“Douce France, cher pays de mon enfance”

A questão identitária volta ao topo da agenda política dos Republicanos, que querem ser a voz daquilo a que François Fillon, o candidato derrotado, chamava “França profunda”, conservadora e católica.

1. Basta uma pequena frase para que o mais do que provável líder da direita francesa diga onde quer que Os Republicanos se situem daqui para a frente. A escolha é a 10 de Dezembro e a sua importância decorre do facto, indisfarçável, de o seu partido ter falhado a segunda volta das presidenciais pela primeira vez na história da V Republica. É um primeiro sinal, à direita, de lenta reconstituição do sistema partidário francês que Emmanuel Macron fez implodir em Maio deste ano, com a vitória nas presidenciais e a maioria absoluta nas legislativas à frente de um partido com um ano de vida. O Presidente francês, do “centro radical”, traduziu não apenas no seu programa mas também na composição do seu Governo, o que este terramoto significou para a França. Foi buscar gente ao centro-direita, incluindo o seu primeiro-ministro Edouard Philippe, muito próximo de Alain Juppé, símbolo da direita mais moderada, que perdeu para François Fillon as “primárias” para a escolha do candidato presidencial de Os Republicanos. O seu ministro da Economia e Finanças, Bruno Le Maire, veio igualmente do lado mais moderado da direita. Não são casos únicos. A escolha teria de ser, inevitavelmente, por um candidato à liderança que vire o partido para a direita, tentando criar uma fronteira clara com Macron e alargando o seu espaço à custa da Frente Nacional de Marine Le Pen.

2. Qual é, então, a sua frase? Laurent Wauquiez, presidente da região de Auvergne-Rhône-Alpes, disse no lançamento da sua campanha que quer recuperar “os valores centrais da França, este velho país tão comovente”, que prefere “à triste aldeia global que é apenas a montra desumanizada de um mundo sem raízes”. Ou seja, a questão identitária volta ao topo da agenda política dos Republicanos, que querem ser a voz daquilo a que François Fillon, o candidato derrotado, chamava “França profunda”, conservadora e católica. A novidade é que a sua crítica à globalização é mais evidente, disputando abertamente o terreno a Marine Le Pen, também ela a sofrer as penas de uma derrota que a deixou sem estratégia. Nicolas Sarkozy tentou a mesma via, que resultou plenamente em 2007 e falhou redondamente em 2012. Também ele dizia que iria libertar a França da herança do Maio de 68. Wauquiez enfrenta mais dois candidatos que, se tudo correr como o previsto, não ficarão na história. São relativamente desconhecidos e mais “moderados” do que o provável vencedor. Com pouco mais de 40 anos e todos os títulos académicos das elites francesas, desde a ENA a Sciences Po, a direita que Wauquiez quer é aquela que “não pede desculpa de o ser (…), descomplexada, que se emancipa finalmente do pensamento de esquerda”, supostamente dominante. É contra a “traição das elites” e um Presidente que diz que “a França, se quer ter êxito, tem de se negar a si própria”. Promete uma batalha contra o multiculturalismo e o comunitarismo, que não respeitem os valores franceses. Não hesita em apontar o dedo ao islamismo. A Europa está, por enquanto, ausente do seu discurso, mesmo que seja muito difícil que alguém que quer chegar ao Eliseu possa deixar de a defender. O trauma que a direita sofreu também está expresso na indecisão sobre o que fazer com os seus militantes que saltaram directamente para o governo de Macron (o primeiro-ministro Edouard Philippe e o ministro da Economia e Finanças, Bruno Le Maire) ou aqueles que, na Assembleia Nacional, se organizaram sob a sigla Construtivistas, que, como o nome indica, estão dispostos a concertar posições com o governo. A sua argumentação, e também a dos “trânsfugas” da direita para o centro, é muito simples: se o Governo está a pôr em prática reformas que sempre defendemos, por que deveríamos ser contra elas? Na semana passada, a direcção do partido voltou a falhar as expulsões, que anda a debater desde Julho, desta vez por falta de quórum.

3. A prova de que a Republica em Marcha baralhou definitivamente as linhas de fractura do sistema partidário francês é o apagamento de Marine Le Pen e da sua Frente Nacional. O seu problema hoje é que, depois de sucessivas vitórias que a levaram até à segunda volta das presidenciais, Marine chocou de frente com a realidade (perdeu por muitos), ficando sem uma ideia sobre o que quer que o seu partido seja no futuro. Tem muito poucos deputados no Parlamento, por causa da eleição a duas voltas. Também ela, depois de ter perdido o seu braço direito, Florian Philippot, um furioso defensor da saída da França do euro, está à procura do terreno certo para recolocar o partido. Sendo um partido de natureza familiar (o pai, ela e a sobrinha), não é fácil dispor de quadros suficientes para pensarem uma estratégia que não seja voltar ao papel de partido de protesto, fora e contra o sistema. Wauquiez já garantiu que não fará alianças com ela.

4. A vitória do Em Marcha, agora sujeita ao teste da governação (bem mais difícil), dinamitando o sistema partidário com uma força que não vimos noutros países europeus fustigados pela crise (a não ser, talvez, na Itália do pós-Guerra Fria), criou à direita e à esquerda duas “zonas cinzentas” que ainda não estão totalmente clarificadas. À direita, já vimos o que está em causa. À esquerda, a situação é ainda mais difícil. O Partido Socialista foi praticamente pulverizado, com o seu candidato da ala esquerda, Benoît Hamon, a recolher 6% dos votos nas presidenciais e pouco mais do que 20 deputados nas legislativas. Sobre o seu futuro, não há ainda qualquer ideia. Entalado entre Macron e o sempre tonitruante Jean-Luc Mélenchon, o líder da esquerda radical, não tem sequer espaço para respirar. A bonita sede da Rue Solferino, num bairro chique de Paris, está à venda, mais de metade dos funcionários vão ser despedidos (não há dinheiro para lhes pagar, dada a queda brutal do financiamento público), o clima é de fim de festa. Os “elefantes” da velha guarda foram-se embora. Ninguém sabe ainda quem vai liderar o partido.

5. Macron tem agora o caminho livre para fazer o que prometeu e mesmo com a popularidade em baixa, não terá adversários à altura por um bom tempo. O que virá a seguir dependerá do seu desempenho, mas é difícil que regressem as velhas fórmulas partidárias do país que criou o conceito de esquerda e direita e que ainda se vê (às vezes) como o farol da humanidade. Mais de 70% dos deputados do República em Marcha estrearam-se na política com ele e representam uma nova geração, que ainda está a fazer a sua aprendizagem. O Presidente sabe que só pode ter sucesso no médio prazo. O seu grande teste pode nem ser a rua, bastante eficaz para derrubar governos mas não Presidentes. Será provavelmente a Europa. Macron tem plena consciência das dificuldades que vai enfrentar na frente europeia ou, melhor dizendo, na frente alemã. Os sinais que vêm das negociações de Angela Merkel para formar um governo de coligação a três, com os liberais e os verdes, não são propriamente animadores. Nem os verdes, dos quais se esperaria uma atitude capaz de contrabalançar as posições mais radicais dos liberais sobre o euro, têm dado sinais de pretender fazê-lo. Pelo contrário. O que sabemos é que Macron não abdicará facilmente do seu combate europeu, como abdicaram antes dele, face a Berlim, os seus dois antecessores, Sarkozy e Hollande. O seu programa assenta na ideia de que a reforma da União Europeia e a reforma da França são duas metades inseparáveis. A radicalização da velha direita e a quase inexistência da velha esquerda deviam ser lidas com atenção na Alemanha. Para além de Macron, Merkel não pode contar com mais ninguém.

6.O título desta crónica é o refrão de uma velha canção de Charles Trenet que não me sai da cabeça, vá-se lá saber porquê, a não ser o meu amor à França, que resiste a tudo. Desculpar-me-ão certamente.