Editorial

Centeno no FMI? Sim, é possível

Olhando para os outros três candidatos da União Europeia, que insiste que o cargo de topo do FMI continue a pertencer a um dos seus, percebe-se que as hipóteses de Mário Centeno são grandes.

As exportações portuguesas de cidadãos para altos cargos internacionais ameaçam agora ter um ponto alto na possível transferência de Mário Centeno para director-geral do FMI.

Se na entrevista que deu à rádio Observador, António Costa falou da questão como “uma hipótese que não pode deixar de ser considerada”, ainda que não fosse inicialmente “um objectivo” do Governo, já no discurso de encerramento da convenção socialista deste fim-de-semana levou um bocadinho mais longe o entusiasmo com a possibilidade: depois de elogiar o homem desconhecido que chamou para fazer o programa macroeconómico do PS em 2015 de quem todos “se riram muito” [Costa dixit] e que hoje é presidente do Eurogrupo, o secretário-geral do PS anunciou que Centeno, “quem sabe, não exercerá mesmo outras funções de grande dimensão”.

Olhando para os outros três candidatos da União Europeia, que insiste que o cargo de topo do FMI continue a pertencer a um dos seus, percebe-se que as hipóteses de Mário Centeno são grandes. O desagradável holandês Dijsselbloem – aquele que acusou os países do Sul da Europa de gastarem o dinheiro em copos e mulheres – está, enquanto presidente do Eurogrupo, profundamente ligado à mais perniciosa ortodoxia europeia na gestão da crise e, ao que parece, não interessa ao FMI replicar isso.

Na sua coluna de ontem no Financial Times, Wolfgang Münchau escrevia: “Se a zona euro nomeia Mr. Dijsselboem ou qualquer outro que tenha tido funções proeminentes durante a crise, eu aconselharia os outros Estados-membros do FMI a nomearem o seu próprio candidato.” Ora, o mesmo raciocínio de Münchau – que está longe de ser minoritário – se aplica a Olli Rehn, o outro putativo candidato europeu a director-geral do FMI. O finlandês, actual governador do banco central do seu país, foi o comissário europeu para os Assuntos Económicos e Monetários até 2014. Tem o mesmo handicap de Dijsselboem.

Os outros dois da short list são a ministra espanhola da Economia, Nadia Calviño, uma economista e jurista com perfil de “tecnocrata” – “politicamente neutral”, diz o El País – que Sánchez foi buscar a Bruxelas para dar credibilidade ao seu Governo, e Mário Centeno, que tem os seus sucessos de défice perto de zero para mostrar. A candidatura europeia ao FMI discute-se na Ibéria. A avaliar pelo quadro, convém começar a encarar seriamente a ideia.