Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
Conto

A mulher sapiens

A mulher sábia dorme mal e, como se costuma dizer, à pressa. Nunca descansa mais de cinco horas seguidas. Tem sempre o que fazer. Há um guindaste imaginário que a iça todos os dias da cama — chama-se necessidade.

A mulher sábia sabe o mesmo do que o homem sábio — bastante pouco.

São 7h18. Mantém os olhos fechados enquanto apalpa o tampo da mesa-de-cabeceira, à cata do telemóvel. Logo o encontra. Com o dedo indicador direito deslizando sobre ecrã, desliga o alarme exasperante. Abre os olhos ainda deitada. Olha, sem ver, para o tecto; a boca sabe-lhe a ferro. Talvez precise de vitaminas e de cortar no vinho ao jantar. Dói-lhe a cabeça. A mulher sábia dorme mal e, como se costuma dizer, à pressa. Nunca descansa mais de cinco horas seguidas. Tem sempre o que fazer. Há um guindaste imaginário que a iça todos os dias da cama — chama-se necessidade.

Abre as portadas da janela. A luz detestável apropria-se do quarto. Despe o pijama e troca de cuecas. A vagina da mulher sábia produz secreções durante a noite, habitualmente inodoras, mas nem sempre. Não passa pelo banho, fê-lo de véspera para não ter de acordar mais cedo. Veste-se — calças e blusa. Como Lianor de Camões, descalça vai para o quarto das filhas, “vai fermosa e não segura”. Custa-lhe lidar com o mau humor matinal das crianças, provocado pelo forçado despertar, e ser a má da fita. As manhãs geram-lhe ansiedade, prevê as dificuldades do dia. Até chegar a noite, e voltar para a cama, passará por uma eternidade de tarefas por cumprir.

Entra no quarto das meninas e observa-as deitadas em pisos diferentes do beliche. As crianças são ainda mais bonitas quando empenhadas no sono. Só tranquilizam quando adormecidas — que anjinhos falsos, mas encantadores. Prepara-se para enfrentar o bulício. Inspira, expira. Sente um ligeiro tremor no peito e na cabeça, a ascensão da angústia. Acorda as meninas com beijos na nuca e elogios filiais. Tem de pendurar-se no andar de baixo do beliche para chegar à cabeça da mais crescida. As meninas resmungam aos mimos vespertinos da mãe, não se querem levantar. Vai preparar-lhes o pequeno-almoço e pensa no que fará mais logo ao jantar; na roupa suja empilhada no cesto; na loiça gordurosa do jantar, caótica no lava-loiças; na falta que lhe faz um companheiro ou companheira.

Dói-lhe a cabeça. Ama as filhas, detesta o emprego que conseguiu arranjar. A mulher sábia só sabe que tem de aguentar.