O homem mais odiado da direita francesa vai ser o seu líder

Laurent Wauquiez é o favorito nas primárias dos Republicanos. Tem um discurso próximo da extrema-direita, imitando Sarkozy, e quer ser Presidente.

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Laurent Wauquiez ROBERT PRATTA/Reuters

Consta que Laurent Wauquiez é o homem mais odiado no centro-direita francês. Mas o ambicioso político de 42 anos é o ultrafavorito para liderar o que resta desta família política, depois da razia feita pelo furacão Emmanuel Macron, que levou eleitores e quadros do partido Os Republicanos para o seu governo, e destruiu os frágeis elos que uniam o centro-direita francês.

Wauquiez é o favorito absoluto para a primeira volta das primárias dos Republicanos, que se disputa este domingo. “Quero que a direita seja mesmo de direita”, diz este antigo ministro de Nicolas Sarkozy (várias pastas), que se tornou conhecido pela parka vermelha com que aparecia em todo o lado, para ser bem visívil na televisão e nas fotografias. “Narcista", "arrivista", "oportunista", "ambicioso” são alguns dos adjetivos com que o descrevem.

O candidato é o preferido dos militantes, do chamado “núcleo duro”, que aprecia as suas tiradas – que, em compensação, o tornam detestável para os mais moderados. A sua oratória aproxima-o perigosamente da extrema-direita. Diz que os apoios sociais são “um cancro” e aposta num discurso identitário, anti-imigração, anti-muçulmanos.

Tem ambições de se candidatar à presidência da República, e por isso Macron é um alvo. Diz que é um Presidente que “não ama a França” por defender os valores da globalização e do internacionalismo. “Não cabe à France adaptar-se aos estrangeiros, mas sim aos estrangeiros adaptarem-se a França”, declara.

Os candidatos em liça são jovens, mas as ideias que representam não o são tanto. Os rivais de Waquiez são Florence Portelli (39 anos), uma ex-porta-voz de François Fillon, e Maël de Calan (36 anos), ex-porta-voz de Alain Juppé. Apenas Wauquiez tem peso político por si próprio, sem ter um barão partidário por trás – mas não rompe com o passado porque recupera a aproximação à extrema-direita com a qual Nicolas Sarkozy flirtou.

Wauquiez foi um dos vice-presidentes da regência partidária de Sarkozy, quando este regressou à vida política para liderar a formação, em 2014. Era a voz que clamava por um rumo “tudo à direita”, quando a outra vice-presidente, Nathalie Kosciusko-Morizet, apelava à moderação e um caminho pelo centro. Pelo que transpirava para os media, eram como os proverbiais anjo e demónio a falarem ao ouvido do ex-Presidente, disputando a sua alma… Quem perdeu foi Nathalie Kosciusko-Morizet, que foi afastada da direção em 2016.

Travesia do deserto

Também Nicolas Sarkozy tentou ser o candidato dos Republicanos às presidenciais este ano, com um discurso tudo à direita, na esperança de conquistar os eleitores que se encantaram pelos cantos de sereia de Marine Le Pen. Já o tinha feito em 2012, e perdeu então para François Hollande. Viu mais uma vez os seus planos gorados, ultrapassado por François Fillon. Este não conseguiu sequer passar à segunda volta das presidenciais – caso inédito para a direita francesa na V República –, cilindrado pelas revelações que mostraram com que liberalidade usava os dinheiros do Estado para dar emprego à sua família.

Esse foi o início da travessia do deserto da direita – apenas 8% dos franceses considera que Os Republicanos são o partido que melhor encarna o papel de oposição ao Governo de Emmanuel Macron, segundo uma sondagem Elabe do fim de Novembro. É a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon que melhor assume esse papel. Aliás, mais inquietante é que 42% dos franceses não vê nenhum partido a assumir o papel de oposição. Wauquiez é considerado pelos eleitores neste inquérito como uma figura divisiva. Para 56% dos inquiridos, é autoritário, dinâmico e inquietante para 52%.

Ao formar governo, Macron ateou o rastilho que iniciou a lenta explosão da direita, pois chamou quadros do partido Republicanos. A política económica posta em prática foi notoriamente virada à direita – por exemplo, as alterações ao código do trabalho.

O grupo parlamentar dos Republicanos dividiu-se: criou-se uma facção, a dos construtivos, para onde foram os deputados que se consideram compatíveis com as ideias de Macron. Foram expulsos e enquanto alguns aderiram ao A República em Marcha, do Presidente, outros criaram um novo movimento, chamado Agir, nas vésperas destas primárias.

O efeito Macron

Se Wauquiez conquistar de facto o partido (a segunda volta das primárias é a 17 de Dezembro) pode ver-se numa situação em que tem o apoio dos militantes mas fica com poucos barões que o apoiem, agastados com a viragem demasiado à direita, rumo à Frente Nacional de Le Pen.

Wauquiez insurge-se “contra as elites” e outros dirigentes do partido juram a pés juntos “Wauquiez jamais”. Conta no entanto com o apoio de nomes à direita com Brice Hortefeux, um fiel de Sarkozy que é próximo do movimento integrista católico Senso Comum, que organizou as manifestações contra o casamento para todos.

No Verão, Xavier Bertrand, presidente do Conselho Regional de Hauts-de-France, acusou Wauquiez de “correr atrás da extrema-direita”. Mas esse pode ser mesmo o seu destino para poder afirmar-se face a  Macron. “Laurent Wauquiez tem uma enorme fraqueza: tem de se radicaliza para existir face a Macron, que ocupa o espaço central. E acabará por se parecer cada vez mais à FN, de onde copiou todos os ângulos de ataque”, disse ao Le Monde o deputado Pierre Person, da República em Marcha.

O espírito da UMP – União para um Movimento Popular, criado em 2002, com o objectivo de apoiar a candidatura de Jacques Chirac à presidência da República, congregando várias formações de centro-direita – parece definitivamente perdido. Nicolas Sarkozy mudou-lhe o nome para Os Republicanos, mas o efeito Macron está a desmembrá-lo. Ainda que Wauquiez garanta que vai esforçar-se por unir o partido. “Vou sempre estender a mão.”     

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