Iglesias estende a mão, Sánchez desconfia e as eleições ganham força em Espanha

Líder do Unidas Podemos propôs derradeiro encontro, cara a cara, com o presidente do Governo em funções. Socialista remete o diálogo para as equipas de negociação e continua a rejeitar executivo de coligação.

Pablo Iglesias, líder do Unidas Podemos, esta quarta-feira no Congresso dos Deputados de Espanha
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Pablo Iglesias, líder do Unidas Podemos, esta quarta-feira no Congresso dos Deputados de Espanha EPA/EMILIO NARANJO

Cinco meses depois das legislativas que deram uma vitória, sem maioria, ao Partido Socialista espanhol (PSOE), e a duas semanas de se esgotar o prazo constitucional para o Parlamento aprovar um novo Governo – fruto de uma tentativa falhada de investidura de Pedro Sánchez, em Maio –, Espanha caminha a passos largos para novas eleições, em Novembro. 

Numa altura em que a imprensa espanhola dá o diálogo entre Unidas Podemos e os socialistas como morto, o debate desta quarta-feira no Congresso dos Deputados veio dar ainda mais força ao cenário eleitoral, com os dois principais responsáveis à esquerda a revelarem-se incapazes de desbloquear o impasse.

Convocada para o executivo em funções dar conta dos últimos desenvolvimentos no Conselho Europeu, com o “Brexit” como pano de fundo, a sessão plenária serviu para Pablo Iglesias e Pedro Sánchez distribuírem culpas pelo fracasso das negociações e para o primeiro desafiar o segundo para um derradeiro encontro, cara a cara. Apelo esse que o presidente do Governo encara como desnecessário, face à insistência do secretário-geral do Podemos numa solução de coligação.

“Se têm algo novo para apresentar, para além do Governo de coligação, que convoquem a mesa de negociação”, afirmou Sánchez, remetendo quaisquer novos contactos para o canal oficial de comunicação entre as duas equipas de negociadores, e acrescentando: “Não há apenas uma fórmula de entendimento, a coligação não é a única solução”.

Ora, para Iglesias não faz sentido apoiar um Governo socialista, tendo simplesmente como base um acordo programático e sem que isso reflicta a representação parlamentar do Unidas Podemos. Muito menos depois de o PSOE ter aceitado, em Julho, a poucos dias da votação de investidura, a tal proposta de coligação – retirou-a pouco depois.

“Agora acredito que quando [Sánchez] me propôs uma coligação não estava a falar a sério. Se estivesse, tinha mantido [a proposta]. Uma coligação não se negoceia em três dias”, atirou o líder do Unidas Podemos.

Tanto um, como outro, garantem não querer eleições no dia 10 de Novembro – seriam as quartas legislativas em quatro anos, se não for investido um Governo até ao dia 23 de Setembro, e as sondagens apontam para um resultado semelhante ao acto de Abril

Sánchez assegurou que “depois de quatro eleições num mês ganhas pelo PSOE” – legislativas, municipais, autonómicas e europeias, entre Abril e Maio –, os socialistas são “os últimos interessados” em voltar às urnas, mas Iglesias acusou o presidente do Governo do contrário, alertando que lhe pode vir a acontecer o mesmo que a Matteo Salvini, ex-ministro do Interior e líder do partido de extrema-direita italiano Liga, que quis provocar eleições para ser primeiro-ministro e acabou fora do novo Governo de Itália.

A mensagem do líder do Podemos é, por isso, muito simples: “Sentemo-nos a negociar, nós os dois. Volto a estender-lhe a mão, para evitarmos eleições. Fizeram-nos uma proposta em Julho, nós fizemos uma contraproposta em Agosto e proponho que nos sentemos a negociar de novo, com base nessas duas propostas”.

Pedro Sánchez, porém, não morde o isco. E entre acusações e trocas de galhardetes à esquerda, no Congresso e, posteriormente, nas redes sociais, voltou a suplicar à direita que “abandone o bloqueio” à sua investidura. 

“Espanha necessita de grandes transformações baseadas em consensos”, lançou na direcção de Pablo Casado, líder do Partido Popular e de Albert Rivera, dirigente do Cidadãos. “E para o conseguir, é imprescindível que se inicie a legislatura e que se construa um Governo socialista”.

Certo é que o tempo não pára e por isso mesmo o rei Felipe VI convocou a presidente do Congresso, Meritxell Batet, para uma audiência, na quinta-feira, para se inteirar do estado das negociações de investidura e, se assim o entender, iniciar nova ronda de consultas com os líderes dos partidos com representação parlamentar.