Torne-se perito

Morreu Abbas, fotógrafo da Magnum, da guerra e das religiões

Nascido no Irão, em 1944, fotógrafo acompanhou criticamente, em imagens e na escrita, a história do seu país, e também a evolução do mundo contemporâneo. Dizia que o fotógrafo é aquele que "escreve com a luz".

Foto
Abbas Jean Gaumy/Magnum

“Ele era um pilar da Magnum, o padrinho de toda uma geração de fotojornalistas mais jovens. Nascido no Irão, e depois radicado em Paris, era um cidadão do mundo, onde não deixou de documentar as suas guerras, os seus desastres, as suas crenças. O seu desaparecimento provoca-nos uma tristeza imensa. Possam os deuses e os anjos de todas as grandes religiões deste mundo que ele fotografou com tanta paixão acompanhá-lo”.

O comunicado com que a agência Magnum noticia que o seu fotógrafo Abbas (1944-2018) morreu, na quarta-feira, em Paris, não pode ser mais eloquente. Desaparece um dos grandes foto-repórteres da actualidade, que numa carreira de seis décadas registou para a História – “Estou a fazer História”, respondia ele, muitas vezes, quando questionado no palco dos grandes acontecimentos mundiais: a Guerra no Vietname, a Revolução Iraniana de 1979, o conflito no Médio Oriente, a luta contra o Apartheid na África do Sul, e o fenómeno das religiões em diferentes partes do planeta.

Durante uma vida dedicada ao fotojornalismo, mas também à reflexão e à escrita sobre os lugares e os acontecimentos que ia registando com a câmara, Abbas (nome árabe que tanto significa "austero", como "arrogante" ou mesmo "leão") viajou e trabalhou em três dezenas de países em quatro continentes, onde fotografou guerras e revoluções no Biafra e na Bangladesh, na Irlanda do Norte e em África, no Chile e em Cuba.

“É por que o mundo é a cores que eu o fotografo a preto e branco”, dizia Abbas sobre a sua opção estética. Mas, “com ele, o preto e branco ganhava uma expressividade imediata, dramática, comunicante e, por isso, universal”, escrece Valérie Duponchelle no obituário que lhe é dedicado na edição desta quinta feira do jornal Le Figaro.

Irão e exílio

Abbas nasceu em 1944, no Irão, mas cresceu na Argélia, onde o pai se tornou líder da comunidade Baha’i, religião monoteísta que professava a união espiritual da humanidade. Talvez tenha nascido aqui o seu interesse pelo fenómeno das religiões, e dos seus impactos nos eventos sociais e políticos que haveria depois de acompanhar, estudar e documentar durante toda a sua vida.

Regressou ao seu país natal na década de 70, e acompanhou de perto, e fotografou, a Revolução liderada pelo ayatollah Khomeini em 1979. “Ao cobrir a revolução iraniana durante dois anos, apercebi-me de que a vaga de paixão religiosa provocada por Khomeini, longe de se limitar às fronteiras do Irão, iria expandir-se por todo o mundo muçulmano”, disse em entrevista à BBC. “Eu sabia que essa seria a única vez na minha vida em que estaria implicado num acontecimento desde o seu início”, acrescentou.

Nos anos a seguir à revolução, auto-impôs-se uma espécie de exílio pessoal relativamente ao seu país, ao qual iria regressar apenas em 1997. Dessa experiência saiu o livro Iran Diary, 1971-2002, uma visão crítica da história do país num registo de quase diário íntimo.

Depois do islamismo, Abbas interessou-se, no começo do novo milénio, pela observação e estudo de outras religiões. Em 2000, publica Faces of Christianity: a photographic journey, a acompanhar uma exposição itinerante sobre esta religião como fenómeno espiritual, ritual e político.

Seguem-se incursões pelo animismo, pelo budismo e, mais recentemente, pelo hinduísmo – demanda que deixou também registada noutro livro, God’s I’ve seen, que a Magnum apresenta como “o ponto culminante do seu trabalho sobre as religiões”.

Na fotografia, Abbas terá descoberto a sua vocação quando, em 1968, participou numa road trip em Nova Orleães, nos Estados Unidos. Foi aí que se tornou “um profissional”, confidenciou o próprio aos colegas da agência, para a qual entraria apenas em 1981, depois de ter passado pelas congéneres SIPA (1971-73) e Gamma (1974-80).

“Ainda criança, eu tinha uma imagem heróica do jornalista: viajavas, ias à guerra, cobrias os acontecimentos históricos”, escreveu Abbas em 2017, revisitando uma carreira em que viveu o trabalho do repórter fotográfico como o de um romancista.

“O fotógrafo será sempre, para mim, aquele que escreve com a luz”, disse também o foto-repórter, que, noutra ocasião, acrescentaria: “Quando me perguntam quem são os fotógrafos que me influenciaram, digo Rembrandt, Picasso, Cézanne, Caravaggio, Velasquez”.

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