Opinião

António Variações e os anos 1980

A reboque do filme tem-se falado muito dos anos 80, mas quase sempre a partir de uma perspectiva mais idealizada do que real. O que é demonstrativo da incapacidade de gerar pensamento crítico, guardar memória e reflectir objectos que não sejam canónicos e oficiais. Como António Variações.

Um sucesso. Numa semana apenas, Variações foi visto por mais de 80 mil pessoas nas salas de cinema, tornando-se o filme português com mais espectadores deste ano. Haverá várias razões que ajudam a explicar o sucedido. Algumas referentes ao próprio António Variações, às canções, à estranheza que se torna familiar, à ideia de alguém que persegue um sonho ou até à actualidade da sua afirmação identitária; e outra, à forma como o filme expõe tudo com delicadeza. Há também, claro, quem saia da sala desagradado, sendo que nestes casos, do que oiço, seja mais por eventuais razões de fidelidade em relação à realidade. Critica-se não tanto o que está inscrito no filme mas aquilo que poderá eventualmente faltar.

Independentemente de debilidades ou faculdades, existe um dado indiscutível: o filme gera discussão e convida à reflexão a partir de uma série de elementos. Um dos factos mais curiosos prende-se com o fascínio das novas gerações, não só por Variações mas pelas ressonâncias simbólicas que ele transporta e época que representa – o pós-25 de Abril, os primeiros anos de democracia e o irromper da geração de 1980, uma época de transição entre um passado que ainda não se transpusera e um desejo de futuro que ainda não tinha contornos bem definidos. Existe nitidamente uma curiosidade latente por procurar perceber que anos foram aqueles. E fantasia-se muito os mesmos, o que por norma é sintoma de que ainda existe um longo trabalho reflexivo para realizar.

O que gera interrogações, sobre o porquê de, em Portugal, apesar de algumas excepções, inclusive na academia, ainda serem os objectos canónicos, as personagens ou acontecimentos oficiais, que servem para nos pensarmos. A partir, por exemplo, de Variações, é possível ler o Portugal contemporâneo de uma forma mais pertinente do que tantos outros motivos que nos são mostrados como indiscutíveis. Não é apenas a sua música que nos diz coisas – sociais, psicológicas ou físicas – acerca da forma como nos sentimos e percebemos, em relação a nós e aos outros, é também o que o seu trajecto convoca, ao nível dos comportamentos, das normas e das dinâmicas socioculturais da época, muitas delas cristalizadas no presente.

O que nos conduz à ideia de que aqui ainda parece vingar a ideia de que existem matérias mais dignas de investigação do que outras. Mas essa respeitabilidade não deveria advir de uma suposta qualidade essencial, vista como perene, mas antes da nossa capacidade para a descrição de uma maneira tão densa quanto inteligível. Não há matérias que sejam, intrinsecamente, mais veneráveis. O que há são formas inteligentes de relacionar objectos que, à primeira vista, não o seriam. Há muitos assuntos com potencial para serem relevantes. O valor é atribuído pela interpretação. Pode-se aplicar teorias complexas a questões que parecem vulgares, desde que todos os elementos participem numa mesma lógica comum.

O contrário disso é fazer com que os tópicos de conversa, de diálogo e de compreensão do nosso mundo, nunca mudem. A viragem dos anos 1970 para os 1980 foi um período fundador em muitos aspectos em Portugal. Devido a isso, por ter sido um tempo iniciático, serviu também para afirmar muita gente sem especiais qualidades, que beneficiou dessa particularidade. Não é o caso de Variações. Ele é o exemplo de um período onde se movimentaram personagens inspiradoras, produtores de ideias, gente capaz de criar as suas próprias utopias, agindo como catalisadores e contribuindo à sua maneira para mudar o mundo em redor. É também por isso, a reboque do filme, que vale a pena celebrar esses anos. Mas idealizá-los, rasurando-os da sua complexidade, seria apenas sintoma da nossa dificuldade endémica em criar pensamento crítico e memória.