Como se lida com a subida das águas do mar?

A subida das águas do mar é uma das principais preocupações quando se fala de alterações climáticas. É um reflexo do degelo e da subida da temperatura e deixa nações “em risco de perder o próprio território” – e é também “o principal risco directo para Portugal”, explica o investigador alemão especialista em zonas costeiras, Matthias Garschagen.

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São Bartolomeu do Mar, Esposende PEDRO CUNHA/Arquivo

A subida das águas do mar e o aumento de fenómenos meteorológicos extremos (como tempestades e inundações) deixam as populações costeiras particularmente vulneráveis a estes efeitos das alterações climáticas. “A subida das águas já será um desafio mesmo que tenhamos um cenário de emissões de dióxido de carbono reduzido, mas será drasticamente diferente se tivermos um cenário de emissões elevadas”, explica ao PÚBLICO o investigador alemão especialista em gestão de risco e zonas costeiras, Matthias Garschagen, que é também um dos autores do relatório sobre oceanos do Painel Intergovernamental das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (IPCC) apresentado no final de Setembro, no Mónaco. “O relatório deixa isso muito claro: alguns dos impactos serão tão grandes que a adaptação se torna difícil.”

Como os riscos para quem vive em zonas costeiras estão altamente dependentes do cenário de emissões de gases com efeito de estufa “que escolhamos enquanto comunidade global”, o cenário ideal para evitar efeitos nefastos seria uma redução gigante destas emissões. De resto, a solução pode passar por prevenir, adaptar, criar estruturas artificiais que permitam construções já por cima do mar — como uma espécie de palafitas ou como se fez com as ilhas artificiais no Dubai (Palm Jumeirah) e se planeia continuar a fazer no Mónaco — ou ainda “pela retirada das zonas costeiras, planeando-se a realojamento das populações costeiras noutras zonas mais seguras, algo que não está a ser considerado por muita gente”.

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O investigador Matthias Garschagen DR/UNU-EHS

“Para Portugal, o principal risco directo é a ameaça da subida das águas do mar a que já estamos a assistir”, considera o investigador da Universidade Ludwig-Maximilians, mas trata-se de um risco ligeiro quando comparado com as nações que vivem em ilhas, ameaçadas de forma mais crítica. “Basta olharmos para o caso das pequenas ilhas do Pacífico, onde a ocorrência de fenómenos extremos de subida de águas do mar, tempestades e furacões já tem aumentado de intensidade”. Continuará a haver um agravamento destes fenómenos meteorológicos extremos, garante o cientista, sobretudo nas regiões tropicais.

Nas ilhas, o problema agrava-se: “É bastante claro que não se têm muito terreno disponível para onde as pessoas se possam mudar – sobretudo em nações em desenvolvimento e pequenas ilhas. O problema é bastante diferente de qualquer outra zona costeira e, no fundo, fica-se em risco de perder o próprio território, o que é, sem dúvida, um risco de outro calibre”, assevera. “Pode não só perder-se uma faixa costeira de terreno habitável, mas quase todo o território de uma nação.”

Este poderá ser o caso de “muitas das ilhas no Pacífico, como as Fiji e Vanuatu, ou então as Maldivas e outras ilhas das Caraíbas”, porque “são regiões muito baixas em que a população está quase toda concentrada na costa”. “Se aumentar esta exposição [à subida do nível do mar e de fenómenos meteorológicos extremos], então a alternativa é mudar para outro sítio. Só que nestes casos é uma alternativa incrivelmente limitada.”

No relatório do IPCC sobre os efeitos do aquecimento global nos oceanos e na criosfera, diz-se que “quanto mais alta for a subida da água do mar, mais desafiante é a protecção costeira, sobretudo devido a barreiras financeiras e sociais e não tanto por limitações técnicas”. Ademais, “as pessoas mais expostas e mais vulneráveis são muitas vezes aquelas com menos capacidade de resposta”, alertou-se durante a conferência de imprensa, na altura da divulgação do relatório.

Decisões das próximas décadas são tomadas hoje

Além da vulnerabilidade socioeconómica de algumas populações, há ainda um agravamento de riscos nas zonas costeiras mais baixas, com um número crescente de fenómenos meteorológicos fora do normal. “Muitas megacidades localizadas em zonas baixas e pequenas ilhas deverão assistir, pelo menos uma vez por ano, a fenómenos que aconteciam de século em século.” Não só haverá mais tempestades tropicais como também terão mais intensidade, magnitude e precipitação. Pode parecer distante e incerto, mas os cientistas do IPCC alertam que “muitas das decisões costeiras que só terão efeito daqui a décadas estão a ser tomadas agora”.

A subida do nível do mar foi acelerada pela perda de gelo dos calotes polares da Antárctida e da Gronelândia. Na Antárctida, a perda de gelo foi três vezes maior entre 2007 e 2016 do que tinha sido entre 1997 e 2006; na Gronelândia foi duas vezes maior. Esta aceleração na Antárctida pode “potencialmente levar a um aumento do nível das águas do mar de vários metros em poucos séculos”.

No que toca a refugiados climáticos – pessoas que se vêem obrigadas a abandonar as suas residências devido a fenómenos relacionados com o clima –, Matthias Garschagen diz que os estudos analisados são “controversos” na comunidade científica, e que é por isso “pouco razoável” dar estimativas e números. Ainda que seja certo que as populações costeiras estejam “mais expostas e mais vulneráveis” e, consequentemente, mais passíveis a precisarem de mudar de sítio, há medidas de adaptação locais que podem ser tomadas. “Não se pode então dizer que toda a gente que está exposta à subida do nível das águas do mar será obrigada a abandonar [o sítio onde vivem].”

Além da retirada de populações e do avançar na costa, há outras medidas para minimizar os riscos de quem vive em zonas costeiras. A primeira palavra é “protecção”: ficar no mesmo sítio e construir infra-estruturas de protecção, como barreiras, “o que resulta melhor em zonas de alta densidade populacional ou cidades”. A segunda passa por “tentar lidar com as inundações no local de residência, ao criar habitações à prova de inundações ou sistemas de prevenção” que permitam alertar para a ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos – um maior número de inundações costeiras e de intrusões salinas (quando a água doce fica em contacto com a água do mar, cuja salinidade penetra nos aquíferos ou poços), tempestades e ondas de calor, tanto em terra como no mar. “Não é necessariamente algo de protecção elevada, é mais tentar viver com as águas em ascensão”, explica Garschagen. A terceira passa por avançar em direcção mar com estruturas artificiais “que é o que algumas cidades estão a tentar fazer”. Pode-se ainda fazer uma adaptação através de ecossistemas que descarbonizam, como os sapais, mangais ou pradarias marinhas.

Os ecossistemas são não só uma possível solução, mas também “vítimas” dos efeitos das alterações climáticas: estão em perigo e, ao contrário dos humanos, são “inteiramente reactivos” e pouco podem fazer para se adaptarem com antecedência aos efeitos das alterações climáticas. “É completamente diferente: no nosso caso, os cientistas avisam-nos com antecedência e podemos começar a planear, mas os organismos destes ecossistemas não têm isso. Daí que já tenhamos começado a assistir à migração de peixes e a recifes de corais que já estão em grande parte dos casos a ultrapassar o seu limite de adaptação e sobrevivência”, lamenta o cientista alemão.

Existem cenários que já são irreversíveis, “basta pensar na perda de recifes de corais de águas quentes, no derretimento de muitos glaciares mais pequenos ou no derretimento de gelo em montanhas mais baixas”. “Portanto, mesmo que reduzíssemos as emissões hoje, esse compromisso já teria chegado tarde e esse atraso teria resultado numa série de perdas drásticas.”

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Grande Barreira de Coral, Austrália REUTERS

A jornalista viajou a convite da Fundação Oceano Azul