A “grande mentira que é a venda do destino Europa”

© Rui Caria
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Durante os 34 dias que passou em alto mar, entre Itália e Tunísia, Rui Caria assistiu ao resgate de mais de 150 pessoas pela tripulação do navio patrulha português Viana do Castelo. Provenientes de vários países africanos, os viajantes rumam em direcção ao falso sonho europeu “em barcos que já nem barcos são”, descreve o fotógrafo português. “São carcaças acopladas a motores muito rudimentares – alguns de motas, carros – que trazem, geralmente, 30 a 40 pessoas.” O fotojornalista chama-lhes “refugiantes”. São refugiados? Imigrantes ilegais? “O conceito começa a diluir-se nas águas do Mediterrâneo”, conclui.

São sobretudo os aviões militares que detectam a presença das embarcações ilegais nas águas que separam o continente africano da Europa. As coordenadas são transmitidas por eles aos barcos patrulha mais próximos. “Por vezes, demorámos quatro, seis horas até interceptar esses barcos”, explica Caria. “E quando o fazemos a reacção é sempre uma incógnita: a esmagadora maioria não está interessada em ser salva. Enquanto atravessam águas internacionais, não desligam os motores dos barcos e não comunicam em nenhuma língua que não a do seu país de origem.” Os migrantes sabem que, em território internacional, não podem ser impedidos de prosseguir. Dentro de águas territoriais italianas existem duas medidas possíveis: uma acção de força ou uma de salvamento. “Desligar o motor, fingir uma avaria, garante uma operação de salvamento. Manter a rota implica uma violação da lei italiana — o que aumenta as probabilidades de detenção e repatriamento.” A técnica de desligar os motores foi usada por quase todos os barcos que foram interceptados pelo navio patrulha português. “Isto indicia que existe já, por parte dos migrantes, um grande conhecimento acerca dos procedimentos oficiais das autoridades europeias”, sugere o fotojornalista.

A subida a bordo decorreu, em todos os casos que Caria testemunhou, de forma algo desordenada, “num pânico inventado à pressa”. Crianças e mulheres entraram primeiro. “A maioria dos passageiros são homens. Recordo-me de ter visto apenas uma mulher e quatro ou cinco crianças. Há, normalmente, bastantes rapazes adolescentes a bordo — sobretudo jovens entre os 16 e os 17 anos.” Assim que são resgatados, os migrantes são agrupados, revistados e examinados pelo médico de bordo. Depois de serem identificados, é-lhes entregue um cobertor e um saco com uma refeição ligeira. “Passados 30 minutos a bordo, os migrantes já conversam, já tentam comunicar connosco em inglês ou francês”, descreve o fotojornalista. “Os facilitadores – ou ‘coiotes’ – são quase sempre fáceis de detectar entre os demais pela forma como se comportam no grupo. São aqueles para quem todos olham em busca de respostas, de liderança, e são os únicos que jamais abrem a boca. À chegada ao destino, são logo detidos e repatriados ao abrigo do acordo entre as autoridades italianas e tunisinas.” O repatriamento destes facilitadores perpetua um ciclo que parece não ter fim à vista: milhares de pessoas são envolvidas, anualmente, “nesta grande mentira que é a venda do destino Europa com a promessa de uma nova e boa vida” para se depararem, apenas, com um novo mar de desafios.

Desde o início de 2018 (até final de Agosto), segundo dados do Ministério do Interior italiano, 19.874 migrantes deram entrada no país. Rui Caria foi correspondente da TVI durante uma década, entre 1993 e 2003, e, actualmente, é repórter de imagem e correspondente da SIC nos Açores. O seu trabalho fotográfico já foi destacado em publicações como National Geographic1x, Leica Fotografie International e na agência Getty Images. 

Artigo corrigido às 18h52 de 30 de Setembro. Rui Caria assistiu ao resgate de 150 pessoas e não 300.

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