Após dois anos de tumulto, o Nobel da Literatura quer ser menos “eurocêntrico” e masculino

Violações, conflitos de interesses, casas de apostas e drama de bastidores — o que podia ser intriga literária foram dois anos de efeito #MeToo na Academia Sueca, que quinta-feira revelará não um, mas dois Nobel da Literatura. As favoritas são as mulheres e quem não escreva em inglês.

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Em 2017, a Academia reconhecia que “membros da Academia, as suas filhas, mulheres e empregadas” (como o caso de Sara Danius, na fotografia, então secretária), tinham sido assediadas por Jean-Claude Arnault getty images

Na quinta-feira serão entregues dois Nobel em simultâneo — o Nobel da Literatura de 2018 e o Nobel da Literatura de 2019, depois de no ano passado ter sido cancelada a atribuição do prémio devido ao escândalo que abalou a Academia Sueca. Atribuído desde 1901, o Nobel só não foi entregue em 1914, 1918, e entre 1940 e 43 — anos de guerra mundial. Uma remodelação interna quer mudar o rosto dos próximos Nobel e devolver-lhe prestígio depois das dificuldades da instituição em lidar com a violência de género e sexual, central nas chamadas guerras culturais do século XXI.

A Academia Sueca tem oito novos membros e purgou alguns dos rostos da polémica de 2017, sendo que as escolhas deste ano serão feitas por um Comité Nobel renovado que tem agora o apoio de cinco peritos externos que podem moldar o resultado final. “É uma mudança significativa”, reconhece Mats Malm, novo secretário permanente da Academia Sueca, a instituição que elege o Nobel da Literatura, que por seu turno é promovido e financiado pela Fundação Nobel. “Outra mudança é que o comité sugere dois candidatos à Academia, que decide a partir daí. Antes apresentava uma shortlist e dela a Academia escolhia o laureado”, completou, num email enviado ao diário espanhol El País, o professor de literatura de 55 anos que ocupa a cadeira 11 da Academia desde Outubro de 2018. “A controvérsia é um efeito natural do Nobel da Literatura. Queremos contribuir para a discussão internacional sobre literatura e sobre o que é suposto que ela seja”, resumia noutra entrevista, desta feita à agência Associated Press.

Malm é um dos novos rostos da reputada Academia Sueca, um d’Os Dezoito, a sua referência oficial cristalizada em maiúsculas pelo passar dos séculos. Em 2017, em pleno fulgor de denúncia do movimento #MeToo, a Academia sofreu um sismo interno quando Jean-Claude Arnault, fotógrafo, figura proeminente da cena cultural sueca e marido de Katarina Frostenson, poeta feminista eleita membro da Academia desde 1992, foi acusado de assédio sexual. O caso geraria facções entrincheiradas na Academia Sueca, acusações nos jornais e, por fim, o cancelamento do Nobel de 2018.

A crise foi fruto do catalisador MeToo: décadas de acusações surdas e avisos segredados entre mulheres tinham originado em 1997 uma capa de jornal que não citava nomes mas que já visava alguém que nos círculos culturais de Estocolmo todos pensavam ser Arnault; em 2006, como recordava o diário britânico The Guardian em 2018, houve mesmo um pedido privado da família real sueca para que a princesa Victoria nunca fosse deixada a sós com Jean-Claude Arnault. Em Novembro de 2017, 18 mulheres acusavam-no de assédio e violação nas páginas do jornal sueco Dagens Nyheter que se referia apenas ao acusado como uma “celebridade cultural”.

A Academia, em cujas casas luxuosas de cidades europeias teriam acontecido alguns dos actos de que Arnault era acusado, reconhecia directamente que “membros da Academia, as suas filhas, mulheres e empregadas” tinham sido assediadas por Jean-Claude Arnault — nomeadamente Sara Danius, então secretária da instituição e que se afastaria em 2018. O caso avolumar-se-ia com acusações de que Frostenson teria dito antecipadamente ao marido os nomes de sete vencedores do Nobel da Literatura; surgiam suspeitas sobre apostas avultadas em corretores de Paris em torno desses escritores. Os membros da Academia dividiram-se e vários demitiram-se dos seus cargos vitalícios, com a reputação da instituição tida como curadora da alta cultura a esboroar-se em praça pública.

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Jean-Claude Arnault na chegada ao tribunal. Cumpre pena de dois anos e meio de prisão por dois crimes de violação JANERIK HENRIKSSON/ lusa

Agora, a remodelação interna da Academia depois das suas resistências em lidar com o caso junta-se à vontade expressa de o próprio galardão dar pistas para o futuro: “[Até aqui] tínhamos uma perspectiva mais eurocêntrica da literatura e agora estamos a olhar para o mundo inteiro. Antes era algo muito mais orientado para o masculino. Agora temos tantas escritoras que são tão boas, por isso esperamos que o prémio e todo o processo do prémio tenha sido intensificado e seja muito mais amplo no seu alcance”, disse Anders Olsson, que preside ao Comité do Nobel da Literatura de 2019, ao Guardian.

As novas favoritas e os escritores do costume

O Nobel parece prometer mais diversidade linguística e regional depois de dois Nobel em inglês (Kazuo Ishiguro e Bob Dylan, Nobel que gerou toda uma outra polémica) e mais paridade depois de um escândalo que teve o assédio na sua origem. Sintomaticamente, nesta edição e perante a evidência de que desde 1901 o Nobel da Literatura só foi atribuído a 14 mulheres, as casas de apostas põem escritoras no top da sua lista de favoritos: são elas a poeta Anne Carson e a romancista Margaret Atwood, do Canadá, a chinesa Can Xue, a norte-americana Marilynne Robinson ou a russa Lyudmila Ulitskaya. O japonês Haruki Murakami, eterno favorito, volta à lista das casas de apostas, acompanhado pelo checo Milan Kundera, por exemplo. Apesar do apoio recente do filósofo francês Bernard-Henri Lévy, o português António Lobo Antunes não está no top dos mais prováveis vencedores.

A escritora Maryse Condé, francesa nascida em Guadalupe é outra das fortes candidatas — foi ela que, em 2018, recebeu o prémio de edição única Nova Academia. Esta “nova academia” nasceu de um protesto contra a não-atribuição do Nobel em 2018, apoiada por mais de cem personalidades da cultura sueca descontente com a perda de prestígio da Academia Sueca. A jornalista Alexandra Pascalidou, uma das fundadoras da Nova Academia, postula: “Foi uma catástrofe causada por humanos que castigou a literatura”.

Na manhã de quinta-feira, o resultado da reforma da Academia Sueca traduzir-se-á em dois nomes. São fruto das escolhas do grupo de especialistas especialmente convocado para este duplo Nobel, mais paritário e mais jovem — é composto pelos críticos literários Mikaela Blomqvist de 31 anos, Rebecka Kärde, de 27 anos, e Henrik Petersen, bem como pela escritora e tradutora Gun-Britt Sundström e pelo poeta, tradutor e ensaísta Kristoffer Leandoer. São eles que fornecem os nomes ao Comité do Nobel da Literatura de 2019, presidido por Olsson e que inclui os escritores Per Wästberg, Kristina Lugn e Jesper Svenbro.

Estes últimos são membros da Academia e têm mandatos de três anos para se encarregarem do prémio da Literatura, que representa reconhecimento internacional e 9 milhões de coroas suecas (cerca de 823 mil euros) financiados pela Fundação Nobel — a mesma que em 2018 retirou o seu apoio à entrega de um Nobel literário no ano de todos os escândalos. “A nossa reputação é tudo”, resumia esta semana à agência Reuters Lars Heikensten, director executivo da fundação. Ainda assim, pede a professora de literatura Ingrid Elam, “é necessária mais mudança”. A docente da Universidade de Gotemburgo sugere limites de idade (80 anos) para os membros e períodos mais curtos nas comissões decisórias. “As pessoas têm a tendência para premiar apenas o que já conhecem e pensar que [outras obras] são kitsch, não são arte ou simplesmente não são suficientemente boas”, lembrou à Reuters.

Dois anos depois, o que ficou da polémica e respectiva investigação na Academia e nos tribunais? Jean-Claude Arnault cumpre pena de dois anos e meio de prisão por dois crimes de violação (alguns dos crimes já tinham prescrito). Katarina Frostenson afastou-se da Academia Sueca, apesar do carácter vitalício da filiação à instituição, recebendo um subsídio por se ter afastado voluntariamente. A auditoria interna da Academia concluiu que ao ser proprietária, com o marido, do clube cultural Forum que a Academia financiava, isso perfilava conflito de interesses; também se confirmou que foi autora de fugas de informação sobre o Nobel de que o marido beneficiou. Mas quanto ao uso dos nomes para ganhar dinheiro com jogo, Mats Malm disse ao El País que “as acusações de que tenha feito apostas não se substanciaram. No que respeita à Academia, o tema está encerrado”.