Prémio Bisato d’Oro da crítica distingue A Herdade, de Tiago Guedes, em Veneza

Filme português, que esteve na competição principal do festival, foi visto por este júri da crítica independente como tendo reminiscências do 1900, de Bernardo Bertolucci.

Tiago Guedes
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Tiago Guedes Nuno Ferreira Santos

O filme português A Herdade, de Tiago Guedes, foi distinguido este sábado com o Prémio Bisato d'Oro para Melhor Realização, atribuído por um júri da crítica independente, presente no 76.º Festival de Cinema de Veneza. Trata-se de um prémio paralelo aos galardões oficiais do festival de Veneza, atribuído por um júri independente presidido por Paolo De Cesare, distinto igualmente dos prémios da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci).

A Herdade, que entrou na competição oficial do festival, é protagonizado por Albano Jerónimo e Sandra Faleiro, e tem produção de Paulo Branco. Para o júri do Prémio Bisato d'Oro (Enguia de Ouro), o filme português, “embora de forma mais íntima e menos espectacular, tem reminiscências do Novecento de Bertolucci”, concluindo que “a história é um pedaço de vida, um tempo passado com personagens que se tornam nossos companheiros numa preciosa viagem”.

A longa-metragem conta a história de uma família dona de uma propriedade latifundiária, e ao mesmo tempo traça “o retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal, dos anos 40, atravessando a revolução do 25 de Abril [de 1974] e até aos dias de hoje”, segundo a sinopse.

Contactado pela agência Lusa, o actor Albano Jerónimo comentou: “Estamos muito contentes com este prémio e as perspectivas que nos traz”. A Herdade está confirmado também para competir no Festival de Toronto, e chegará aos cinemas portugueses a 19 de Setembro.

O prémio Enguia de Ouro é atribuído todos os anos em Veneza. Em 2007, premiou Cristóvão Colombo - O Enigma, de Manoel de Oliveira, como Melhor Filme. Em 1989, Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro, recebeu em Veneza o Leão de Prata, e também o prémio da crítica Bastone Bianco.

Este ano, este júri da crítica independente atribuiu igualmente o Prémio Bisato d'Oro ao documentário Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara Paz. O filme – que no Festival de Veneza foi distinguido com o Prémio para Melhor Documentário Sobre Cinema – é produzido por Bárbara Paz, Myra Babenco e os irmãos Caio e Fabiano Gullane. Babenco foi premiado com a seguinte justificação do júri: “Porque o cinema filma a memória, porque o cinema conta a história daqueles que vivem, daqueles que viveram, porque o cinema comemora o amor, porque o cinema é amor”.

O documentário traça um paralelo entre a arte e a doença de Hector Babenco (1946-2016), sobre os últimos dias do realizador de origem argentina, que se fixou no Brasil, e que dirigiu filmes como Pixote, A Lei do Mais Fraco e O Beijo da Mulher Aranha.

Na entrega dos prémios oficiais, a realizadora Bárbara Paz, que percorreu a passadeira vermelha com um cartaz onde se lia “Eu sou Amazónia”, estava visivelmente emocionada e agradeceu ao cinema e à cultura brasileira e gritou, em português e em inglês: “Viva a liberdade de expressão!”. A reacção da cineasta acontece dias depois de a presidência de Jair Bolsonaro ter afastado a direcção da Agência Nacional de Cinema do Brasil (Ancine), que regula e fiscaliza o mercado do cinema e do audiovisual, e de os seus antigos responsáveis terem sido acusados de associação criminosa, entre outros delitos, pelas actuais autoridades. A Cinemateca de São Paulo tem vindo também a ser “ocupada por militares e políticos, contra o ‘marxismo cultural'”, noticiou esta semana o jornal Folha de S. Paulo. Bolsonaro admitiu em Julho a possibilidade de extinguir a Ancine, caso não a possa usar para impor “filtros” nas produções audiovisuais do país.

Notícia corrigida: com o filme Recordações da Casa Amarela, João César Monteiro recebeu em Veneza o Leão de Prata, e não o Leão de Ouro.