só o faziam sentir-se ainda mais isolado. “Olha”, disse ele a Jorge, “vamos esquecer essa história.” Disse ao irmão para nunca mais voltar a falar-lhe nesse assunto.

Naquela noite, Carlos mal dormiu. Nada daquilo fazia sentido. Como é que era possível que a sua mãe não o tivesse gerado? Ele já tinha chorado por ela. Agora voltava a chorá-la, como se a tivesse perdido pela segunda vez. Sentia-se sem chão, impotente, sozinho. Ao fundo do corredor, Jorge dormia como um bebé.

William e Wilber

No dia seguinte, assim que William abriu o talho, seu primo Brian — o namorado de Janeth — chegou para o seu turno de 12 horas. William, que fora rapidamente promovido a chefe de secção, estava feliz por ter contratado o primo, estudante em part-time. Em muitos aspectos, sentia-se mais próximo dele do que do seu irmão gémeo, Wilber. Brian cresceu em Bogotá, e quando William chegou à capital, em 2009, os dois passavam dias inteiros a fazer e vender bolos de milho na rua, à chuva, debaixo do sol, passando o tempo a rir e a fazer rir os clientes. Já William e Wilber eram incapazes de passar tanto tempo juntos sem se pegarem. Quando mais tarde Wilber trabalhou para William no talho, William ficava irritado por ele estar constantemente com limpezas em vez de atender os fregueses e por não lhe reconhecer autoridade. Wilber tinha humores, pensava William, e era incapaz de suportar uma brincadeira.

Enquanto Brian e William organizavam a loja, Brian contou que na véspera Janeth lhe tinha mostrado fotografias de dois jovens que eram iguaizinhos a William e Wilber. William achou piada e ficou intrigado. Lembrou-se de que alguns meses antes Janeth também lhe mostrara a foto do seu sósia. Mas aquela coincidência parecia ainda mais estranha. Enviou uma mensagem a Janeth, pedindo-lhe para ver as fotos. Assim que a primeira delas chegou, William soltou um grito — “Aiiiii!” — e começou a rir.

Janeth sugeria, na mensagem escrita, que talvez ele ou o irmão tivesse ficado doente em Santander e tenha sido enviado para um hospital em Bogotá. William entrou em contacto com uma tia, que lhe confirmou que sim, ele tinha sido enviado para um hospital em Bogotá logo depois do parto. Os gémeos nasceram de sete meses, e William teve problemas digestivos. A tia adiantou que foi tratado no Materno-Infantil na cidade.

William contou isto a Janeth, que afirmou que iria perguntar a Jorge onde é que ele tinha nascido. Se fosse no Materno-Infantil, então tudo ficava claro: só podia ter havido uma troca.

Até aquele momento, William, tal como Janeth, estava enredado no divertimento e no suspense de juntar as peças todas. Mas agora começava a ser invadido por uma onda de ansiedade. Ele sempre tivera um aspecto diferente do resto da família e desejara também coisas diferentes — uma vida para além da quinta. Mas nunca pôs a hipótese de ser de facto diferente — que pudesse não ser um deles. Olhou em volta e mal conseguia distinguir os fregueses, os pedaços de carne ensanguentada, o primo preocupado. Saiu e subiu as escadas para o seu apartamento, no 3.º andar do mesmo prédio. Pôs-se a mandar compulsivamente mensagens para Janeth, para ver se ela já tinha alguma informação sobre o hospital onde Jorge nasceu.

Minutos mais tarde, voltou apressado à loja e mostrou a Brian a mensagem dela: Jorge e Carlos tinham realmente nascido no Materno-Infantil. “Confirmado”, disse. Depois, sentou-se num banco nas traseiras do talho e desatou a chorar. Cada pensamento desencadeava outro igualmente doloroso. Ele tinha sido arrancado de seu lugar de direito. Era um desaparecido de quem ninguém sentia falta. Como iria contar à sua mãe? Ela tinha seis filhos, mas ele é que lhe mandava dinheiro. Era ele que se preocupava quando ela ficava doente e que a animava quando estava triste, enchendo-a de abraços e beijinhos e mordidelas na orelha para a fazer rir. Sabia que a notícia lhe partiria o coração; já estava a partir o dele.

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Foto
William Cañas Velasco

Só uma vez na vida, há alguns anos, William falou duramente com a mãe. Tinha terminado o serviço militar e até se saíra bem, ganhando, entre os 92 soldados de seu pelotão, uma bolsa de estudos para se formar como suboficial, um caminho que lhe propiciaria uma educação e um salto significativo em termos de estatuto. Mas afinal os militares não podiam atribuir-lhe a bolsa, porque os pais o tinham tirado da escola aos 12 anos e ele não tinha diploma equivalente ao secundário. “Devias ter-me deixado ir à escola”, gritou com a mãe em casa, em Santander. A escola mais próxima ficava a cinco horas a pé e a família teria precisado de lhe arranjar alojamento, comprar-lhe a farda e pagar as taxas de matrícula — para não falar dos custos de não contar com o seu trabalho na quinta. Ainda assim, William achava que a mãe deveria ter encontrado uma solução, que deveria ter sido mais hábil e lutado com todas as suas forças. Ele próprio teria lutado por isso, mas, aos 12 anos, o que poderia ele fazer?

Enquanto chorava sentado no banco, William era levado por sentimentos que apenas com o tempo seria capaz de articular: a preocupação e o sentimento de culpa da mãe; a oportunidade perdida de crescer em Bogotá, onde poderia ter ido à escola, em vez de trabalhar no campo, ajudando na colheita; o pesar por sempre se ter sentido diferente do resto da família, uma família que o amava, mas que ainda assim o provocava por ele não se encaixar nela. Perplexo, Brian, a seu lado, não sabia o que dizer. Não havia frases feitas para uma situação como esta. Para seu alívio, passados dez minutos, William parou de chorar e levantou-se. Sabia trabalhar e era isso mesmo que iria fazer. Voltaram para dentro e começaram a limpar o balcão e a organizar os utensílios, à espera do freguês seguinte.

William acabou por enviar uma mensagem a Wilber, que naquele dia estava a trabalhar noutro talho, dizendo-lhe que tinha de ir ter com ele imediatamente. À tarde, quando o irmão chegou, William disse que precisava de lhe mostrar uma coisa — e, no telemóvel, clicou numa foto de Jorge e Carlos. Wilber percebeu imediatamente, com total clareza, o que todos os outros levaram horas a compreender. “Então nós fomos trocados?”, disse, encolhendo os ombros e incomodado com a seriedade com que William encarava a fotografia. “Não me importa quem eles são. Tu és meu irmão e vais continuar a ser até eu morrer.”

Cara a cara

De vez em quando, às vezes horas a seguir à concepção ou, em geral, vários dias depois, as forças que unem células recém-divididas, configurando-as numa única massa coesa, de algum modo cedem. Em vez de se manterem juntas num conjunto que, meses mais tarde, vai formar um ser humano e, por fim, um indivíduo, essas células dividem-se em duas entidades independentes, cada uma com as suas próprias células em frenética divisão. Elas são separadas, mas são também uma coisa só: cada núcleo de cada célula carrega o mesmo DNA. Gémeos idênticos começam as suas vidas como acidentes fortuitos, resultado extraordinário de uma falha sistémica.

A formação de gémeos falsos é mais prosaica. Dois espermatozóides distintos encontram dois óvulos diferentes e dão origem a dois bebés. Os gémeos falsos não são mais geneticamente parecidos que dois irmãos quaisquer. O que é singular neles é apenas a simultaneidade: são concebidos e nascem quase ao mesmo tempo.

Cada um dos quatro jovens de Bogotá foi criado como gémeo falso, com uma identidade própria. Agora, davam-se conta, cada um tinha um gémeo idêntico, fazia parte de um par perfeito. Antes ainda de os quatro se conhecerem, já estavam a alinhar-se, sem o saber, com o gémeo com quem tinham partilhado o útero. Carlos e Wilber foram cautelosos, convencidos de que ninguém deveria levar por diante aquela história — quem sabe os problemas que aquelas pessoas poderiam trazer? Pelo contrário, William e Jorge revelaram-se abertos à possibilidade de um encontro — poucas horas depois da revelação, Janeth já estava a fazer diligências para que eles se encontrassem numa praça pública, às nove da noite, assim que William fechasse a loja.

Wilber, que no início resistiu à ideia de conhecer os outros irmãos, foi ficando cada vez mais curioso à medida que olhava para as fotografias e acabou por querer ir também. Por volta das três da tarde, William falou com Jorge pela primeira vez e perguntou se, além de Brian e Janeth, Wilber podia ir também. Ficou aliviado quando Jorge disse que sim. Ambos notaram que as suas vozes não eram parecidas. A de William era mais rouca e, claro, tinha sotaque de Santander. Também chamou “senhor” a Jorge, uma formalidade típica das pessoas do interior. Jorge gostou da voz dele; parecia não apenas simpático, mas boa pessoa.

À medida que o momento se aproximava, William ia ficando mais nervoso e calado. Saiu do trabalho e foi cortar o cabelo. Vestiu a sua melhor camisola, preta com riscas cinzentas. Levou a arma, hábito que adquirira durante o serviço militar. Andava às voltas.

Na outra ponta da cidade, Jorge também estava inquieto. Pedira ao irmão que fosse com ele, mas Carlos tinha um compromisso com uma rapariga e não quis cancelá-lo. Quando encontrou um amigo da faculdade, Jorge pediu-lhe que fosse com ele, para dar apoio moral.

Na hora marcada, Jorge já estava na praça, olhando em volta. Tinha as palmas das mãos suadas e mal conseguia respirar por causa da pressão que sentia na barriga. Em poucos minutos, um grupo apareceu a caminhar na sua direcção. Lá estava William — tinha a cara de Jorge, o mesmo andar, o mesmo ritmo, com os pés para fora.

Brian filmou o encontro com o telemóvel. Com o som desligado, sem se ouvir as palavras nervosas, o vídeo mostra Jorge e William numa espécie de pantomima coreografada e ritualizada. William olha fixamente para Jorge, enquanto Jorge desvia o olhar; a seguir, é William quem volta a cabeça para o outro lado, como se, intuitivamente, desse a Jorge a oportunidade de olhar fixamente para o seu rosto, o que ele, de facto, faz, analisando-o de cima a baixo. Os dois olham-se directamente nos olhos — há um momento de contacto visual que é de uma intimidade incrível e uma troca de sorrisos — e depois cada um deles olha rapidamente para o lado. Nesta troca de olhadelas um para o outro, parecem um par de apaixonados no momento em que está prestes a confessar a sua mútua paixão.

Jorge recompõe-se e dirige, enfim, um olhar de avaliação a William; como mastiga pastilha elástica, o queixo não pára de trabalhar. Depois, leva a mão à bochecha, pressionando a própria carne. Sim, este sou eu. Aquela pessoa ali é ele. William está calado, apoiando-se ora numa perna, ora na outra, o que dá a impressão de estar a balançar. (“Foi como olhar num espelho e ver, do outro lado, um universo paralelo”, Jorge diria mais tarde.)

Para Jorge, era claramente mais fácil encarar Wilber, o sósia de Carlos — olha-o e abana a cabeça. Wilber tinha visto as fotos de Carlos, que usava óculos. “Só me faltam os óculos!”, disse, com um risinho agudo que fez Jorge sentir outra vez aquela pressão no peito: era o riso de Carlos.

Depois de ter visto como William era parecido com Jorge, Wilber ansiava agora conhecer Carlos. Jorge telefonou para o irmão, avisando que estavam a ir para lá, e o grupo apanhou dois táxis rumo ao apartamento de Jorge e Carlos.

Por volta das dez da noite, Carlos ouviu o toque da campainha. Caminhou até a porta e ali ficou, paralisado: mal conseguia abri-la. Sabia que era Jorge com aqueles rapazes das fotos. Aquelas pessoas não eram apenas estranhas, eram mais estranhas que estranhos: eram personagens de uma história sobre a sua vida que ele não controlava.

“Abre a porta!”, Jorge ordenou. Carlos ouviu uma risadinha. Era a sua própria, mas não vinha dele — ou talvez viesse. “Não quero”, Carlos respondeu. “Tenho medo.” Passaram-se segundos, Carlos ria nervosamente de um lado, Wilber do outro. “Carlos, abre!”, repetiu Jorge. Não se pode tapar o sol com a peneira, costumava dizer a mãe deles.

Carlos abriu a porta e o grupo entrou, como uma procissão num sonho. Ali estavam Jorge e seu sósia — um Jorge com uma camisola estranha; era Jorge, mas mais calado, sem a sua confiança. Ali estava uma mulher e um outro tipo. E ali estava ele: Carlos olhava para si próprio, uma visão modificada de si mesmo, uma fotocópia engraçada, uma piada, um pesadelo.

Olhou para Wilber, o reflexo da sua imagem. Os dois se entreolharam de relance — ambos soltaram um “ai!” e viraram as costas, tapando os olhos e corando. Wilber começou a falar, mas Carlos tinha dificuldade em entender o que ele dizia. Wilber trocava o “r” enrolado por um “d” pronunciado. O defeito da fala! Carlos também o teve em criança, mas superou-o com terapia.

Os quatro começaram a comparar-se, interrogando-se para descobrir as características partilhadas pelos gémeos idênticos. Quem eram os birrentos da família? Carlos e Wilber! E os mais dóceis? Jorge e William! Quem eram os mais organizados? Carlos e Wilber! E os que corriam atrás das miúdas? Carlos e Wilber! E os mais fortes? Jorge e William!

Ainda assim, enquanto Jorge só via semelhanças a cada olhar que lançava a William, Carlos procurava as diferenças entre ele e seu duplo de Santander. “Olha para as nossas mãos”, disse. “Não são iguais.” As de Wilber eram maiores, mais grossas, cheias de cicatrizes da lida com as facas do talho e com as catanas que, quando era mais jovem, usava no campo. Carlos, por outro lado, ia frequentemente à manicure — as suas unhas, como é vulgar entre os colombianos, estavam cobertas de verniz incolor.

William perguntou a Jorge sobre a sua mãe biológica. Como era ela? Onde estava? Observando cuidadosamente o rosto de William, Jorge contou-lhe que a mãe deles morrera de cancro quatro anos antes. Mostrou-lhe uma foto dela ainda jovem: cabelos compridos presos na nuca, belos olhos num rosto de expressão doce e séria. Ao olhar para a fotografia, William sentiu uma nova onda de pesar e ficou em silêncio durante vários minutos.

Durante a maior parte da noite, o ambiente foi positivo e de arrebatamento. Os rapazes divertiam-se revelando as hilariantes semelhanças, mais fáceis de identificar do que as diferenças. Mas para cada um deles, do outro lado da porta, pairava um profundo sentimento de perda: o tempo perdido com pais e irmãos biológicos, as oportunidades perdidas, os anos perdidos, os perdidos mitos da criação.

Jorge parecia determinado a manter afastados aqueles sentimentos, pelo menos por agora. “Tudo que aconteceu”, disse ao grupo, “é que nossas famílias ficaram maiores.” Alguém perguntou: “Equipa de futebol favorita?” E os quatro gritaram em uníssono o nome de uma equipa popular na Colômbia: “Atlético Nacional!”

Por volta da meia-noite, as visitas foram embora, com a promessa de que em breve se reencontrariam. Jorge e Carlos entreolharam-se na sala vazia. Tudo continuava igual, tudo tinha mudado. “E agora, o que é que fazemos?”, perguntou Carlos. Jorge percebeu que ele tinha começado a chorar. Carlos, então, caminhou até Jorge e deu-lhe um abraço apertado. “Eu quero ser seu irmão”, disse.

II Parte 

Quando dois é igual a um

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Foto
Da esquerda para a direita: Jorge, William, Carlos e Wilber

Gémeos idênticos não fazem muito sentido, do ponto de vista evolutivo. Já os gémeos falsos têm o benefício da diversidade genética, o que aumenta as probabilidades de pelo menos um sobreviver a um eventual infortúnio. Mas apesar desse seu carácter inexplicável, os gémeos idênticos ajudam-nos a elucidar o entendimento mais básico de como e porquê nos tornamos naquilo que somos. Mediante o estudo da sobreposição de características em gémeos falsos (que, em média, partilham 50% dos seus genes) e em gémeos idênticos (que partilham 100% dos seus genes), os cientistas têm tentado, há mais de um século, descobrir quanto da variação que encontramos no interior de uma população pode ser atribuído à hereditariedade e quanto ao ambiente.

“Os gémeos merecem uma grande atenção”, escreveu sir Francis Galton, cientista britânico que, no final do século XIX, foi o primeiro a comparar gémeos muito parecidos com gémeos não tão parecidos (embora a ciência da época ainda não diferenciasse os gémeos idênticos dos falsos). “Isto porque a sua história permite-nos distinguir os efeitos das tendências herdadas dos efeitos impostos pelas circunstâncias da vida.”

Galton, que era primo de Darwin, é conhecido tanto por ter cunhado o termo “eugenia” como pela sua análise inovadora dos gémeos (tendo concluído, em parte decorrente da sua pesquisa, que pessoas saudáveis e inteligentes deveriam receber incentivos para procriar mais). O seu sucessor científico, o dermatologista alemão Hermann Werner Siemens, realizou no início da década de 1920 os primeiros estudos com gémeos, não muito díspares daqueles que têm sido efectuados. Mas Siemens também chegou a conclusões que, durante várias décadas, contaminaram a área de investigação que ele liderou, apoiando os argumentos de Hitler a favor da “higiene racial”. Ao procurar as origens genéticas de vários traços considerados desejáveis ou indesejáveis, investigadores como ele pareciam aproximar-se perigosamente da busca por uma raça superior.

Mas, apesar de períodos de muita controvérsia, o estudo dos gémeos proliferou. Ao longo dos últimos 50 anos, cerca de 17 mil traços foram analisados, de acordo com uma meta-análise conduzida pela cientista holandesa Tinca Polderman e pelo australiano Beben Benyamin, e publicada este ano na Nature Genetics.

Cientistas afirmam ter identificado influência genética em características tão variadas como a posse de armas, a preferência eleitoral, a homossexualidade, a satisfação no trabalho, o consumo de café, a obediência às regras e a insónia. Para onde quer que olhassem, os investigadores concluíram  que os resultados dos testes aplicados em gémeos idênticos são mais semelhantes do que aqueles aplicados em gémeos fraternos.

As pesquisas apontam para a influência dos genes em quase todos os aspectos de nosso ser (uma conclusão tão abrangente que alguns cientistas concluíram que certamente haveria algum erro fatal na metodologia empregada). “Tudo pode ser herdado”, afirma Eric Turkheimer, geneticista comportamental da Universidade de Virgínia. “Quanto mais geneticamente aparentadas forem duas pessoas, mais semelhanças elas terão em qualquer aspecto que se queira examinar” – quer seja a personalidade, quer seja a preferência por programas de televisão ou a tendência política. “Mas isso pode ser verdade mesmo sem que haja algum mecanismo específico, alguma versão de um gene como o da doença de Huntington. É algo que resulta dos complexos efeitos combinados de um número incontável de genes.”

O ramo mais surpreendente da pesquisa acerca dos gémeos talvez seja aquele que envolve uma classe pequena e invulgar de sujeitos: a dos gémeos idênticos criados separadamente. Thomas Bouchard Jr., um psicólogo da Universidade de Minnesota, começou a estudá-los em 1979, quando ficou a saber do caso de Jim e Jim, gémeos de Ohio que tinham sido reunidos naquela época, aos 39 anos de idade. Não só eram incrivelmente parecidos, como também passavam férias na mesma praia, em Miami, casaram-se com mulheres com o mesmo nome, divorciaram-se, tornaram a casar-se com mulheres com o mesmo nome, fumavam a mesma marca de cigarros e tinham por hobby construir móveis em miniatura. Parecidos tanto em personalidade como no tom de voz, era como se tivessem sido formados por inteiro na concepção, impermeáveis aos efeitos exercidos por pais, irmãos ou geografia.

Bouchard pesquisou mais de 80 pares de gémeos idênticos criados separadamente, comparando-os a gémeos idênticos criados juntos e também a gémeos fraternos criados juntos e em separado. Descobriu que, praticamente em todos os casos, os gémeos idênticos, criados juntos ou não, eram mais parecidos que os fraternos, tanto em personalidade como — resultado ainda mais controverso — em inteligência. Uma descoberta inesperada na sua investigação sugeria que o efeito do ambiente partilhado por um par de gémeos — por exemplo, os seus pais — tinha pouco peso na personalidade. Os genes e as experiências únicas — como um semestre no estrangeiro ou um amigo importante — exerciam mais influência.

Do ponto de vista científico, o estudo dos gémeos que não foram criados juntos tem causado problemas aos pesquisadores. Esses gémeos apresentam-se voluntariamente para participar nas investigações ou tornam-se conhecidos através dos media, mais inclinados a cobrir histórias de gémeos idênticos incrivelmente parecidos, que se casaram com mulheres com o mesmo nome e depois se divorciaram, ou que escolheram como hobby uma mesma actividade incomum. É claro que gémeos idênticos que não sejam tão parecidos têm menos probabilidades de ser identificados e reunidos. E poucos estudos com gémeos, criados separadamente ou não, conseguiram incluir irmãos de procedências radicalmente diversas.

“Todos os estudos terão os seus críticos”, afirma Nancy Segal, titular da Universidade do Estado da Califórnia em Fullerton, que trabalhou com Bouchard de 1982 a 1991. “Mas estudar gémeos criados separadamente distingue melhor os efeitos da genética e do ambiente sobre o comportamento.”

Segal tem estudado gémeos chineses desde 2003 (fraternos e idênticos, criados juntos ou não). Nos seus livros, a investigadora mistura ciência com histórias de interesse humano, comprovações estatísticas com detalhes anedóticos: as gémeas idênticas criadas longe uma da outra que usavam, cada uma delas, sete anéis; ou as irmãs criadas em separado que coçavam o nariz exactamente da mesma maneira e davam o mesmo nome àquele tique.

Em Outubro do ano passado, Yesika Montoya, uma psicóloga colombiana que hoje trabalha como assistente social na Universidade Columbia, viu no Facebook um vídeo de um programa da televisão colombiana (Séptimo Día) que confirmava, mediante testes de DNA, que os quatro rapazes de Bogotá formavam dois pares de gémeos idênticos. Montoya entrou em contacto com Segal, que só conhecia de nome e reputação. Depois, abordou os rapazes, que concordaram em ser objecto de um estudo.

Não importa o fascínio que exerçam, os dois pares de gémeos representam uma amostra de apenas dois. Para Segal, porém, as possibilidades eram fantásticas, únicas. Ela não sabia de nenhuma outra família com tantas possibilidades de combinar pares de gémeos para análise e comparação: Jorge e Carlos, Jorge e William, Jorge e Wilber, e assim por diante. “É uma experiência dentro de uma experiência”, disse, comparando-o a matrioskas russas: abre-se uma, há outra dentro, e outra, e outra.

Os gémeos sabiam que o estudo exigiria que eles se submetessem, ao longo de toda uma semana de Março, a entrevistas diversas, individuais e em pares, assim como a horas enfiados numa sala, respondendo a questionários. Haveria perguntas sobre as suas casas, as suas vidas, a sua educação, bem como testes de personalidade e de inteligência. Segal contou-lhes que estava interessada em escrever um livro sobre eles (mais tarde, Montoya colaboraria nesse projeto), e os rapazes mostraram-se entusiasmados.

William impôs uma única condição para participar: insistiu que as investigadoras visitassem a casa onde ele tinha crescido, em Santander. Sem isso, nunca conseguiriam compreender quem ele realmente era. Preocupava-o, no entanto, que, se dissesse a Segal e Montoya quanto tempo levariam para lá chegar, elas desistiriam. Assim, enrolava e desconversava sempre que surgia o assunto “tempo de viagem”. Quatro ou cinco horas, William dizia, acrescentando então, como quem não quer a coisa, que uma parte tinha de ser feita a pé. Quanto tempo? Um bocadinho, respondia — talvez houvesse alguma lama também. Quanta lama? Bom, podia ser que fosse mais fácil, a partir de certo ponto, seguir viagem a cavalo. E perguntava a Segal se, por acaso, ela preferia fazer aquele trecho a cavalo. Segal, uma mulher de 60 e poucos anos que crescera no Bronx, em Nova Iorque, recusou.

O poder da vontade

No dia 29 de Março, às nove e meia da manhã, três carros entraram em La Paz, uma cidadezinha empoeirada cujas poucas ruas tinham vistas espectaculares para os Andes. O grupo — formado por Segal, Montoya, os dois pares de gémeos, intérpretes, amigos diversos e alguns familiares — já tinha passado seis horas na estrada. Pararam num bar para um pequeno-almoço tradicional, com caldo de carne e chocolate quente. Jorge e William sentaram-se lado a lado à mesa; Carlos ficou à frente deles e Wilber com as investigadoras. Enquanto todos comiam, Carlos pegou no telemóvel para mostrar uma foto dele e de Jorge. “Eu amo o meu irmão, embora só demonstre isso quando estou bêbado”, disse. “Estão a ver?” Na foto, Carlos dava um grande beijo na bochecha de Jorge.

Aborrecido, William observava Carlos e pensava como Wilber era parecido: tomava o afecto do irmão como garantido e só muito raramente manifestava o seu — quando, por exemplo, achava que um dos dois podia morrer. No Exército, ambos estiveram no mesmo batalhão, e antes de entrar numa zona especialmente perigosa, Wilber, pálido, dizia a William: “Que Deus te proteja, meu irmão. Amo-te.”

William sabia que Wilber o amava. Mas, tanto Jorge como William gostariam que os irmãos com quem cresceram — Carlos e Wilber — lhes tivessem dado mais apoio, que tivessem demonstrado mais sensibilidade, como acontecia agora entre William e Jorge, que com frequência se telefonavam antes de dormir, só para dar boa-noite.

Nesta altura, os quatro rapazes já se conheciam bem. Ao longo dos seis meses anteriores, saíram juntos, partilharam refeições, conversaram sobre mulheres, família, dinheiro, valores. Mesmo semanas depois de se conhecerem, ainda olhavam nervosos e espantados nos olhos do irmão idêntico. Tinham-se medido, avaliado e inspeccionado. De costas um para o outro, compararam as alturas — os que foram criados na cidade eram mais altos que os do campo. Carlos vencera Wilber numa competição para ver quem comia mais. William ganhara a todos no braço-de-ferro. Nas bancadas de um jogo de futebol, Carlos, fascinado, vira William enfiar a mão nas calças de ganga para coçar o rabo: Jorge fazia o mesmo. Uma noite, à mesa do jantar, Jorge notou que Carlos e Wilber se debruçavam no mesmo ângulo estranho sobre os pratos. Jorge sentia-se à vontade para corrigir gentilmente a gramática do seu gémeo idêntico; Carlos levava a sério a responsabilidades de ensinar Wilber a abordar uma mulher atraente num bar de Bogotá ou como beber de um só trago uma dose de tequila. Os gémeos de Santander ficaram espantados com o facto de os irmãos da cidade nunca terem disparado uma arma de fogo, falha que rapidamente remediaram num passeio pelo campo.

De facto, Carlos tinha de admitir que se sentiu imediatamente à vontade com o seu irmão gémeo recém-descoberto. Wilber, ao contrário de Jorge, não lhe dizia o que fazer quando ele lhe falava sobre a sua vida amorosa: apenas o ouvia e apoiava. Sim, entendiam-se um ao outro: o orgulho masculino quando estavam com mulheres, a reacção furiosa às provocações incessantes dos respectivos irmãos. Mas era também enervante para Carlos o que Wilber tinha dele. A própria existência do irmão gémeo refutava um conceito que lhe era caro: a percepção da sua singularidade. Tendo crescido com características tão diferentes do resto da família, Carlos sentia orgulho na sua individualidade. Agora, porém, como gémeo idêntico, integrava um raro subconjunto de seres humanos cuja replicabilidade estava embaraçosamente à mostra. Uma vez, Wilber fez um post no Facebook de uma antiga foto dele em Santander, de peito nu à beira de um rio, segurando triunfante duas galinhas que tinha acabado de matar. Com os cabelos molhados e penteados para trás como os de Carlos, o camponês da fotografia estava demasiado parecido com ele. “Tira isso daí”, disse a Wilber. “As pessoas vão achar que sou eu.”

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Wilber Cañas Velasco

Longe de acreditar que tinha encontrado a sua metade perfeita, Carlos sentia-se mais só que nunca. Por mais que Jorge negasse, a sua aproximação a William era evidente. Agora os dois usavam ténis iguais e aparavam as patilhas da mesma forma. Nos fins-de-semana, Jorge ia com frequência ao talho de William e punha-se atrás do balcão, à espera da clientela, só para passar mais tempo com o seu gémeo. De vez em quando, dormia no apartamento minúsculo de Wilber e William, deixando Carlos sozinho em casa. Às vezes Carlos consolava-se com um argumento estranho e perverso: ainda bem que a mãe já não estava ali para assistir a isto, porque ele não teria sido capaz de suportar os ciúmes que teria, caso ela acolhesse William como Jorge fizera.

Carlos sabia que Jorge estava ciente daquela tristeza e que até procurava ajudar. Mas, sempre que tentavam conversar sobre o assunto, recaíam no velho hábito de se irritarem um ao outro. Para Carlos, era como se Jorge ignorasse as suas preocupações; Jorge, por sua vez, sentia-se frustrado, porque nada do que dizia era capaz de diminuir a sensação de isolamento do irmão. Mas Jorge tentava. Cerca de seis semanas após o primeiro encontro com William e Wilber, pediu uma foto a Carlos. Naquele sábado, foi a um tatuador. Já trazia no peito uma tatuagem da mãe, do lado do coração. Agora, sentava-se numa cadeira para depois de quatro horas dolorosas ter o rosto do irmão desenhado para sempre no seu corpo, a centímetros da imagem da mãe. Ao voltar para casa, levantou a camisa e mostrou a Carlos o seu retrato, sobre a pele ainda ensanguentada e inchada por causa da violência da agulha. Carlos diria mais tarde, com lágrimas nos olhos, que fora o maior presente que recebera na vida. Aquilo trouxe alguma paz.

Mas no pequeno-almoço em La Paz, Carlos sentia que Jorge estava novamente a provocá-lo. Logo depois de mostrar a foto, Jorge começou a falar de um assunto delicado, que os dois já tinham discutido em muitas conversas nocturnas: o que seria de Carlos hoje, caso tivesse sido criado em Santander? “Olha à tua volta”, disse Jorge. “Achas mesmo que, se tivesses sido criado aqui, serias contabilista ou outro profissional?”

Carlos recusava-se a admiti-lo. Quem poderia garantir que ele não teria arranjado uma forma de ir à escola, de se formar e conseguir um emprego na mesma empresa que, ainda recentemente, o promovera?

William não disse nada, mas o seu semblante ficou rígido. Carlos não tinha a mais pequena ideia de até onde a força de vontade podia, ou não, levar uma pessoa. Ele, William, tinha essa força de vontade e procurara exercê-la de todas as maneiras na sua busca pela formação como suboficial. Primeiro, mudara-se para Bogotá, para acabar o liceu. Passou no exame, mas com uma nota baixa — oito meses de estudo árduo não chegaram para compensar todos os anos de part-times fora da escola. Embora só tenha conseguido ficar classificado para a lista de espera do curso de suboficiais, não desistiu. Fez as malas, deixou Bogotá e fez uma longa viagem de autocarro até ao quartel que oferecia o curso. Ao chegar, um comandante reconheceu-o. “Aqueles que têm perseverança, tudo conseguem”, disse-lhe. O comandante mexeu uns cordelinhos para o ajudar, mas, ao mexerem na papelada, descobriram que William já tinha dado baixa e recebera uma indemnização por uma doença contraída na altura em que fizera o serviço. A indemnização não permitia que ele se realistasse. Era o fim, não havia mais nada a fazer. Ele jamais poderia ser um suboficial. Tinha de voltar para casa. Mas o comandante não lhe dissera que quem perseverava conseguia? William ainda permaneceu cinco dias por ali, escondendo-se e misturando-se entre os soldados. Esperava que, de alguma maneira, as coisas pudessem resolver-se. Mais do que isso, não conseguia ir-se embora: partir significava desistir. No sexto dia, um oficial simpático, totalmente armado, acompanhou-o até à rodoviária e pô-lo pessoalmente no autocarro para Bogotá.

William sabia que Carlos não conhecia aquela parte de sua história — e que provavelmente também não sabia que, aos seis anos de idade, William costumava caminhar cinco horas com a mãe até esta mesma cidade, La Paz, só para comprar mantimentos. Dormiam na casa de uma mulher simpática e voltavam à estrada, com os mantimentos às costas. Carlos não tinha como saber, nem jamais saberia realmente, quantas horas William, na adolescência, passara a cortar cana, a pele a arder do sol, os talos de cana-de-açúcar picando o corpo. E como carregava 25 quilos de cana de cada vez, um trabalho bruto, doloroso, árduo. Carlos vivera aqueles mesmos anos, e isso William sabia, namoriscando com as meninas numa excelente escola pública, jogando básquete e acumulando pontos de um jogo de vídeo qualquer, que ele não conhecia nem de nome.

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Carlos Alberto Bernal Castro

Carlos estava errado, William tinha a certeza disso. Às vezes, a força de vontade não chega. Se tivesse crescido em Santander, hoje não seria um contabilista em ascensão. E a insistência de Carlos em afirmar o contrário soava como um insulto a tudo o que William tivera de suportar — àquela vida que ele, na verdade, suportara em vez de Carlos.

A cidade vai ao campo

Depois do pequeno-almoço, os carros deixaram La Paz e entraram por estradas serpenteantes de terra e pedra, cobertas pela exuberante folhagem das palmeiras e fetos. Finalmente, por volta das onze e meia da manhã, a caravana parou perto de um grande pavilhão no meio de um relvado. Todos saíram. Era altura de caminhar.

Nancy Segal empurrava uma mala de rodinhas roxa brilhante, com o material que ela esperava usar nas entrevistas e na pesquisa junto à família de William e Wilber. Ancelmo, o irmão deles, era quem agora vivia na casa, mas os pais e outros parentes também estariam lá para celebrar o aniversário de Ancelmo e rever os gémeos. Logo ficou evidente que aquele caminho não era adequado a uma mala de rodinhas. William, que no passado o percorrera carregando fardos bem mais pesados, pegou nela e levou-a aos ombros.

O grupo seguia o seu caminho, subindo por uma colina. William movia-se com rapidez, apesar da mala. Disse que era forte, e que Jorge era tão forte como ele, embora dificilmente aquilo pudesse ser verdade. “Mas Carlos, não”, acrescentou. “Carlos não é tão forte.” Em seguida, avançou mais alguns passos e, então, voltou-se para trás, como se tivesse tido uma ideia. “Carlos, porque é que não levas a mala?”, perguntou. Dirigiu-se a ele, entregou-lhe a mala e rapidamente tomou a dianteira.

O caminho atravessava uma pradaria e, depois, desembocava numa descida íngreme e longa. Em minutos, era só lama — uma lama espessa e, em alguns trechos, com 60 centímetros de profundidade. Carlos, sempre impecavelmente vestido, pisava com cautela. Mas rapidamente os seus ténis Adidas ficaram submersos no lodo.

Carlos sentia-se pouco à vontade, emocional e fisicamente. Desde que conhecera os gémeos, estivera duas vezes em Santander. Na primeira, para uma festa de aniversário em La Paz, comemorando o nascimento dos quatro irmãos; na segunda, numa visita aos seus pais biológicos, José del Carmen Cañas (conhecido como Carmelo) e Ana Delina Velasco, na casa onde agora moravam. Mas sentira-se desconfortável em ambas as visitas. Sabia que William achara o seu comportamento grosseiro, resistindo aos gestos simpáticos da família alargada. Mas era gente a mais — vizinhos, primos, cada um querendo tirar uma fotografia, dar um abraço ou estabelecer algum tipo de relação que ele próprio não sentia existir. Como poderia familiarizar-se com os seus pais biológicos se havia sempre uma multidão à volta? Já ao ser apresentado a Carmelo e Ana, no apartamento de William e Wilber, uma equipa de realizadores estava a filmar o encontro para um programa de televisão. Quando abraçou os pais, eles choravam copiosamente. Comovera-se ao sentir o abraço de Carmelo — nunca conheceu o seu próprio pai, que morreu não muito depois da mãe. Mas alguma coisa nas lágrimas de Ana fizeram-no sentir-se distante, calmo. Ele tinha tido uma mãe, e uma mãe muito boa. “Não chore”, disse a Ana, enxugando-lhe as lágrimas. “São os caminhos de Deus.”

O sol estava alto. Carlos avançava pela lama, que salpicava e se pegava às pernas. Foi então que ele — logo ele, Carlos, tão vaidoso com as suas roupas, meticuloso com o modo como lhe caíam, sempre a escovar com a mão as bainhas das calças para tirar algum fio imaginário — soltou um grito. O pé enterrara-se. Devagar, auxiliado por alguém da região que caminhava ao seu lado, começou a libertá-lo. Ouviu-se um ruído forte de sucção. O barro cobria-lhe a perna até bem acima do joelho.

Mais de uma hora depois, suado, exausto, imundo, chegou, enfim, onde William e Wilber tinham passado a infância. A casa não tinha casa de banho, nem revestimento ou pintura, apenas paredes de madeira e um fogão a lenha com uma chaminé que saía pelo telhado. Sorrindo, Carlos aproximou-se de Carmelo e ambos se abraçaram calorosamente. Depois, ficaram em silêncio; nenhum deles sabia o que dizer. William, ao lado deles, observava Carlos e o pai. Tinha um aspecto imaculado, não fosse a lama nas botas. Vestia uma camisa roxa com riscas, especial para a ocasião. Carlos usava um boné preto de basebol com o símbolo do Batman, além de um pólo e óculos de sol. Mal tinha recuperado o fôlego, quando sentiu que lhe davam uma batidinha na cabeça: “Tira o boné e os óculos escuros”, disse William. “Tenta estar realmente aqui.”

Carlos observava Jorge, que se movimentava com à-vontade no meio daquela multidão, integrando-se na família de uma forma que ele, Carlos, não era capaz de fazer. Sentia-se incomodado com a conversa do pequeno-almoço. Jorge parecia querer arrancar-lhe uma declaração grandiosa e emocionada sobre a sorte que tivera na troca dos gémeos, sobre o destino bem mais duro que teria sido obrigado a enfrentar. Não que Carlos não tivesse reflectido muito, durante várias noites de insónias, sobre qual seria o seu futuro caso tivesse sido criado com a sua família biológica. Dois dos irmãos de William e Wilber tinham morrido novos: um deles num acidente com uma arma de fogo; o outro numa emboscada durante o serviço militar. Talvez ele nem tivesse sobrevivido, se tivesse crescido ali. Talvez fosse fácil ser um bom tipo em Bogotá. Vivendo em Santander, talvez se tivesse juntado à guerrilha, que uma década antes tinha sido muito popular, mas brutal. Na verdade, Carlos estava longe de acreditar na inevitabilidade do seu sucesso profissional — o que o preocupava era se, caso tivesse tido aquela outra vida, o seu carácter teria resistido às forças que o rodeavam.

Mas não, não ia dizer tudo aquilo num pequeno-almoço, à frente de um monte de gente. Ele não era esse género de pessoa.

III Parte

O mito dos gémeos idênticos

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Wilber, Carlos, William e Jorge em Santander

No momento em que um espermatozóide penetra num óvulo, o zigoto unicelular resultante é conhecido como totipotente: é pura potencialidade. Ele traz em si a curva de uma sobrancelha, o músculo de um coração, o poder electroquímico de um neurónio; transporta o complexo manual de instruções que vai comandar a construção e a regulação de cada fibra do corpo. Mas essa célula única divide-se em duas e, instantaneamente, as luzes começam a apagar-se, a sua potencialidade diminui. Para que essa célula única se transforme num minúsculo fragmento de tecido do coração, e não num pêlo de sobrancelha, é necessário que um ou mais sinalizadores genéticos sejam desactivados. O resultado disso é a diferenciação, um processo constante de eliminação que possibilita a construção de universos biológicos complexos. Sempre que um grupo de células se divide, cada uma delas fica mais apta a tornar-se uma coisa e não outra.

Quando o embrião atinge cinco ou seis dias de vida (momento em que ocorre a maioria das fatídicas divisões de gémeos), algumas dessas células vão fortuitamente para um ou outro gémeo. Isso significa que a expressão de alguns genes num dos futuros gémeos será, provavelmente e por caminhos subtis, diferente da expressão dos genes no outro gémeo. É a conjectura de Harvey Kliman, director de Investigação Reprodutiva e Placentária da Escola de Medicina de Yale. A partir do momento em que a maioria dos gémeos idênticos se separa, é bem possível que eles passem a ter uma epigenética diferente (o termo refere-se ao modo como os genes são lidos e expressos, dependendo do ambiente). Eles já são produtos distintos do seu ambiente, isto é, das condições uterinas que, de saída, fizeram deles seres diferentes.

Um observador leigo ficará fascinado com a semelhança entre gémeos idênticos, mas alguns geneticistas estão mais interessados em identificar tudo aquilo que os distingue, por vezes de forma significativa. Porque é que um gémeo pode ser homossexual ou transgénero e o seu gémeo idêntico não? Porque é que gémeos idênticos, com o mesmo DNA, às vezes morrem de doenças diferentes, em momentos distintos? O ambiente em que vivem há-de diferir, mas que aspecto desse ambiente levou a sua biologia a tomar direcções distintas? Fumo, stress e obesidade são alguns dos factores que os investigadores já conseguiram associar a mudanças específicas na expressão de genes específicos. Com o tempo, esperam descobrir centenas de outros, talvez milhares.

A meta-análise publicada este ano na Nature Genetics, resultado de 50 anos de estudos dos gémeos, chegou a uma conclusão sobre o impacto da hereditariedade e do ambiente nas vidas dos seres humanos. Os investigadores descobriram que, em média, cada traço ou doença particular de um indivíduo deriva 50% do ambiente e 50% dos genes, aproximadamente. Mas essa proporção simples não diz tudo sobre os nossos complicados sistemas de circuitos genéticos, o modo como os nossos genes interagem continuamente com o ambiente, sendo activados e desactivados de acordo com o estímulo e as consequências por vezes duradouras, que continuarão a existir no nosso genoma e serão transmitidas à próxima geração. O modo como os genes de um indivíduo respondem a esse ambiente — como se expressam — cria o que os cientistas chamam “perfil epigenético”.

Antes de partir para Bogotá, Segal entrou em contacto com Jeffrey Craig, que estuda epigenética no Instituto Murdoch de Pesquisa Infantil, na Austrália, para perguntar se ele analisaria a epigenética de Carlos, Jorge, Wilber e William com base em amostras de saliva que ela colheria.

Craig já analisou os perfis epigenéticos de 34 gémeos idênticos e falsos no momento do nascimento, recolhendo amostras do interior das bochechas. Chamou-lhe a atenção que, em alguns casos — não muitos, mas em alguns —, o perfil epigenético de um gémeo recém-nascido pode ser mais parecido com o de outro bebé qualquer do que com o do gémeo idêntico com o qual partilhou o útero materno. Diferenças estruturais no útero seriam uma explicação, afirma Craig — um cordão umbilical mais grosso para um (há, de facto, dois cordões) ou um estranho ponto de ligação do cordão à placenta. Mas Craig reconhece que poderia haver outros factores — quais é ainda especulação. Talvez uma maior distância de um dos gémeos do som constante e reconfortante do coração da mãe possa determinar uma trajectória de vida ligeiramente diferente.

Segal e Craig ansiavam por conhecer os resultados dos perfis epigenéticos dos gémeos colombianos. Quais perfis, perguntavam-se, seriam mais parecidos? Os dos gémeos não biológicos que partilharam o mesmo ambiente — Segal chama-os de gémeos virtuais — ou aqueles que têm o mesmo DNA?

Uma amostra composta de quatro indivíduos só pode levar a mais perguntas, não a respostas. Mas exames epigenéticos em amostras mais numerosas de gémeos criados separadamente podem, um dia, significar uma ajuda valiosa à ciência epigenética, afirma Kelly Klump, co-directora do Registo de Gémeos da Universidade Estadual de Michigan. “Não se pode observar a forma como o ambiente muda a função do genoma sem ter um genoma constante”, diz ela. “Os gémeos idênticos permitem-nos fazer isso.”

Como é muito difícil encontrar gémeos idênticos que tenham sido criados separadamente, os investigadores que trabalham com epigenética têm-se concentrado sobretudo nos gémeos idênticos que exibem diferenças. Tim Spector, por exemplo, titular de epidemiologia genética do King’s College de Londres, está a criar um gigantesco cadastro mundial de gémeos idênticos, com casos em que, por exemplo, apenas um dos gémeos manifesta diabetes ou autismo.

Bouchard teve um papel fundamental para convencer investigadores, e o público em geral, de que parte significativa daquilo que somos se deve ao DNA, facto que estava longe de adquirido quando ele iniciou o seu trabalho. Spector e Craig, por outro lado, têm tentado identificar de que maneira nós nos modificamos em resposta ao ambiente. A sua questão fundamental é outra: como pode a ciência identificar genes que foram activados ou desactivados com resultados potencialmente danosos, para que possam ser revertidos? Se os estudos tradicionais com gémeos eram vistos como investigações interessadas no imutável, já os estudos epigenéticos procuram elucidar o que, em nós, está sujeito a mudança — e, mais especificamente, que mecanismos fazem essa mudança acontecer.

Cair no buraco

Um político local acompanhava o grupo na sua excursão a Santander. No percurso, tentou convencê-los a visitar uma atracção turística local: o segundo maior hoyo (buraco) da Colômbia, uma fossa cavernosa de 150 metros de largura e 180 metros de profundidade. Os habitantes da zona gostam de se deitar de barriga para baixo, ir arrastando até a borda, para, dali, se debruçarem sobre o abismo.

Aquele buraco transformou-se numa piada recorrente entre os irmãos, e, para Yesika Montoya, a psicóloga colombiana, tornou-se também uma espécie de metáfora da experiência pela qual os gémeos estavam a passar. Ela tentava que eles identificassem os seus sentimentos em relação a tudo aquilo que tinham vivido, e parte desse esforço consistia em recordar as sensações físicas que registaram em diferentes momentos. “Senti vertigem”, disse-lhe Jorge sobre o momento em que estava à espera de William no dia em que se conheceram. “Uma pressão. Como aquela que sentimos numa montanha-russa, quando descemos.”

Montoya imaginou esse sentimento como semelhante à sensação de “cair por um buraco e não ser capaz de sentir o chão”. E acrescentou: “Nunca acaba. Mesmo quando se consegue apoiar um pé aqui ou ali, continuamos a cair.”

O tempo passado com Segal e Montoya, partilhando as histórias das suas vidas, teria necessariamente de mudar a forma como encaravam o que lhes estava a acontecer. Carlos pareceu surpreendido quando, em dada altura, Segal lhe pediu para descrever em que aspectos ele e Wilber eram diferentes. “Bem, a questão é que nós sempre olhámos para as semelhanças”, disse ele. “Nunca conversámos sobre as diferenças.” Parecia feliz por ter, finalmente, a oportunidade de o fazer.

Carlos apontou que ele gostava de mulheres mais velhas, enquanto Wilber preferia as mais jovens. Mas a resposta, é claro, era bem mais complicada. Carlos era, em traços gerais, muito parecido com Wilber; mas diferia dele numa série de detalhes infinitamente pequenos: as expressões que passavam pela sua cara, e só na sua; os pensamentos e as preocupações que lhe ocupavam a mente. Para o bem e para o mal, Carlos era mais cínico que Wilber e mais suave. Wilber, por sua vez, era mais alegre quando estava com crianças pequenas, tinha mais facilidade em soltar uma gargalhada.

Jorge e William também têm diferenças óbvias. Jorge é um sonhador, um viajante incansável, um optimista que acredita que, “se damos o nosso melhor ao mundo, o mundo vai dar-nos o que tem de melhor”. O rosto de William, mais fino e mais magro, reflecte uma postura bem mais fechada. “Nada é fácil nesta vida”, comentou uma vez, um sentimento que dificilmente imaginaríamos Jorge  a manifestar.

Essas diferenças tinham sido aprendidas? Reflectiam, algumas delas, diferentes epigenéticas? Talvez Wilber e Jorge dispusessem de uma protecção biológica adicional pelo facto de, ao contrário de Carlos e William, terem sido criados pelas suas mães biológicas. Carlos sabia que tinha sido amado pela mãe que o criara. Mas também sabia que uma prima se tinha mudado para casa deles quando eram bebés, para que cada um dos gémeos pudesse desfrutar do tipo de contacto que, naquela altura, o hospital encorajava. A mãe carregava Jorge num canguru junto ao corpo; a prima levava Carlos.

Em Maio, Carlos disse a Wilber que queria visitar a sua família biológica, mas sem a multidão de parentes, psicólogos ou equipas de televisão. Wilber passou o recado a William. Para William, era mais fácil aceitar que as inibições de Carlos naquelas viagens se devessem não tanto a uma reacção à nova família, mas ao carácter público das excursões. Num fim-de-semana de Junho em que, infelizmente, Wilber precisava de trabalhar, William, Jorge e Carlos apanharam um autocarro e foram fazer uma visita mais relaxada e privada a Carmelo e Ana. No autocarro, sentado ao lado de William, Carlos ouvia-o falar dos seus planos de concorrer a um cargo de vereador em La Paz — ele era agora uma espécie de celebridade em Santander. Carlos não nutria grande consideração pelos políticos colombianos, mas a ambição de William impressionou-o e também gostou de ele estar a ter aulas de Word. Pelas perguntas que Segal e Montoya tinham feito, descobrira que Wilber, o seu gémeo idêntico, não pretendia retomar os estudos e isso decepcionava-o, porque esperava falar com ele de outro assunto que não fosse mulheres. Esperava mais para Wilber — esperava mais de Wilber. Mas começava a achar que não o teria.

Carlos sabia que Wilber queria passar mais tempo com ele.  Mas também sabia que Wilber, a um certo nível, percebia que ele era uma alma solitária. Wilber tinha uma vida própria e uma nova namorada, mãe de duas crianças cujas fotos ele exibia a quem quisesse ver. Aquela experiência toda era para ele menos complicada do que para os outros três irmãos — e isso simplesmente porque, como o próprio Wilber dizia, ele não era uma pessoa muito complicada.

Para Carlos, esta quarta visita a Santander foi como um recomeço. Os irmãos chegaram de manhã cedo a casa de Ana e Carmelo, depois de viajar durante a noite. Mas Carlos, gozando a beleza da paisagem, não quis descansar. Foi tomar banho num tanque de água. Ouvia o canto dos pássaros e foi um ouvinte atento do papagaio da família, “Roberto”, que tinha talento para cantar rancheras. Depois, enquanto os irmãos dormiam, foi até a cozinha. Lá estava Ana, uma mulherzinha minúscula — Carlos tinha aquele mesmo risinho dela, disseram-lhe, embora ele próprio jamais o tenha admitido — a limpar uma cabeça de cordeiro para o jantar. Ficou junto ao balcão da cozinha a fazer-lhe companhia enquanto ela trabalhava. Apercebeu-se de que era a primeira vez que estavam sozinhos.

Conversaram sobre a saúde dela, as articulações doloridas, a dor nas costas. “Trabalhou tanto a vida toda”, disse-lhe, “está na altura de descansar. Os seus filhos já estão grandes. Porque é que trabalha tanto por eles?” A relação com Ana estava agora mais relaxada, mas não necessariamente mais próxima. Carlos disse a si mesmo que viria com o tempo. Jorge estava sempre a insinuar que havia alguma coisa errada com ele, por não sentir de imediato aquele vínculo poderoso, primordial, aquela força emocional da biologia e do destino que William, o gémeo idêntico de Jorge, parecia sentir em relação à mãe que nunca conhecera. Carlos questionava-se se não se teria aproximado mais de Ana caso a sua própria mãe estivesse viva, para lhe dar algum tipo de permissão. Mas talvez a coisa toda fosse bem mais simples. Talvez ele e William fossem simplesmente diferentes.

Andar para a frente

Antes de dar início à sua investigação, Segal não teria ficado surpreendida se cada um dos rapazes apresentasse resultados semelhantes aos do seu gémeo idêntico, independentemente do ambiente. Mas os seus resultados preliminares mostram que, em várias características, os gémeos idênticos são menos parecidos entre si do que ela tinha imaginado. “Fiquei com um grande respeito pelo efeito exercido por ambientes extremamente diferentes”, diz ela.

Talvez os resultados indiquem apenas que pessoas criadas em ambientes rurais, com pouca educação formal, encaram testes de uma maneira bem diferente do que aqueles que frequentaram a universidade. William, que administrava com competência um pequeno negócio, às vezes parecia assoberbado pelos testes. Mas Segal considerou que o caso dos jovens seria capaz de instigar novas investigações e inspirar outros investigadores a procurar mais exemplos de gémeos criados separadamente e de formas bastante diferentes.

Durante a semana que os rapazes passaram a responder aos questionários de Segal, revisitaram o passado que os ajudou a fazer deles aquilo que eram. Quantos livros tinham em casa na infância? Alguma vez fumaram? Cresceram em famílias onde não se falava sobre sentimentos? Por uma semana, viveram fora do tempo, a olhar para o passado. Mas, assim que Segal fosse embora, cada um retomaria o seu caminho, avançando em direcção a um futuro desconhecido, à mercê do acaso. Às vezes falavam em morar todos juntos; William gostava de pensar que, juntos, os quatro eram mais fortes. Como membros de qualquer outra família, talvez se afastassem e voltassem a reunir-se, ou talvez dessem por eles a voltar para o conforto dos vínculos antigos. Já é invulgar crescer como um gémeo, parte de um par primordial; mas agora cada um deles dispunha de um segundo par raro, uma nova oportunidade de desfrutar de um tipo incomum de proximidade.

O que poderá significar esse entrelaçamento — esse duplo emparelhamento — naquilo que cada um deles se vai tornar ou conseguirá na vida?

Para comemorar o fim da pesquisa, Segal e Montoya resolveram levar os rapazes a uma famosa churrascaria de Bogotá, com uma espaçosa pista de dança. Jorge e William dançaram com Segal à vez; sorriam animadamente, girando e contorcendo-se sem prestar grande atenção ao ritmo. Carlos, sentindo-se no seu ambiente, ensinou alguns passos a Wilber. Dançavam lado a lado, não propriamente em sincronia — Carlos, com segurança, Wilber, atento aos pés e concentrado. Por vezes, erguia os olhos, como se sentisse a dança no corpo — sabia que logo aprenderia. “O Wilber tem jeito”, disse Montoya, que o observava da mesa, “só precisa de praticar mais.” Quando os irmãos pararam de dançar e foram sentar-se para mais um trago de aguardente, começaram a flirtar com uma jovem que se tinha juntado à festa.

No restaurante, Carlos sentia-se seguro, confiante, sereno. À medida que a noite avançou e bebeu mais, os seus passos foram ficando mais complexos e ousados, até que começou a exibir uma coreografia que ele e um amigo tinham inventado: numa contorção da cintura, as costas inclinam-se praticamente até ao chão, os joelhos ficam dobrados, quase a ceder. Carlos chamava àquele passo “Matrix”, em homenagem a uma manobra parecida que Keanu Reeves executa no filme para se esquivar das balas, num universo paralelo. Carlos estava de tal forma contorcido que parecia prestes a perder o equilíbrio. Wilber, William e Jorge rapidamente o rodearam, ainda a dançar, com uma expressão no rosto que resultava de uma mistura de emoções: divertimento, irritação, preocupação. Mas Carlos não estava a cair. Parecia. E rapidamente se endireitou sozinho.

A dança continuou como antes. Os quatro juntavam-se e separavam-se, em diferentes pares e combinações — saíam em busca de mulheres, voltavam para trocar impressões e tomar novamente a pista de dança. Eram uma pessoa só, eram duas, eram quatro, fundindo-se, separando-se e tornando a fundir-se ao som da música pela noite fora.

Exclusivo PÚBLICO/The New York Times

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