Jovens licenciados juntam-se a professores nas aulas para combater o insucesso escolar

Associação Teach for Portugal quer chegar a 1700 alunos de 11 escolas. Não são professores, mas profissionais de várias áreas que querem ser pares dos docentes e contribuir para mudar mentalidades.

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Profissionais de várias áreas vão estar nas salas de aula com professores Enric Vives-Rubio

Carla Lemos, de 22 anos, terminou a licenciatura em Ciências Biomédicas, mas não se imagina a trabalhar num laboratório. Por isso, candidatou-se à Teach for Portugal (TFP) e vai trabalhar na Escola Básica e Secundária do Cerco, Porto. Não é que vá dar aulas, não tem formação para tal, mas vai estar em sala de aulas com um docente. O objectivo: fazer diferença na vida dos alunos de uma escola que recebe, sobretudo, crianças desfavorecidas e com insucesso escolar. É esse o propósito da organização não-governamental. Ao todo, serão 17 “recursos” em 11 escolas, em sete cidades do Norte e que podem alcançar 1700 crianças, enumera Pedro Almeida, co-fundador da associação em Portugal.

“O objectivo é estar em comunidades carenciadas e sair quando já não precisarem de nós. A intenção é extinguirmo-nos a nós próprios”, reforça Pedro Almeida que com Maria Azevedo fundou a TFP, uma associação inspirada na Teach for All, criada nos EUA há 29 anos, e da qual fazem parte 50 organizações, de Marrocos à Índia, geridas localmente.

Para pôr este objectivo em prática foi necessário começar pelo recrutamento de jovens recém-licenciados “com forte compromisso social”. O projecto foi divulgado nas universidades e nas redes sociais. Foi na Universidade de Aveiro que Carla Lemos tomou conhecimento do mesmo e candidatou-se. Primeiro pela Internet. “O inquérito online leva cerca de quatro horas a preencher”, revela Pedro Almeida. Foi preciso fazer um vídeo sobre o porquê de querer fazer parte deste projecto. Depois, a jovem passou à entrevista presencial. “Um dia bastante completo, onde os candidatos trabalham em grupo e dão uma aula”, continua o CEO. É preciso ter experiência de voluntariado, “uma experiência passada, de dar a sua vida aos outros”, especifica o engenheiro electrotécnico de formação, que foi voluntário em Angola, tal como Maria Azevedo, formada em Bioquímica, que deu aulas um ano na Índia. No caso de Carla Lemos, a jovem fez voluntariado num programa da sua universidade, em que teve contacto com crianças com necessidades educativas especiais.

Além do voluntariado, os candidatos também precisam de ter um perfil de liderança. No seu projecto da universidade, Carla Lemos foi “project manager” e trabalhou com crianças com necessidades educativas especiais. Agora na TFP sabe que vai estar com alunos do 5.º ano do Cerco que estão no ensino articulado de música, mas também com os que têm mais dificuldades, conta ao PÚBLICO.

Ao todo foram seleccionadas 17 pessoas, dos 22 aos 32 anos, de engenheiros a advogados. “Fomos a diferentes faculdades à procura desta diversidade”, justifica Pedro Almeida. Depois de escolhidos, participaram num programa de formação para a liderança, “para garantir que atingem o seu potencial”, continua o dirigente. “É esta ‘tropa de elite’, supermotivada, que vai estar dois anos nas escolas, em contacto com comunidades carenciadas”, declara.

“Estes jovens vêm respirar o que é o sistema educativo, aperceber-se da complexidade de acções, da relação professor/aluno, ver a realidade escolar por dentro”, afirma Artur Vieira, director do Agrupamento de Escolas de Canelas, que vai receber três participantes do TFP. A acção, que durará dois anos, vai chegar a 11 escolas, em sete cidades – Braga, Famalicão, Gaia, Gondomar, Guimarães, Lousada e Porto.

Chegar aos pais

Estes jovens não são professores, mas estarão em salas de aula e farão par com o professor que será também um director de turma. Fazem o mesmo horário que esse docente. Inicialmente são observadores das aulas, mas podem acompanhar um grupo mais pequeno dentro da turma. Paralelamente, a formação na TFP continua, ao longo dos dois anos – “há uma monitorização constante do impacto nas turmas”, afiança Pedro Almeida. “O primeiro ano é focado no ganhar a confiança e credibilidade”, diz.

No caso de Canelas, este ano, os participantes da TFP estarão mais como observadores, “vão vivenciar um pouco de tudo o que existe na escola”, refere Artur Vieira. No próximo ano lectivo terão uma “intervenção mais activa e [vão] trabalhar em projectos”, prevê o director.

Pedro Almeida quer que os elementos da TFP cheguem aos pais, mas não só. “O outro lado do nosso trabalho é com as famílias, instituições locais, com a comunidade. Queremos garantir que os pais estão alinhados com a escola. O objectivo é que a comunidade esteja evolvida em projectos de apoio ao estudo”, continua Pedro Almeida, dando o exemplo do que se faz noutros países onde a filosofia da Teach for All é seguida: aulas pós-laborais para os pais, para os ensinar a estudar com os filhos. O ideal, aponta, é que estes “agentes catalisadores” possam trabalhar com as mesmas turmas nos dois anos em que estão nas escolas. “O impacto pode ser mais profundo”, prevê.

Ao fim dos dois anos, este grupo de 17 está pronto para fazer uma “carreira com impacto social”, é o que acontece a 70% dos cerca de 60 mil que já passaram por programas semelhantes nas dezenas de países que já adoptaram este projecto. “Queremos que sejam os próximos decisores. Depois de dois anos, estas pessoas viveram os problemas de perto e sabem o que é preciso mudar. Queremos que inundem o sistema porque as comunidades mais carenciadas não são envolvidas nos processos de decisão e estas pessoas vão querer envolvê-las”, justifica Pedro Almeida que prevê que, daqui a uma década, os resultados obtidos pela TFP “possam influenciar a política pública”. “Acontece em muitos países da rede”, conclui.