Um castelo que respira, um grito de amor, uma ópera a dobrar no Centro Cultural de Belém

O Castelo do Barba-Azul, de Béla Bartók, e A Voz Humana, de Francis Poulenc, juntam-se numa produção com direcção musical de Joana Carneiro e encenação de Olga Roriz focada nas relações homem-mulher. Matéria intensa, a desta ópera dupla do Teatro Nacional de São Carlos em cena a partir desta quarta-feira no Centro Cultural de Belém.

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Judite (Allison Cook) e o Barba-Azul (Marcell Bakonyi), os protagonistas de O Castelo do Barba-Azul Miguel Manso

Duas óperas bem diferentes, mas que se ligam num único espectáculo, sem intervalo, chegam de uma assentada ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), que, numa parceria com o Teatro Nacional de São Carlos, recebe a partir desta noite, e até domingo, o dois-em-um O Castelo do Barba-Azul, de Béla Bartók e Béla Balazs, e A Voz Humana, de Francis Poulenc e Jean Cocteau. As relações entre homens e mulheres são o centro da encenação que a coreógrafa Olga Roriz propõe para esta sessão dupla que junta duas importantes obras modernas do século XX. Não é, contudo, de coreografia que se trata aqui, mas de teatro e de ópera: “Para mim o lado dramatúrgico é sempre muito forte dentro da coreografia, imagino que por isso o Patrick [Dickie, director artístico do São Carlos] tenha pensado em mim”, diz Olga Roriz ao PÚBLICO no intervalo de um dos últimos ensaios.

A Voz Humana, ópera em um só acto para soprano e orquestra, foi criada por Poulenc em 1958 em estreita colaboração com Cocteau, que tinha escrito a peça 30 anos antes. A obra foi composta para (e com) a soprano Denise Duval, que teve um papel importante na própria criação. Nesta produção conjunta do CCB e do São Carlos, o papel de “Ela” (“Elle”, como lhe chamou simplesmente Cocteau) será interpretado pela potente soprano franco-canadiana Alexandra Deshorties.

Mas esta noite, no Grande Auditório do CCB, tudo começará com O Castelo do Barba-Azul, uma ópera inquietante e fascinante de Bartók estreada em 1918. “O Barba-Azul persegue-me há muito tempo”, diz-nos Olga Roriz. “Já tinha tido a ideia de fazer o Barba-Azul com tudo e depois só com música, para uma coreografia, e fiquei sempre com ele na cabeça. É uma ópera lindíssima, e também metaforicamente. Uma obra muito forte e actual”, acrescenta. E explica-nos como decidiu ligar as duas óperas: “O Patrick propôs-me fazer O Castelo do Barba-Azul e A Voz Humana, e pensei logo que gostaria de fazer um espectáculo só, sem intervalo. Elle surge então como uma das mulheres cativas do Castelo.” Numa como noutra, os papéis femininos são centrais (Ela, no caso de A Voz Humana, e Judite, no caso de O Castelo do Barba-Azul). "O que está em causa", segundo a encenadora, "é a relação entre homem e mulher, o conflito, a dificuldade da relação": "Na minha Voz Humana não há telefone, nem sofá, nada. É um monólogo interior, apesar da relação com dois outros, é só espaço e solidão. Fala do fim de uma relação, de uma traição. Mas é também um grito de amor. Ela perde o rumo, o porto, a auto-estima.”

Para Olga Roriz, a obra de Bartók é toda uma outra coisa: “É uma descoberta da alma. Mas a Judite quer descobrir de mais.” E conta ao PÚBLICO como concebeu esta relação entre Judite (Allison Cook) e o Barba-Azul (Marcell Bakonyi): “O meu ponto de partida foram precisamente os dois cantores, e perceber que podiam ser um casal. Tirei partido disso, dessa possibilidade de ser um amor real, criando um lugar de desejo e de paixão. Quis que fosse como uma relação normal.” E até jogar com o próprio físico dos dois: “São ambos altos, podem fazer-se frente fisicamente. Há movimentação, mas não é uma coreografia. É apenas um trabalho do corpo no espaço. No Barba-Azul tem a ver com a forma como eles se atraem e se repelem. Mas eles têm de interpretar, não são apenas figuras. E estão a fazer como se fosse naquele momento: procurei uma organicidade dos corpos no espaço, dentro de cada cena e dentro dos personagens."

Alta intensidade

Joana Carneiro, que dirige musicalmente esta produção, acaba de dar algumas indicações finais aos músicos depois de mais um ensaio de O Castelo do Barba-Azul. A maestrina parece estar ainda com a música do compositor húngaro na cabeça: “O Bartók é uma música poderosa, mas com muitos detalhes que fazem toda a diferença e mudam a expressão. De certa forma, a orquestra, na ópera, também está à procura do que se passa naquele castelo. É música tonal, ou politonal em certos momentos, mas há um uso muito curioso da dissonância, para dar conta de uma luta, de uma angústia interior, da procura de uma luz onde ela não existe”, diz ao PÚBLICO.

Para a maestrina, estas duas óperas são "radicalmente distintas". “Mesmo a Judite e a Elle são personalidades muito diferentes”, argumenta, sublinhando que musicalmente também há algumas diferenças importantes: “No Bartók é importante a ligação com os cantores e a variedade das suas emoções. Há constantes mutações rítmicas e de tempo. Tem a ver também com a língua húngara, essa oscilação. E depois há uma escrita sinfónica que tem de encontrar um equilíbrio com os cantores. N'A Voz Humana há uma escrita mais transparente e momentos em que a cantora canta sozinha. Há mais uma ideia de pergunta e resposta entre cantor e orquestra do que no Bartók." A ópera de Poulenc, prossegue ainda, colocou "outro tipo de questões para as quais foi preciso encontrar solução": "Há um diálogo fictício entre ela e ele, e a música está sempre a parar e a recomeçar. É preciso perceber quão longos devem ser os silêncios. E para saber o que fazer com a música é importante saber que gestos ela faz, como reage.” E para isso, nota, foi importante o diálogo que se estabeleceu entre a encenadora e a directora musical, clarificando a música, os gestos e as emoções destas duas óperas de alta intensidade emotiva.

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“A Judite é muito corajosa. Vê sangue ali e acolá, mas vai passando à frente. Mas é também violenta, quer ir até ao fim”, diz Olga Roriz quando entramos pelas histórias e pelas emoções das personagens. “O Barba-Azul quer amor e carinho, procurei vê-lo como um pinga-amor, um sedutor, até quase ao fim da ópera. Ele tem um poder mágico, como se hipnotizasse as mulheres. Mas queria que o público pudesse espelhar-se, que pudesse rever-se nestas figuras. Ah, e com figurinos do Nuno Gama...”

Mas para a encenadora desta dupla ópera o verdadeiro protagonista é o próprio castelo do Barba-Azul: “O castelo respira, o castelo sua. Por isso pensei que as paredes deviam ter vida. E lembrei-me do João Pedro Fonseca, cujo trabalho de vídeo já conhecia, e que achei que era a pessoa certa para dar vida a estas paredes. Primeiro pensei mesmo que seria nas paredes da sala. Depois optámos por uma solução com mais intimidade, que permitisse os cantores estarem mais à frente. De qualquer forma, a ideia é que o castelo é um palco, que o Barba-Azul é um actor que anda de palco em palco, e que a Judite é cada mulher, todas as mulheres. Na encenação há uma imagética muito forte. A projecção reflecte-se nela, no seu vestido claro. De certa forma, a Judite é também um ecrã.”

Em A Voz Humana as coisas acalmam um pouco, aparentemente. A orquestra de Poulenc é um pouco mais pequena para esta “tragédia lírica”. E a encenação centra-se totalmente no corpo da soprano naquele espaço. Mas a intensidade das emoções, essa nunca desaparece de cena, da fascinante orquestra de Bartók até ao grito de amor de Poulenc e Cocteau.

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