Um jornalista de viagens é aquele que mostra o que vê por cima do ombro

Nathan Thornburgh é fundador da Roads & Kingdoms, publicação de viagens que recebeu o apoio de Anthony Bourdain. Esteve em Portugal para falar de jornalismo de viagens e para fazer o trilho dos pescadores na Costa Vicentina. “Ir aos sítios não chega, é preciso estar, passar tempo, perder tempo, perceber”.

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Nelson Garrido
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A história já foi contada muitas vezes, mas aqui vai mais uma, em versão resumida. Tudo começou com uma maluqueira de dois jornalistas que não se conheciam de lado nenhum mas que se encontraram num restaurante no México e começaram a conversar.

Em apenas 24 horas decidiram mudar de vida e fundar um projecto em comum.  Nathan Thornburgh era editor da revista Time, especializado em política internacional. Matt Goulding era jornalista da Men’s Health, publicação para a qual tinha escrito a série Eat This, not That, que depois foi convertida em livros, e que andava na estrada à procura de comida que valesse a pena conhecer.

Muita cerveja e carne fumada depois, a conversa deu num projecto. Não sabiam que nome dar à coisa, mas sabiam o que queriam fazer: conhecer a sério territórios, desde a sua conjuntura politica à sua gastronomia, de forma a que Matt, “o Roads”, pudesse procurar receitas e pratos que contassem histórias, e Nathan, “o Kingdoms”, pudesse aventurar-se em perceber mais detalhes da conjuntura política. Surgiu o Roads & Kingdoms, primeiro um blogue, na plataforma Tumblr, com reportagens sobre a antiga Birmânia, a Sicília (“mafia e pizza”, dois assuntos excitantes), Peru, Copenhaga, África do Sul.

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O material que Nathan usa para fazer o podcast

“Copenhaga era talvez a cidade que tinha menos história política por trás. Mas na verdade eu também gosto de comida, e o Matt também se interessa por assuntos políticos. Os dados estavam lançados”, explica Nathan. Depois desta série o Roads & Kingdoms passou a site, ganhou prémios e é uma marca reconhecida, sobretudo depois de ter chamado a atenção de Anthony Bourdain, que os convenceu a escrever livros e os levou para o mundo da televisão. Depois da morte do popular chef, a filha de 12 anos continua a ser a principal accionista da Roads & Kigdoms. “Não vai às reuniões editoriais, mas é bom sabermos que mantemos a ligação a um legado e à família de alguém que tanto nos ensinou”, admite à Fugas Nathan Thornburgh.

Foi para falar de jornalismo de viagem e do sucesso de Roads & Kingdoms, que já publicou mais de três mil artigos de centenas de autores das mais diversas geografias do mundo, que Nathan Thornburgh esteve há duas semanas em Matosinhos, para participar no Primeiro Festival de Cinema e Viagens de Aventura, organizado pela Nomad e pela câmara municipal local. Foi um momento “feliz”, que lhe permitiu explicar à plateia que não basta gostar de viajar para se querer ser jornalista de viagens. “É preciso, sobretudo, ser jornalista, querer conhecer histórias, interessar-se pelas pessoas, ter tempo para as conhecer e as compreender”, avisa. E isso, admite, não vem em manual nenhum.

Com 43 anos, muitas entrevistas a políticos e líderes mundiais, e centenas de viagens no currículo, o dia-a-dia de Nathan é maioritariamente estar atrás de um computador, na redacção em Nova Iorque, a dizer “não, obrigado” às centenas de propostas que lhe surgem para publicação, a fazer o trabalho de primeira edição daqueles que decide publicar, e a preparar e produzir o podcast The Trip, o último produto editorial lançado.

O convite da Nomad para viajar até Portugal foi prontamente aceite não só pela possibilidade de vir ao Norte do país pela primeira vez, mas também pela oportunidade de viajar de novo, lado a lado, com Matt Goulding– não precisaríamos de lembrar que foi assim que tudo começou, mas não custa nada sublinhá-lo de novo. É que o sócio vive agora em Barcelona, e é lá que desenvolve o seu trabalho de escrita para a Roads &Kingdoms. Estavam ambos felizes, “putos excitados mesmo”, diz Nathan, por estarem a planear uma viagem. Depois do Festival de Cinema, meteram-se no carro até à Costa Vicentina para fazer uma parte do trilho dos pescadores. Foram só três dias – mas as stories que publicaram no Instagram mostram bem que gostaram. E muito.

PÚBLICO - Conjunto de facas japonesas
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PÚBLICO - Cafeteira que o jornalista trouxe de Cuba
Cafeteira que o jornalista trouxe de Cuba
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Nathan Thornburgh não é formado em jornalismo – estudou línguas e literaturas alemã e russa em Stanford, na Califórnia. Aprendeu a ser jornalista na Time, quando a poderosa publicação americana lhe aceitou a história do Northern Wind, um navio russo que ele avistou a partir da sua janela em Seattle, cidade onde vivia (ou sobrevivia) como tocador de saxofone pelos bares de blues e R&B. Foi logo nessa primeira história, onde confessa que ter bebido uns copos de vodka com a tripulação do navio arrestado o ajudou a conhecer melhor o enredo, que se começou a perceber qual será a filosofia e a ética de trabalho de Nathan. Ele sintetizou-a na masterclass que em Matosinhos deu a uma vintena de interessados (onde estavam poucos jornalistas): “Os factos são sagrados, mas a objectividade não existe. No retrato final devemos ver o jornalista a olhar por cima do seu ombro. Não é ele a história, mas é importante perceber de que lado está a olhar. Ir aos sítios não chega, é preciso estar, passar tempo, perder tempo, perceber”.

Depois de ter feito o percurso todo na Time – demorou quatro anos a poder ser aceite como “redactor”, fez de tudo um pouco, inclusive “aqueles questionários chatos do ‘dez perguntas a…’”, e, recorda, foi aí que esteve com Bourdain. Sem que houvesse qualquer história nesse encontro. Só a surpresa, de Nathan, com o facto de o famoso Tony “não ser um gajo com mania de estrela e pouco tempo para gastar”. Thornburgh chegou ao topo da carreira na revista em 2010, quando a sua função passou a ser andar pelo mundo a fechar delegações e arranjar correspondentes para trabalhar em regime free lance. E acabou preso durante umas horas em Cuba, onde ameaçaram com represálias elementos da banda com quem tocou naquele país. As histórias de Nathan são como umas cerejas. Uma puxa outra. Em 2012 conheceu Matt, em 2013 ganharam um prémio, em 2014 teve um cancro. “Gosto muito de viver, com tudo o que isso implica”, resume.

Na gíria jornalística, poderia dizer-se que Nathan Thornburgh é adepto do embedded journalism, que passou a ser popular a partir da Guerra do Golfo, quando os jornalistas incorporavam os pelotões para reportarem as manobras militares a partir do seu interior. Das muitas centenas de textos que Nathan escreveu na vida, o que o mais marcou poderia ser chamado disso: não se limitou a falar dos muitos viajantes que de todo o mundo se dirigiam ao Peru para experimentar a ayhuasca, uma bebida produzida a partir de uma raiz de uma planta amazónica compropriedades alucinogénias e terapêuticas. Nathan quis escrever sobre isso – o que implicava experimentar “a viagem” que essa planta proporciona. Demorou dois anos a escrever o texto – porque entretanto descobriu que tinha cancro, e precisou de fazer três cirurgias. O resultado está no texto “A raiz de todas as coisas” e spoilers não são permitidos porque é obrigatório lê-lo.

Foi o primeiro a receber o carimbo “Dispatched by Bourdain”, o símbolo da curadoria do malogrado cozinheiro. “Continuo a não saber por que é que ele se matou. Jantámos uma semana antes e ele falou-me dos horários insanos e de que queria afastar-se cada vez mais do ecrã para trabalhar cada vez mais na produção. O Tony [Anthony Bourdain] dizia que se queria ver livre dessa vida e estava quase a consegui-lo. Mas nós na Roads & Kingdoms vamos continuar na televisão, porque é onde podemos usar algumas das suas lições.”