Depois dos festivais de Verão, estão aí os festivais do fim do Verão

No mês de todas as rentrées, uma mão cheia de festivais de artes performativas tonifica, de Vila do Conde ao Algarve, uma agenda com tendência para a overdose. O PÚBLICO desbravou cinco programações (Manobras, Mexe, Circular, Materiais Diversos e Verão Azul) à procura do que em breve poderemos ver por aí.

Palmela
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Das Cinzas é uma criação do FIAR – Centro de Artes de Rua DR

Renascer das cinzas e cozinhar em fogo lento

Promovido pela Artemrede, o Manobras é um festival dedicado a espectáculos de marionetas e formas animadas que se estende por dez municípios associados a esta estrutura que se dedica à descentralização cultural. Assim, entre 13 de Setembro e 31 de Outubro, companhias portuguesas e estrangeiras levarão 19 espectáculos, cinco oficinas e quatro projectos audiovisuais a teatros, bibliotecas e espaços públicos de localidades da região de Lisboa e Vale do Tejo, de Abrantes a Palmela.

A abertura do Manobras, em Pombal, caberá a Das Cinzas, espectáculo do FIAR – Centro de Artes de Rua, que propõe a travessia de uma floresta, experiência transformadora e que evoca o mito da Fénix, como caminho de renascimento a partir das cinzas. Depois da estreia, a 13 de Setembro, Das Cinzas viaja até Tomar (15) e até Alcanena (22), criando uma circulação que é uma das características da actividade da Artemrede – outra das singularidades é a discussão com as populações locais da programação a apresentar, pelo que o Manobras resulta também dessa adequação das propostas aos anseios das comunidades.

Composto maioritariamente por espectáculos gratuitos e com uma forte aposta numa programação que possa servir a crianças e adultos, a terceira edição do Manobras tanto convida a testemunhar pequenas peças de teatro que decorrem dentro de um guarda-fatos colocado no meio da rua (Guardar Segredos, pela Amarelo Silvestre, a 14 de Setembro em Abrantes, a 21 em Tomar) e a presenciar a história de um casal de idosos de uma aldeia interior portuguesa na excitante aventura para chegar à estação de correios mais próxima (Sítio, pela Companhia da Chanca, 21 de Setembro, Palmela), quanto a observar duas funcionárias que chegam ao trabalho e desatam a recriar a passagem das estações do ano (Y a Plus de Saison!, pela Compagnie Figure Libre, 8 de Outubro em Abrantes, 10 em Alcobaça e 12 em Pombal), ou a saborear uma refeição preparada por uma italiana e um português que cozinham com ingredientes tradicionais mas também com noções de identidade e tradição (Fogo Lento, espectáculo de encerramento, a 26 de Outubro em Alcanena, 27 em Abrantes e 31 em Alcobaça), com assinatura da coreógrafa Costanza Givone.

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Fogo Lento, de Costanza Givone DR

Manobras – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas. Abrantes, Alcanena, Alcobaça, Barreiro, Moita, Montijo, Palmela, Pombal, Sobral de Monte Agraço e Tomar, de 13 de Setembro a 31 de Outubro

Grávidas ao poder e outras invasões de campo

À quinta edição, o MEXE – Encontro Internacional de Arte e Comunidade volta a reclamar o espaço público de uma cidade em processo acelerado de gentrificação, instalando-se no Jardim de São Lázaro, em plena Baixa do Porto, e dali irradiando para mais de 20 outros espaços.

Ensaiando outros modos de partilhar a cidade, fundados em boas práticas de vizinhança e em exemplos concretos de “invasão de campo” (como o do Movimento Secundarista, que em 2015 propôs uma ocupação das escolas da região de São Paulo, no Brasil), os espectadores serão convidados a convergir para esta praça todas as noites, após os espectáculos, ali digerindo “em comum” (o slogan de 2019) as actividades deste festival inteiramente comprometido com as práticas artísticas participativas e comunitárias – de resto documentadas numa fanzine colaborativa diária. Mas antes dos concertos que fecham cada dia de programação (e que, espelhando a lógica inclusiva do MEXE, tanto podem dar o palco ao Coro da Fundação Manuel António da Mota como ao Fado Bicha), e da parada final que reunirá todos os participantes no último dia, o MEXE vai pôr a cidade a mexer com um ciclo de documentários, um encontro internacional de reflexão sobre práticas artísticas comunitárias que juntará mais de cem investigadores e dezenas de espectáculos, a maioria dos quais gratuitos – entre eles, uma marcha de mulheres grávidas liderada pela italiana Caterina Moroni, uma orquestra catalã de bolas de basquetebol, um mergulho nas memórias dos habitantes das Fontainhas e um solo sobre o abuso sexual de crianças pelo tanzaniano Samwel Japhet. Também lá de fora vêm as três produções que ocuparão o Teatro Carlos Alberto: Empty the Space, da companhia ugandesa Kuenda Productions; Synectikos, de um colectivo espanhol, o Lisarco, aberto a portadores de Síndrome de Down; e Isto É um Negro?, dos E Quem É Gosta?, demolidora exposição do racismo que ainda estrutura o Brasil.

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Isto É Um Negro?, dos brasileiros E Quem É Gosta? DR

Tal como estes e outros artistas, os espectadores não residentes no Porto não precisam de dar cabo da cabeça à procura de lugar onde dormir: uma das novas alíneas do festival, o MEXE Casa, propõe “uma vivência de proximidade” que inclui alojamento, alimentação e uma imersão total no programa e na comunidade que o organiza.

MEXE – Encontro Internacional de Arte e Comunidade. Porto, de 16 a 22 de Setembro

Do punk à house, com Joana Gama, Vítor Rua e Sensible Soccers pelo meio

São 15 anos, mais tempo do que talvez se esperasse de um pequeno festival independente e intergéneros sediado em Vila do Conde e focado na criação de matriz experimental e na vontade de tirar da sombra os processos de trabalho dos artistas, muitas vezes comprometidos com o Circular em relações de longa duração. Do que ficou para trás dará conta a exposição De Volta. 15 anos de Circular, com curadoria de Susana Medina, que abre esta edição, juntamente com #PUNK, a provocadora performance-concerto em que a zimbabweana Nora Chipaumire, actualmente radicada em Nova Iorque, digere algumas das influências que a alimentaram nos seus anos de crescimento, com Patti Smith à cabeça. 

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#PUNK, provocadora performance-concerto da zimbabweana Nora Chipaumire DR

Sem fazer disso uma obsessão, o 15.º Circular tem justamente na música uma espécie de leitmotiv: começa com a energia empoderadora do punk, acaba com a hipnose da house, que a grega Katerina Andreou trabalha no espectáculo de encerramento, o solo BSTRD. Pelo meio, haverá um concerto especialmente festivo dos Sensible Soccers, com surpresas e convidados, e Home Sweet Sound, o encontro entre Vítor Rua, histórico da música experimental portuguesa, e a imparável Joana Gama – que também levará a Vila do Conde o seu concerto infantil Eu gosto muito do Senhor Satie

No capítulo das estreias absolutas, o Circular tirará este ano da cartola I know it when I see it, co-criação de Luísa Saraiva e Carlos Azeredo Mesquita, Ma Vie Va Changer, de Nuno Lucas, e Abrupta, em que o artista residente Filipe Caldeira volta a juntar-se com Catarina Gonçalves. Fora do palco, e dando expressão a outras dimensões da actividade continuada da associação Circular, o programa do festival completa-se com lançamentos (o primeiro número do jornal Coreia, projecto do outro artista residente do festival, João dos Santos Martins; e o 20.º da fanzine Flanzine, de João Pedro Azul, em que 70 artistas tratam o tema do corpo, desdobrado em cabeça, tronco e membros), sessões de cinema (NoirBLUE, da coreógrafa brasileira Ana Pi) e um seminário em torno da crítica de arte conduzido pelo crítico e colunista do PÚBLICO António Guerreiro.

Circular – Festival de Artes Performativas. Vila do Conde, de 19 a 28 de Setembro

Migrantes, línguas minoritárias e ilhas paradisíacas

Na sua décima edição, o Festival Materiais Diversos está sedimentado enquanto referência do calendário das artes performativas portuguesas, no seu modelo muito especial de encontro com as comunidades de Minde, Cartaxo e Alcanena. Entre 27 de Setembro e 5 de Outubro, serão 150 os artistas que protagonizarão 17 espectáculos, uma exposição, três acções de participação, 20 debates com o público e quatro concertos. A abertura caberá à artista libanesa Tania El Khoury e à sua performance As Far as My Fingertips Take Me, que terá várias sessões entre 27 e 29 de Setembro no Museu de Aguarela Roque Gameiro, em Minde. Com uma obra fortemente política, El Khoury partiu, neste caso, das impressões digitais que compõem uma base de dados que rastreia os refugiados e migrantes na Europa, propondo um encontro entre público e performer através de uma parede, sem que os seus olhares se cruzem.

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As Far as My Fingertips Take Me é uma performance da artista libanesa Tania El Khoury DR

Também em Minde, a 28 e 29, Lígia Soares apresentará Jogo de Lençóis, performance construída a partir dos depoimentos das pessoas que ao longo das várias edições do Materiais Diversos acolheram em sua casa artistas e equipas técnicas que participavam no festival. De regresso ao festival, o Teatro do Vestido leva até Alcanena, a 28 e 29, a sua Viagem a Portugal, um “espectáculo-percurso” que, na veia daquele que é o foco das criações dirigidas por Joana Craveiro, radica nas memórias dos lugares e daqueles que os habitam. Ainda em Alcanena, a 27 e 28, Paula Diogo e Alex Cassal enchem as bocas com “línguas minoritárias portuguesas” a caminho da extinção – e que, ao desaparecerem, levarão consigo histórias e identidades – no espectáculo A Menor Língua do Mundo. A programação de dança integra peças de David Marques (Ministério da Cultura), Filipa Francisco (Partilhas/Exchanges) e Ana Rita Teodoro (FoFo) que, no derradeiro dia do festival, mostrará ao Cartaxo a sua reflexão coreográfica sobre “a estética do fofo”.

O encerramento do Materiais Diversos far-se-á ainda com o “Leão de Ouro” da Bienal de Dança de Veneza Alessandro Sciarroni, que transplanta para o Cartaxo uma peça em torno da ideia de “girar”, intitulada CHROMA_don’t be frightened of turning the page. As visitas internacionais completam-se com Pleasant Island, criação de Silke Huysmans e Hannes Dereere, em cena a 4 de Outubro, no Cartaxo, em torno da ilha de Nauru, que foi um dos países mais ricos do mundo e é hoje um dos países mais pobres do mundo.

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CHROMA_don’t be frigthened of turning the page trará o agora Leão de Ouro Alessandro Sciarroni de volta a Portugal DR

Materiais Diversos. Minde, Cartaxo e Alcanena, de 27 de Setembro a 5 de Outubro

Pela estrada fora... algarvia

Com direcção artística de Ana Borralho e João Galante, a nona edição do festival Verão Azul voltará a levar à região algarvia uma programação transdisciplinar que, desta vez, terá por mote “Pela Estrada Fora”, em alusão ao romance do beatnik Jack Kerouac. As 21 propostas de teatro, dança, música, performance, artes visuais, cinema e peças infantis circularão por Loulé, Faro, Quarteira e Lagos, de 17 de Outubro a 2 de Novembro. O desafio que a curadora desta edição, Catarina Saraiva, lançou a criadores nacionais e internacionais – com o intuito de produzir eco no público – é que pensem o conceito do Antropoceno, reflectindo acerca do impacto das acções humanas no seu habitat.

O Verão Azul arranca com os belgas Silke Huysmans e Hannes Dereere – os mesmos que, pouco antes, passam pelo Materiais Diversos –, na estreia nacional de Mining Stories, a 17 de Outubro, no Cine-Teatro Louletano. Mining Stories é uma peça de teatro documental centrada no desastre ambiental ocorrido em Novembro de 2015, no estado brasileiro de Minas Gerais, quando uma barragem cedeu e espalhou desperdícios tóxicos provenientes da actividade mineira por várias povoações da região.

A proximidade com o Materiais Diversos garante também a presença do italiano Alessandro Sciarroni, em apresentação do mesmo CHROMA_don’t be frightened of turning the page, peça inspirada pelos fluxos migratórios dos animais, no Teatro das Figuras, em Faro, a 26 de Outubro. O festival recebe ainda duas estreias mundiais: a performance (partilhada com um só espectador em cada sessão) In Between, da artista polaca Paulina Sz, a 17 de Outubro, em Loulé, e a co-criação de Sílvia Real e Francisco Camacho para o público adolescente e crianças intitulada A Laura Quer!, a 27 de Outubro, em Loulé.

Depois da sua estreia no Teatro Nacional D. Maria II, também Raquel André rumará a Loulé para mostrar a sua Colecção de Artistas a 19 de Outubro, enquanto no dia 24, em Faro, terá lugar o concerto-performance Storm Atlas, da companhia italiana Dewey Dell, peça em que a música e a coreografia se confundem o mais possível. A música marcará presença também pela mão do provocador do flamenco Niño de Elche (18 de Outubro, Faro) e por Tó Trips e Tiago Gomes, responsáveis pelo espectáculo On the Road, baseado no livro de Kerouac, que porá fim ao Verão Azul a 2 de Novembro, no Centro Cultural de Lagos.

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Storm Atlas é um concerto-performance da companhia italiana Dewey Dell DR

Festival Verão Azul. Loulé, Faro, Quarteira e Lagos, de 17 de Outubro a 2 de Novembro