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Nas Olimpíadas do Carbono, nenhum partido chega à meta

Em vésperas de eleições legislativas, um grupo de cidadãos analisou os programas eleitorais dos seis partidos parlamentares e concluiu que todos ficam pelo caminho na corrida para a neutralidade carbónica em 2050.

Maratona, salto em altura e tiro ao alvo. Foram estas as provas a que foram submetidos os seis principais partidos políticos que vão a votos nas eleições legislativas de 6 de Outubro. “Concluímos que o grau de compromisso dos partidos é muito baixo e que não estão à altura do que está a ser pedido”, explica ao P3 Luís Costa, engenheiro biomédico de 29 anos e um dos coordenadores da análise Olimpíadas do Carbono - Os partidos postos à prova na redução de CO2, cujos resultados estão disponíveis a partir desta segunda-feira, 30 de Setembro, no site co2dospartidos.pt.

O objectivo era perceber como se posicionam os partidos políticos em Portugal face à redução das emissões de dióxido de carbono, tendo como documento de referência as metas identificadas no Roteiro de Neutralidade Carbónica 2050 (RNC), apresentado no final do ano passado e promovido pelo Ministério do Ambiente e da Transição Energética. O Roteiro veio concretizar as medidas para atingir a meta anunciada por António Costa de chegar a 2050 em neutralidade carbónica.

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Na Maratona, contabilizaram em quantas metas do RNC é que os partidos tocam no seu programa eleitoral

Apesar da proximidade entre o Partido Socialista (PS) e o RNC, Luís Costa considera que a análise que agora publicam não está comprometida. “O RNC é o documento que mais condições reúne para a análise”, realça. “O IPCC [Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU], por exemplo, não apresenta um conjunto de medidas concretas. Em nenhum momento diz quais as medidas que os governos têm de implementar”, explica o engenheiro biomédico. “O RNC é um documento recente, adaptado à realidade portuguesa e de base científica e não partidária”, justifica.

É também com estas palavras que Luís Costa apresenta este trabalho: uma iniciativa de um grupo de cidadãos, sem ligações a partidos políticos, que procurou sistematizar informação e torná-la mais “clara e sistemática”, num tempo em que, acredita, “a maior parte das pessoas não lê os programas eleitorais”. O estudo foi coordenado por Luís Costa e Susana Lavado, doutorada em Psicologia Social e investigadora de pós-doutoramento em Data Science, que integraram uma equipa de sete codificadores que analisaram os dados. A visualização da informação ficou a cargo de uma pequena equipa de infografistas, designers e programadores. Todos a trabalhar regime de pro bono.

Durante um mês estudaram os programas políticos, comparando-os entre si. “Como tínhamos indicadores bastante diferentes, pensámos no conceito de provas olímpicas, onde um atleta pode ser muito bom numa prova e menos bom noutra”, explica Luís Costa, que integra também o colectivo É Pra Amanhã, ​que está a realizar uma série documental sobre projectos em Portugal em áreas-chave da sustentabilidade.

O ponto de partida da análise foi a identificação das 96 metas indicadas pelos autores do RNC, divididas em oito áreas de actuação: Energia, Mobilidade, Serviços, Agricultura, Florestas, Residencial, Indústria e Resíduos. Na analogia com uma competição olímpica, arrumaram a informação em três competições — Maratona, Salto em Altura e Tiro ao Alvo — e ainda em provas específicas — há um Sprint e uma Corrida de Obstáculos — em cada uma das áreas.

O site, que aposta na infografia, abre com uma Maratona Anti-Carbono. “A maratona representa também a emergência: ganha quem fizer o tempo mais curto”, explica Luís Costa ao P3. Na Maratona, quiseram perceber quantas das metas previstas no RNC aparecem nos programas eleitorais. Se um partido apresentasse pelo menos uma medida que correspondesse a uma determinada meta, ganhava um ponto. O PS aparece em primeiro lugar, com 40 metas, o que não é de estranhar, tendo em conta que o RNC é uma iniciativa do actual governo. Mas o PS é seguido de perto pelo Partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza (PAN) com 39 metas. “A CDU fecha o pelotão, com apenas 13 metas abrangidas”, escrevem os autores. A conclusão, no entanto, é a de que todos os partidos precisam de continuar a treinar: “Nenhum dos partidos consegue completar metade da prova, sendo que apenas o PS e o PAN conseguem cobrir um terço das medidas do RNC”, lê-se nas conclusões do estudo.

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No Tiro ao Alvo analisaram quantas medidas tinham objectivos quantificados e um horizonte temporal definido

Na prova Salto em Altura olharam para as medidas que iam ao encontro das metas anunciadas. Cada proposta que se aproximasse da neutralidade carbónica conferia ao partido um ponto, sendo que medidas que tocassem em mais do que uma meta foram contadas mais do que uma vez. Aqui o vencedor foi o PAN, com um total de 142 medidas: 50 medidas a mais que o segundo classificado, o PS, e cinco vezes mais medidas que o último classificado, a CDU. 

Já na competição Tiro ao Alvo, os autores quiseram tomar o pulso à precisão das promessas eleitorais, contabilizando as medidas que apresentaram um horizonte temporal concreto e um objectivo quantificado, como o “encerramento de centrais a carvão até 2023” ou “aumento da produção de energia solar em 20%”. O lugar de destaque cabe aqui ao Bloco de Esquerda (BE): estabelece um objectivo concreto para metade das suas medidas. “Este resultado está em claro contraste com os restantes partidos, que falharam a sua pontaria para mais de 90% das medidas. Uma nota negativa também para o CDS, que não concretiza nenhuma das 36 medidas que apresenta”, concluem os autores.

Ao pódio das Olimpíadas do Carbono sobem assim PS, PAN e BE. O PS é o partido que consegue cobrir mais metas do RNC no seu programa eleitoral, o PAN é o que propõe mais medidas para redução das emissões de CO2 e o BE é o que mais concretiza as acções que propõe para atingir a neutralidade carbónica. “O nosso sonho é que isto possa servir daqui a quatro anos como referencial de accountability (prestação e contas) de quem estiver no governo”, conclui Luís Costa.