A Tate Modern ganhou uma fonte desconcertante que fala de impérios e de escravatura

Kara Walker tem uma nova obra no grande Hall das Turbinas do museu londrino. Feita com cortiça portuguesa, Fons Americanus permite à artista norte-americana retomar os seus temas de sempre: a violência nas relações de poder, o tráfico de seres humanos, o racismo.

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A nova obra de Kara Walker é monumental LUSA/ANDY RAIN
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Todas as figuras desta Fons Americanus começaram por ser modeladas em gesso, numa escala muito menor, pela artista LUSA/ANDY RAIN
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No lago desta fonte, em vez de golfinhos ou sereias a envolver deuses, há tubarões a atormentar homens em botes de madeira LUSA/ANDY RAIN
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Uma das obras da série Debret, de Vasco Araújo, expostas no Museu de Lisboa em 2010 Rui Gaudêncio

À primeira vista, a associação aos grandes monumentos que celebram alegadas glórias do passado ou episódios mitológicos em praças e jardins públicos é imediata, quase como se houvesse uma intenção puramente mimética. É preciso olhar de novo para que Fons Americanus, a obra que Kara Walker criou para o Hall das Turbinas da Tate Modern, em Londres, se revele tão incisiva e inquietante como tantos outros trabalhos desta artista norte-americana.

A partir desta quarta-feira, e até 5 de Abril, esta fonte com 13 metros de altura (a intervenção de Kara Walker é um dos raros site-specific encomendados pela Tate Modern nos últimos anos que efectivamente tira partido do enorme pé-direito deste espaço nobre de um dos museus de arte contemporânea mais importantes da Europa) vai, espera a artista, pôr os visitantes a pensarem e a falarem nas vítimas da ordem colonial, no lado negro dos impérios e no tráfico de seres humanos, cujas consequências ainda hoje se fazem sentir. Nesta instalação, há tubarões em vez de golfinhos, sereias ou tritões; um rapaz com óculos de mergulho e snorkel que nada apesar das ameaças óbvias; um homem negro num pequeno bote; uma corda suspensa do ramo de uma árvore a sugerir uma forca.

Cheia de referências visuais britânicas e norte-americanas – dos cartoons de James Gilray e Rowlandson à pintura de J.W.M. Turner (Slave Ship), John Singleton Copley (Watson and the Shark) e Winslow Homer (The Gulf Stream), como lembra o crítico de arte Adrian Searle no diário britânico The Guardian –​, a esta Fons Americanus, “cenotáfio para a ambição imperial”, não falta sequer uma Vénus negra no topo que, apesar da garganta cortada, deita água pela boca e pelos mamilos.

“É monstruosa, divertida, absurda — e surpreendente”, escreve Searle, defendendo que o objectivo de Walker é, ao mesmo tempo, entreter e instruir, invertendo estereótipos: “Fons Americanus é sustentável, não-tóxica, isenta de solventes, uma prenda que parece de mármore, um monumento não aos beneficiários do império britânico, mas às suas vítimas, e às hipocrisias e à aceitação do mal que levaram à escravatura.”

“O Hall das Turbinas é como um grande prémio”, dissera a artista ao Guardian semanas antes da inauguração, entrevistada no seu estúdio de Brooklyn, Nova Iorque, classificando em seguida a oportunidade de trabalhar neste “gigantesco espaço” do museu como “irresistível”. Walker é a primeira artista negra a fazê-lo em quase 20 anos de encomendas da Tate Modern (o programa começou em 2000), entrando para uma lista que inclui Louise Bourgeois, Ai Weiwei, Anish Kapoor, Doris Salcedo, Miroslaw Balka ou Olafur Eliasson.

Águas subversivas

Outra das inspirações de Kara Walker para a criação desta Fons Americanus (Fonte da América) foi o monumento de homenagem à Rainha Vitória frente ao Palácio de Buckingham, na capital britânica – uma obra de 1911 repleta de estatuária alegórica representando a Justiça e a Verdade, a Paz e o Progresso. A artista viu-o pela primeira vez quando ia no táxi a caminho do aeroporto, pouco depois de ter recebido o encargo da Tate para o hall da velha central energética nas margens do Tamisa, conta o diário The New York Times.

Erguendo-se como um “contra-programa à celebração do império” que aquele monumento londrino promove, escreve o mesmo jornal, a nova instalação de Walker volta a explorar temas que lhe são familiares, como a violência da escravatura e a resistência dos escravizados, em particular no contexto das grandes plantações do Sul dos Estados Unidos durante a Guerra Civil americana. “Estou sempre a seguir os mesmos temas, mesmo quando não tenciono fazê-lo”, admitiu ao Guardian.

A água, explica Walker, tem algo de “subversivo” quando quem a usa é um artista negro, já que se torna óbvio que aquilo que se está a abordar é o tráfico transatlântico de escravos. E se é verdade que a água pode fazer essa ponte com o passado, também é verdade que ela pode ter uma leitura contemporânea: “Continuamos a lidar com as questões dos migrantes negros que tentam atravessar fronteiras.”

Ainda que o seu trabalho esteja muito ancorado na experiência americana, Walker rejeita a ideia de que as reflexões que propõe se limitem às fronteiras dos EUA. “Falo das dinâmicas do poder, de forma universal mas também no Novo Mundo, no mundo que foi criado pelo projecto imperial”, disse ao New York Times.

"Nem eu quero falar disto"

Criar Fons Americanus não foi um processo fácil e exigiu desenhos atrás de desenhos. A artista reconheceu ter-se sentido muito pressionada pelo tempo e pelo facto de estar a trabalhar para um espaço singular num museu de grande prestígio e visibilidade. A dada altura optou por fazer em gesso as figuras que viriam a aparecer na fonte. Estas esculturas foram depois replicadas por um robô a partir de grandes blocos de cortiça portuguesa — Walker queria um material sustentável —, recorrendo a um programa de modelação digital usado pela indústria para reduzir tempo e custos de fabrico. Depois de criada em cortiça, a fonte foi coberta por uma substância que misturava gesso e resina e em que era possível reproduzir as marcas de estilete que constavam dos modelos saídos das mãos da artista.

Kara Walker, 49 anos, nasceu na Califórnia, mudou-se para Atlanta aos 13 anos e fez a sua formação na Escola de Design de Rhode Island. O seu nome passou a ser conhecido nos anos 1990 graças às silhuetas em que colocava brancos e negros em situações que encenam de forma clara e por vezes perturbadora as relações de poder entre uns e outros e, através delas, o preconceito, o racismo. Embora o seu trabalho inclua também desenho e escultura — uma das suas obras de maior notoriedade é A Subtlety, or the Marvelous Sugar Baby, uma gigantesca esfinge de uma mulher negra que homenageia todos aqueles que estiveram envolvidos na produção do açúcar, desde os escravos das grandes plantações de cana aos operários que o processavam em fábricas como aquela de Brooklyn, desactivada, em que instalou a peça —, são estas silhuetas a sua imagem de marca.

A nova instalação do Hall das Turbinas é também uma forma de a própria galáxia Tate, composta por vários museus, reconhecer uma vez mais as suas ligações ao passado imperial britânico. Henry Tate, o homem que fundou a primeira Tate Gallery, foi um empresário ligado ao açúcar, lembra o Guardian, citando um comunicado recente da própria instituição: “Embora seja importante sublinhar que Henry Tate não foi dono de escravos nem negociante de escravos, é impossível (…) separar as galerias Tate da história da escravatura colonial à qual, em parte, devem a sua existência.”

“Ninguém quer falar disto, nem eu quero falar disto”, disse Walker ao editor de arte da televisão pública britânica, Will Gompertz, referindo-se às “grandes mitologias” que foram construídas a partir de “acontecimentos difíceis, desastrosos”, como o colonialismo. Fons Americanus quer, no entanto, pôr quem a vê a falar desse passado.

Em Portugal vários artistas têm vindo a trabalhar a partir do passado colonial do país. Entre eles está Vasco Araújo, cuja série Debret, inspirada no retrato que o pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) fez de um Brasil sob domínio português, vem à memória perante o trabalho — por vezes grotesco, violento, mas acutilante — de Kara Walker. Na obra de ambos há perversões morais e físicas herdadas dos impérios, há coisas do passado que ainda não passaram.