Em poucos meses, já foram dragados 100 mil metros cúbicos de areia da ria de Aveiro

Obra de desassoreamento decorre dentro da normalidade, garantiram os responsáveis pela empreitada que continua a suscitar grande atenção e discussão por parte da comunidade local.

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Nelson Garrido

A obra arrancou no início do Verão e apesar de uma ou outra condicionante a quem tem estado (e continuará a estar) sujeita, tem avançado dentro da normalidade. A garantia é deixada tanto pelo empreiteiro como pelo gestor da empreitada de desassoreamento da ria de Aveiro. Até ao momento, já foram dragados dos canais cerca de 100 mil metros cúbicos de sedimentos – está prevista a dragagem de cerca de 1 milhão de metros cúbicos, no total. Numa visita ao terreno, seguida de debate, os responsáveis da Polis Litoral da Ria de Aveiro e da empresa Etermar foram desafiados a explicar os trabalhos em curso e que têm uma duração prevista de 15 meses.

Várias dezenas de cidadãos marcaram presença no evento promovido pela Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos e a Fábrica Centro de Ciência Viva de Aveiro, comprovando a atenção que a comunidade local tem dado à obra – pela sua envergadura, acima de tudo, mas também pelos impactos que ela poderá ter.

Actualmente, estão quatro dragas a operar nos canais principais – canal de Ovar, no acesso ao Cais da Bestida; canal da Murtosa, a poente da praia do Bico; canal de Mira, entre a ponte da Barra; e a Ponte da Vagueira e rio Boco/canal de Ílhavo, a sul da Ponte de Água Fria. Em breve, a operação será reforçada com uma quinta draga.

Nestes primeiros meses de obra foram já dragados o canal de acesso ao Cais da Bestida, bem como o canal de Ílhavo (a Norte da Ponte Juncal Ancho), numa operação que está sujeita “à dinâmica da ria, com correntes muito fortes”, apontou Carlos Apolo Flores, do consórcio liderado pela Etermar. “Também a altura de sedimentos dificulta a dragagem, levando a que muitos troços tenham de ser feitos à maré”, acrescentou, notando que esta condicionante só vem comprovar que “a ria está, de facto, assoreada”.

Uma tese que, recorde-se, é contrariada por alguns especialistas, como é o caso de João Miguel Dias, investigador e docente da Universidade de Aveiro - já ouvido pelo PÚBLICO, aquando da consignação da obra -, chamado a participar na sessão pública desta quinta-feira. “Há alguns assoreamentos localizados e pontuais mas não um assoreamento generalizado da ria”, voltou a vincar o especialista que sustenta que o que está a acontecer é um “assoreamento aparente”, motivado por uma maior amplitude de marés. “A ria está até mais profunda do que estava no passado”, argumentou. 

Garantir a navegabilidade e repor as margens

Esta obra há muito que vinha sendo apontada como essencial para garantir condições de navegabilidade nos canais da ria. A intervenção já em curso permitirá, também, o reforço de margens em zonas baixas ameaçadas pelo avanço das águas e da deriva litoral.

Os trabalhos envolvem, neste momento, cerca de 60 profissionais e, segundo garante a Polis Litoral Ria de Aveiro, estão a ser acompanhados em permanência por uma equipa técnica, onde incluem vários arqueólogos. “Há sempre dois arqueólogos em cada draga”, destacou Luís Bandeira, técnico da Polis. Fruto desse acompanhamento já foram descobertos vestígios de uma mancha de ocupação ou possível acampamento do neolítico a cerca de dois metros de profundidade na Ria de Aveiro, em Ílhavo - foram encontrados vários artefactos datados entre 4.000 a.C. e 3.000 a.C. e uma estrutura que se encontra submersa.

Uma descoberta que, garantem os responsáveis da Polis, não atrasou o decurso normal dos trabalhos. “Os únicos constrangimentos têm sido os da dinâmica da ria”, frisou Luís Bandeira.

Esta empreitada, que se estende ao longo de 95 quilómetros, é financiada pelo POSEUR – Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, com uma comparticipação de 75%, sendo a contrapartida nacional assegurada pelo capital social proveniente do Estado e pelas Águas do Centro Litoral, no que respeita à estabilização das suas condutas. O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandos, referiu-se a esta empreitada como “a maior de todas as intervenções destes últimos anos no litoral e nas lagoas costeiras”.

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