ENRIC VIVES-RUBIO
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ENRIC VIVES-RUBIO

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A Psicologia também vai a votos

Continuam a faltar psicólogos nos agrupamentos, apesar de se afirmar que o rácio está mais perto do ideal. Mas não se pode ter atenção só a esses números. Falta lutar para que, além de mais psicólogos nas escolas, se considere a contratação de mais do que um por agrupamento.

Recentemente, a Ordem dos Psicólogos organizou (e bem) um debate entre os candidatos dos partidos com assento parlamentar para discussão das suas visões e propostas na área da psicologia. Falou-se muito das contratações, da necessidade dos psicólogos nas escolas e nos centros de saúde e do impacto da saúde mental nas populações, nas empresas e nas escolas ou centros de saúde.

Falou-se muito — e bem. Falta passar das palavras aos actos e que na próxima legislatura se concretizem algumas medidas e intenções.

Continuam a faltar psicólogos nos agrupamentos, apesar de se afirmar que o rácio está mais perto do ideal. Mas não se pode ter atenção só a esses números. Falta lutar para que, além de mais psicólogos nas escolas, se considere a contratação de mais do que um por agrupamento.

Ter mais psicólogos nas escolas e mais do que um em cada agrupamento não é uma exigência descabida. É simplesmente fazer cumprir aquilo que é uma das missões do Estado, no garante do bem-estar das populações e até da missão dos próprios profissionais de saúde mental, que mais que ninguém estão dotados das ferramentas e técnicas necessárias para isso.

Garantir que nas várias escolas existe um psicólogo (e até mais do que um) é garantir que os alunos possam ter um acompanhamento sério, estruturado e adequado. É garantir que há capacidade de discussão das intervenções mais adequadas e uma maior probabilidade de acompanhamento futuro e de continuidade.

Não podemos falar de estabilidade laboral e profissional dos psicólogos sem falarmos de formas de garantir que, quando os psicólogos são contratados possam implementar programas de promoção de competências. Isso sem que os programas fiquem a meio porque, no ano lectivo seguinte, os psicológicos podem ser colocados noutra escola. Também esta realidade foi discutida — e bem.

Não podemos falar de garantias de bem-estar e desenvolvimento se não dermos aos psicólogos formas de o fazer. Sobretudo, não podemos assegurar que existem os devidos acompanhamentos, se continuarmos numa lógica de medicação para tudo, sem intervir na origem dos problemas.

O acompanhamento psicológico aos alunos não é profícuo se for realizado por apenas um técnico, sobrecarregado com avaliações, implementação de programas ou dinamização de competências, muitas vezes em meio tempo. Os psicólogos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não conseguem dar resposta se não forem garantidas condições de acesso aos mais carenciados, sem o devido auxílio. Neste sentido, um forte aplauso à proposta do “cheque Psicólogo”, que poderia ser uma boa forma de dar capacidade a quem não tem condições financeiras para aceder a cuidados de saúde mental.

O acompanhamento psicológico aos alunos, utentes e a empresas não é fomentado o suficiente se não atendermos à dificuldade que existe em manter um equilíbrio entre remuneração pelo trabalho feito de forma independente (sendo esta, com muitas poucas dúvidas, a mais representativa forma de intervenção por parte dos psicólogos). Isto é, como poderá ser justo para utente e psicólogo garantir o acesso a intervenções e atendimentos se não existir um incentivo a tal? Com que justificação não podem as famílias deduzir no IRS as despesas que têm com a sua saúde mental?

Acrescento que a avaliação psicológica e o devido acompanhamento a quem nos procura pode ser comprometido, como foi bem alertado, se não existir uma maior facilidade de acesso aos psicólogos de instrumentos de avaliação e intervenção.

Importa que se altere, mais do que se pense, a forma como os psicólogos são contratados para os agrupamentos de escolas, onde existe uma forte ponderação na classificação final do tempo de serviço. Importa valorizar a experiência, a formação e, essencialmente, se o candidato se foi actualizando e refrescou conhecimentos e técnicas.

Valerá a pena cumprir rácios se não se consideram as condições em que os psicólogos exercem? Valerá a pena contratar e contratar se, a cada ano lectivo, quem ajuda e promove o desenvolvimento dos alunos pode estar noutro local, a recomeçar processos do zero e a deixar outros a meio?

Falar do papel dos psicólogos na sociedade é também considerar que somos uma profissão de contacto, de ajuda e de apoio aos que estão em situações de fragilidade. Importa que, numa próxima legislatura, se considere e aprove, que já é tempo, quem pode exercer o tão popular coaching. Digo isto não por desdém a esta intervenção, mas porque é preciso que seja bem aplicada. É preciso que quem a aplique saiba o que está a fazer, como lidar com situações de fragilidade, reconhecer o limite das suas competências e tenha uma forte e robusta base de conhecimento adequado para o fazer.

Lidar com pessoas não é, não pode, nem deve continuar a ser, uma ciência pobre e desvalorizada. Deve e tem de ser um compromisso rigoroso com técnicas validadas e estruturas em ciência, em experiência e não como um penso rápido ou uma medida mal alicerçada. Um aplauso a quem faz coaching de forma séria, com conhecimento fundamentado e não de forma arbitrária.

Um aplauso, sobretudo, a quem todos os dias luta por uma psicologia mais enraizada, bem defendida e bem implementada na sociedade. Um aplauso a quem luta para que a psicologia seja cada vez mais vista como a ciência que é e não como algo de que “todos temos um pouco”.