Depois dos carros, depois da comida, a Uber entrega trabalhadores temporários

Nova aplicação foi lançada em regime experimental em Chicago. Explora o mesmo modelo da Uber Eats e da Uber transportes para “ajudar quem procura emprego”.

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A nova aplicação dá informações sobre a função, o local de trabalho, o horário e o salário Uber Works

A Uber acaba de lançar uma aplicação destinada a pôr em contacto empresas que procuram trabalhadores e pessoas que querem trabalhar. Seguindo a mesma lógica da app que fornece transportes e da app Uber Eats, que gere a entrega de refeições em casa, a Uber Works pretende aproveitar recursos que estão ociosos e rentabilizá-los em benefício próprio de quem emprega e de quem vai trabalhar.

De acordo com um texto publicado no blogue da empresa (disponível aqui, mas inacessível a partir de Portugal devido a uma ordem judicial que impede o site da Uber de funcionar), o lançamento deste serviço acontece após um ano de experiências em segredo. A ideia é mostrar a trabalhadores interessados em posições temporárias que ofertas existem numa determinada área.

Segundo imagens divulgadas pela empresa, a aplicação fornecerá informações diversas sobre cada oferta: a função, o local de trabalho, o horário ou turno e o salário. Trata-se de ofertas para postos temporários ou em part-time, salienta a empresa, pelo que isto ainda não é a Uber a tentar morder os calcanhares às grandes empresas de recrutamento profissional.

Pressão sobre empresas de recrutamento

Para as empresas que fazem recrutamento de trabalhadores temporários, o eventual sucesso da Uber Works pode constituir uma séria ameaça – ou pelo menos uma importante razão para repensar a forma como trabalham. Isto porque a app da Uber Works é quase instantânea na forma como divulga oportunidades e, pelo que se vê nas informações agora reveladas, é bastante transparente em matérias essenciais para os trabalhadores, como os horários e o salário proposto.

A novidade da Uber Works não é uma total surpresa. Parecia aliás uma mera questão de tempo e oportunidade, porque o modelo de negócio assente na economia ociosa (e que a Uber, a par de empresas como a Airbnb ajudou a impulsionar em termos planetários) até já tinha chegado aos trabalhadores através de outras empresas mundiais.

Porém, a escala global que a Uber atingiu antes mesmo de entrar na bolsa em Maio de 2019 pode mudar radicalmente o cenário, se a experiência que está a ser feita em Chicago se revelar positiva e a empresa decidir alargar o serviço da Uber Works a outras cidades e países.

“O nosso plano é crescer rapidamente”, afirma Andrei Liscovich, que vai dirigir a Uber Works, em declarações citadas pelo site Chicago Business. O mesmo responsável recusou-se a revelar quantos trabalhadores vai ter esta nova unidade de negócio, ou quais as expectativas de facturação.

O que se sabe é que este passo surge numa altura em que o comportamento bolsista da Uber continua a decepcionar. Desde a admissão das acções em Wall Street, a bolsa de Nova Iorque, a cotação baixou 30%, tendo a empresa reportado perdas recorde de 5200 milhões de dólares (mais de 4700 milhões de euros) no segundo trimestre de 2019 (imediatamente antes da entrada no Nasdaq, o índice das tecnológicas, a 10 de Maio de 2019).

Perdas na tesouraria e na bolsa

Uma das razões para este fraco desempenho, dizem analistas citados na imprensa norte-americana, é a forte concorrência asiática. Outro factor de risco é legislativo: em diversos países tem havido braços-de-ferro judiciais contra a forma como a Uber opera.

O mais recente – e potencialmente mais gravoso – revés legal é uma decisão de 11 de Setembro de 2019, quando o estado da Califórnia aprovou legislação que obriga empresas como a Uber e a Lyft a reconhecer os condutores de pessoas e comida como funcionários. Essa lei passou com 29 votos a favor e 11 contra no senado californiano. O governador do estado, Gavin Newsom, deverá assiná-la em breve.

A Uber e outras congéneres têm-se recusado a reconhecer esses trabalhadores como sendo do quadro e o mesmo acontece com a nova app da Uber Works. Entre os diversos riscos reputacionais, as relações laborais são um dos mais problemáticos para a empresa, que alega neste caso que se limitou a construir a plataforma “para resolver desafios dos trabalhadores”, segundo diz Xavier Van Chau, porta-voz da Uber. E procura outras empresas de recrutamento como parceiras que tratem dos aspectos burocráticos, como contratos, papelada.

“Isto vai abrir a nossa plataforma Uber a pessoas que querem ganhar dinheiro, mas que não têm carros”, acrescenta o mesmo responsável.

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