Reportagem

Em Mação, o desalento de quem revive o inferno ano após ano

Na paisagem já enegrecida pelos incêndios de 2017, bombeiros lutam para extinguir as chamas e evitar reacendimentos. O PÚBLICO está no local a acompanhar as operações e a conhecer as histórias presentes nos fogos que atingem os distritos de Castelo Branco e Santarém.

,Jipe
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta

O rodopio das chamas a norte da freguesia de Sarnadas, no concelho de Mação, deixou de coração apertado uma dezena de habitantes que na tarde deste domingo se concentravam num troço com cerca de 100 metros de comprimento. Estavam completamente cercados pelo fogo com quatro frentes activas.

Uma senhora idosa chorava de tristeza com a aproximação das chamas à sua habitação. O frenesim multiplicou-se: os bombeiros, cuja água começava a escassear, não tinham mãos a medir. Ora uma casa era ameaçada mais acima, ora o fogo aproximava-se perigosamente da estrada. O vento, que assumia à vez o papel de amigo e inimigo, puxava o principal incêndio em direcção das habitações.

“Tivemos aqui vários incêndios, mas não me lembro de um em que a aldeia ficasse completamente cercada”, explicou uma habitante, impaciente para encher de água um balde com que regaria a vegetação que circundava a casa. Não tinha mãos a medir: o maior incêndio avançava pelas colinas a com grande velocidade, apontando directamente à sua habitação. Com a estrada cortada em ambos os sentidos, a única alternativa era ficar e lutar.

PÚBLICO -
Foto

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, esteve presente naquele que foi o ponto mais crítico da tarde deste domingo. Visivelmente apreensivo com o rumo negativo dos acontecimentos, permaneceu junto da população. Em declarações ao PÚBLICO, lamentou o destino que tem marcado a sua autarquia quando chega o Verão: “Infelizmente temos sentido na pele o drama dos incêndios ao longo dos anos. Quando pensamos que o pior já passou, acontece algo de maior dimensão. Parece que falha sempre alguma coisa. E, novamente, essa coisa voltou a falhar.”

Sempre que um fogo era circunscrito, reerguia-se minutos depois, com maior força. Alguns faziam alusão à crença de que as chamas teriam origem criminosa. Os bombeiros, por sua vez, carenciados de meios com o passar das horas, redobravam-se em esforços para ter efectivos em todas as frentes. Apesar do esforço hercúleo, três casas acabariam por arder na freguesia do distrito de Santarém.

À espera dos aviões

Apesar de não se saber ainda que seria o incêndio que atravessaria várias freguesias do concelho de Mação, já se sabia a devastação que causaria, caso se tornasse realidade. Por volta das 11h deste domingo, um incêndio isolado ameaçava transpor uma estrada à saída da freguesia de Sarnadas.

“Foi um ponto que voltou a reacender durante a noite deste domingo”, confirmaria ao PÚBLICO o comandante dos Bombeiros Voluntários de Mação. Vários habitantes, preocupados com as chamas que teimavam em aproximar-se da estrada e em lançar faúlhas para a zona verde no outro lado da ribanceira, dialogavam com um membro da Protecção Civil, que partilhava da mesma preocupação.

PÚBLICO -
Foto

“Se o fogo transpõe a estrada, arde isto tudo e vai ser impossível salvar as casas”, desabafou um dos presentes no local.

Todos os olhos estavam virados para o céu, à procura das aeronaves. Até que, dos aviões, ao invés da habitual torrente de água, um autêntico nevão — formado por espuma retardante — abafou a intensidade das chamas, mas não impediu que estas voltassem em força e se alimentassem da zona verde que tinha escapado aos incêndios de 2017.

PÚBLICO -
Foto

Chamas estas que após circundarem a freguesia de Sarnada durante a tarde deste domingo, desceram para a aldeia vizinha de Freixoeiro. Manuela, acompanhada pela mãe, Isaura, recompunham-se do susto, com o terreno ainda fumegante. A casa de família estava intacta. A linha de terreno queimado terminava a cerca de dez metros da entrada.

“Tínhamos lavrado e cortado toda a vegetação próxima da casa, como mandam as regras. Contudo, tememos muito pela nossa habitação, claro. Mas quando o fogo surgiu, fugimos. Era apenas uma casa. A vida é a vida”, argumenta Manuela, sempre com a anuência da progenitora.

Empresário volta a perder terrenos

Pensativo, ausente, derrotado. De braços cruzados, Fernando Alves olha fixamente para os tufos fumegantes que vão pintando de branco a berma da estrada. O sexagenário já tinha perdido terrenos nos incêndios de 2017 que afectaram os distritos de Castelo Branco e Santarém. Voltou a não escapar.

PÚBLICO -
Foto

“Infelizmente, não há ano em que não venham os incêndios e não seja castigado”, lamenta. Vive em Portela, concelho de Oleiros, mas tinha propriedades agrícolas perto de Maxieira, em Mação, distrito de Santarém. Um pingo de suor corre-lhe no rosto. Mal conseguiu dormir na noite de sábado para domingo, período em que os incêndios assumiram maior dimensão.

“Só tive tempo para ir descansar um bocadinho à minha aldeia. Esteve lá o lume perto. Depois vim cá para tentar perceber o que tinha ardido. Bem tentei espalhar os meus terrenos, mas não os consegui salvar nestes dois incêndios”. Conformado, arranca no jipe, rumo ao horizonte carregado de faúlhas.

À medida que Fernando se afastava, os tufos eram já uma pilha de vegetação flamejante. Os bombeiros acorreram a um dos muitos pontos de reacendimento que ameaçavam comprometer o trabalho realizado durante a madrugada de domingo. Nas áreas inacessíveis às equipas de socorro, umas das quatro máquinas de rasto cedidas pelas Forças Armadas mostram-se imprescindíveis ao combate às chamas.

“Com uma toalha de mesa à cabeça”

Nas estradas da freguesia de Amêndoa, no concelho de Mação, uma casa negra, ainda a fumegar, confundia-se com a vegetação queimada. Não era a única na rua: algumas que serviam de habitação, outras desertas, jaziam tombadas na calçada.

Um homem regava sem descanso um barracão adjacente a uma casa de dois andares. Neste local, a poucos metros das casas enegrecidas, as habitações ficaram intactas. Com os olhos raiados da falta de sono, não consegue conter a emoção ao contar a história de como quatro vizinhos conseguiram fazer face às chamas sem a ajuda dos bombeiros.

“Escreva aí a forma como quatro heróis de Lisboa salvaram estas casas. Está a ver aquela encosta queimada? Estava tudo a arder, estávamos cercados pelo fogo. Não dormi nada esta noite. Imagine lá que fui colocar uma toalha de mesa encharcada à cabeça e, com esta mangueirinha, estive horas a impedir que o fogo se aproximasse das casas”, relembra Luís Résio com a voz embargada. A primeira corporação de bombeiros chegou ao local às 4h10, garante. Até conseguir a ajuda dos soldados da paz, Luís, o irmão e outros dois vizinhos lutaram para que as chamas não galgassem as bermas das estradas na rua da aldeia da freguesia de Amêndoa.

Agradece as “sardinhadas ocasionais” que partilha com os amigos e que o levaram a regressar à terra natal, mesmo no dia em que os incêndios tiveram início, facto que lhe permitiu precaver-se e defender as habitações. “Se não fossem esses convívios, as casas tinham ardido todas”, atesta, tentando-se recompor da tormenta que, devido ao risco de reacendimento, pode ainda não ter terminado.