Crónica da Vanessa

Para onde vão os amores quando morrem

Eu enjoo escritores de quem gostei muito, a Vanessa enjoa gajos de quem gostou alguma coisa, minimamente, bastante.

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Há muitos anos andei entusiasmada com Enrique Vila-Matas, um escritor catalão que mais tarde me desapareceu que, se eu quiser ser completamente autêntica, é uma forma eufemística de dizer que me enjoou. Mas gostei mesmo muito de Vila-Matas enquanto gostei de Vila-Matas. Li quase tudo o que, até à altura do enjoo, mais ou menos por volta de 2003, Vila-Matas escreveu. Paris nunca se acaba, o livro em que conta a sua juventude em Paris, onde viveu numas águas-furtadas que alugava a Marguerite Duras, é uma coisa deliciosa. Mas os outros também – O Mal de Montano, Bartleby e Companhia, Longe de Vera Cruz, A História Abreviada da Literatura Portátil. Gostei de tudo.

O facto de eu ter inexplicavelmente enjoado Vila-Matas não tem nada a ver com Vila-Matas. Eu nem sei porque enjoei Vila-Matas. Conduz-se o desejo para outros lugares e é assim. De resto, nas férias do ano passado voltei a ler um livro de Vila-Matas, Da Cidade Nervosa, um conjunto de crónicas publicado já depois do meu enjoo, e fiquei encantada.

Eu enjoo escritores de quem gostei muito, a Vanessa enjoa gajos de quem gostou alguma coisa, minimamente, bastante. A coisa às vezes torna-se tão inexplicável como o meu enjoo com tipos esplêndidos como Vila-Matas, para pior. Mas se a literatura é infinita, os homens também.

Aquela frase de Almada Negreiros, n’ A Invenção do Dia Claro pode explicar tanto o meu problema como o da Vanessa: “Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam! Não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão… estou perdido.”

A Vanessa pensa que os anos que tem de vida não chegarão para conhecer os homens suficientes de modo a que algum lhe permita concluir que o amor sem enjoo existe. Afinal, até agora isso não aconteceu. Não é possível que aconteça.

– Eu gostava de não enjoar tão facilmente, confessou-me ela há dias.

– Cada um é como cada qual. Eu também enjoo escritores. E comida. E lugares. O enjoo é humano. Não se pode fazer nada contra a natureza.

– Sim, mas para onde vão os amores quando morrem?

A pergunta é universal. A Vanessa estava a dar-lhe para a metafísica o que não é comum. Ela é mais um Esteves sem metafísica.

– Come chocolates, Vanessa.

– Não quero. Mas para onde vão esses amores falhados todos? Aquilo é energia, certo?

– Morrem, pronto. A energia apaga-se. Deixa de existir.

E foi aqui que me lembrei de uma frase maravilhosa de Vila-Matas que eu não lia há séculos. Para onde vão as palavras quando morrem? As palavras, quando morrem, morrem no mar de Ponta Delgada.

Mudei de ideias e respondi à Vanessa:

– Os amores quando morrem vão para o mar de Ponta Delgada.

– Estás a falar de quê?

– De um gajo.

Dos enjoos da Vanessa não falo, mas o meu enjoo com Vila-Matas foi muito estúpido. Aqui está um gajo com que não devia ter corrido.