Violência xenófoba volta a matar na África do Sul

Ódio aos estrangeiros fez pelo menos dez mortos. Com a taxa de desemprego a atingir 29%, os imigrantes são alvo fácil. Federação de camionistas suspeita de fomentar os ataques. Boicote a produtos e serviços sul-africanos no continente.

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O nigeriano Basil Onibo que viu o seu stand de automóveis em Joanesburgo incendiado SIPHIWE SIBEKO/Reuters
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Negociantes de sucata aproveitam um carro incendiado durante os tumultos SIPHIWE SIBEKO/Reuters
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Com uma taxa de desemprego de 29%, há quem aproveite tudo para ganhar alguma coisa SIPHIWE SIBEKO/Reuters
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Polícias nas ruas do township de Alexandra, em Joanesburgo Marius Bosch/Reuters
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Dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se contra a violência de género na Cidade do Cabo NIC BOTHMA/EPA
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O Presidente Cyril Ramaphosa falou aos manifestantes NIC BOTHMA/EPA
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Protesto contra a violência de género à margem do Fórum Económico Mundial para África SUMAYA HISHAM/Reuters

A esquadra de polícia de Katlehong North, nos subúrbios de Joanesburgo, encheu-se de estrangeiros. Nenhum deles é acusado de nada, estão ali à procura de refúgio da turba violenta lá fora, que voltou a escolher os imigrantes como alvo de violência, em mais uma onda de ataques xenófobos que assola a África do Sul.

“A violência tem vindo a aumentar há algum tempo. Vivemos com medo, somos vítimas das senhorias, só porque nascemos noutro país”, contou ao site News24 Sandra Bhebhe, que teve de fugir da sua casa com os seus dois filhos na quarta-feira à noite.

“A certa altura, disseram-nos que dois estrangeiros tinham sido mortos e alguns afirmaram ter visto os cadáveres. Foi nessa altura que, do nada, os senhorios com inquilinos estrangeiros também se voltaram contra nós e começaram a deitar as nossas coisas para a rua e a queimá-las, com ajuda de outros membros da comunidade”, descreveu Sandra Bhebhe.

A polícia não confirma os dois mortos em Katlehong North, mas o porta-voz, capitão Kay Makhubela, disse ao mesmo site noticioso que “grandes grupos de homens com armas tradicionais entraram nas comunidades causando estragos, levando a que um grande número de estrangeiros tivesse vindo procurar refúgio nesta esquadra da polícia”.

Esta nova vaga de ataques xenófobos na província de Gauteng, onde se situam Joanesburgo e a capital Pretória, que incluiu pilhagens e incêndios de lojas e pelo menos dez mortos, está a gerar uma onda de reacções um pouco por todo o continente africano, com boicotes anunciados por músicos, suspensão de voos para Joanesburgo por parte da Air Tanzania e as federações de futebol de Madagáscar e da Zâmbia anunciando que as suas selecções não viajam para a África do Sul.

O partido no poder na Nigéria, o All Progressive Congress, convocou uma conferência de imprensa esta sexta-feira para apelar ao boicote aos produtos e serviços sul-africanos. Adams Oshiomhole, presidente do partido, disse que os ataques contra estrangeiros na África do Sul, alguns deles nigerianos, merecem uma “afirmação directa ousada”.

A condenação generalizada dos ataques na África do Sul chega numa altura em que os líderes africanos se reúnem na Cidade do Cabo para discutir a Área de Comércio Livre do Continente Africano, que se tornará no maior mercado comum do mundo, no Fórum Económico Mundial para África – aproveitado por dezenas de milhares de pessoas para se manifestarem contra a violência de género. A violência das ruas não deve afectar a cimeira, mas não é um bom cartão-de-visita para o Presidente Cyril Ramaphosa, que acaba de completar 100 dias no cargo desde que foi eleito a 22 de Maio.

29% de desemprego

Apesar de a economia sul-africana ter crescido 3,1% no segundo trimestre (acima das previsões de 2,4%), evitando-se assim a segunda recessão em três anos, ainda é um crescimento abaixo da descida de 3,2% do primeiro trimestre. Além disso, o desemprego alcançou o valor mais alto desde o início de 2008. E se Ramaphosa foi eleito em Maio, era o vice-presidente de Jacob Zuma que assumiu o cargo quando este se demitiu em Fevereiro do ano passado.

Perante uma taxa de desemprego de 29% no segundo trimestre deste ano, subindo um ponto percentual em relação ao primeiro, o líder da oposição, Mmusi Maimane, convocou para esta quinta-feira um debate de urgência sobre a questão da falta de emprego, apelando a reformas económicas que possam revitalizar a economia e criar postos de trabalho.

A pressão do desemprego na sociedade sul-africana torna os estrangeiros vulneráveis, por se transformarem em alvos fáceis para a frustração de quem procura trabalho em vão. Para uma parte substancial dos sul-africanos, muitos dos problemas se resolveriam sem os estrangeiros que vivem na África do Sul. Num estudo do Human Sciences Research Council, 31% dos inquiridos responderam que a xenofobia no país se resolvia com a expulsão dos estrangeiros, enquanto 14% advogava um reforço das fronteiras e 12% defendia que os estrangeiros deveriam alterar o seu comportamento.

Embora o jornal Mail & Guardian, citando fontes dos serviços secretos, adiante a hipótese de que estes ataques xenófobos sejam parte de uma campanha para desestabilizar o Governo de Ramaphosa, os indícios mais fortes apontem no sentido de terem sido membros de uma organização de camionistas, o All Truck Drivers Forum (ATDF), a fomentar a violência.

Na quinta-feira, o porta-voz do ATDF, Sipho Zungu, desmentiu qualquer envolvimento da organização nos ataques xenófobos. No entanto, sublinhou, citado pelo Mail & Guardian, a necessidade de expulsar do país os trabalhadores estrangeiros: “A realidade é que os camionistas sul-africanos já não têm emprego e temos vindo a dizer aos donos dos camiões e ao Governo que têm de se ver livres dos camionistas estrangeiros”.