Assim foi a chegada da Voyager 2 ao espaço interestelar

A viagem espacial da Voyager 2 já dura há 42 anos. No ano passado, conseguiu chegar ao espaço interestelar e forneceu-nos dados sobre esta jornada por mundos pouco (ou nunca) navegados.

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A Voyager 2 chegou ao espaço interestelar a 5 de Novembro de 2018 NASA

Terra, 5 de Novembro de 2018. Estava a sonda Voyager 2 a cerca de 18 mil milhões de quilómetros do nosso planeta quando chegou ao espaço interestelar. A confirmação oficial deste feito foi anunciada esta segunda-feira na revista Nature Astronomy. Em cinco artigos científicos revelam-se os dados recolhidos pela sonda quando fazia a travessia para o espaço interestelar.

O lançamento da Voyager 2 ocorreu a 20 de Agosto de 1977, 16 dias antes do da Voyager 1, que chegou ao espaço interestelar em 2012, tornando-se no primeiro objecto humano a atingir esse feito.

Quando foi lançada, a Voyager 2 pesava 900 quilos e levava milhões de elementos, pois era preciso substituir os que se iam danificando. Com esta sonda (assim como com a Voyager 1) foi também um disco dourado com sons, imagens e saudações em várias línguas e com o objectivo de comunicar com potenciais seres extraterrestres que a possam descobrir. Feita para durar cerca de quatro anos e para estudar especificamente Júpiter e Saturno, foi resistindo e em 42 anos passou pela órbita de Marte, pela cintura de asteróides e teve encontros com Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno.

Quase no final de 2018 alcançou então o espaço interestelar. Isto é, atravessou a fronteira exterior da heliosfera (uma bolha gigante de partículas electricamente carregadas e produzida pelo nosso Sol). Chamada “heliopausa”, essa fronteira é um local onde os ventos solares esbarram com os ventos de outras estrelas, assim como com gases e poeiras da Via Láctea, a nossa galáxia.

Mesmo assim, não saiu oficialmente do nosso sistema solar, que tem como região mais extrema a nuvem de Oort, formada por numerosos corpos gelados que ainda se encontram sob influência da gravidade do Sol. “Mesmo que as Voyager já tenham saído da heliosfera, o Sol ainda aí tem uma grande influência”, diz ao PÚBLICO John Richardson, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (EUA) e autor de dois dos artigos.

De acordo com um comunicado da Universidade do Iowa, nos EUA (que tem cientistas a participar nesta missão), percebeu-se que a sonda chegou ao espaço interestelar devido a “um salto na densidade do plasma” detectado por um instrumento que a sonda transporta. “O marcado aumento da densidade do plasma é evidente na viagem da Voyager 2 porque se passou do plasma quente, de baixa densidade e característico do Sol, para o plasma frio e de elevada densidade do espaço interestelar”, lê-se.

Designado Ciência do Plasma da Voyager, este instrumento foi concebido para investigar o vento solar e planetas como Júpiter e Saturno. “É a primeira vez que o plasma foi medido directamente no meio interestelar, o material que preenche o espaço entre as estrelas”, refere John Richardson, acrescentando que o instrumento da Voyager 1 que media o plasma se quebrou em 1980.

Atravessar a fronteira

Também se concluiu que a Voyager 2 atravessou a heliopausa em menos de um dia. “A fronteira era muito fina”, assinala o cientista, que começou a trabalhar nos dados das Voyager em 1979 quando ainda era aluno de pós-graduação. “Nessa altura, a Voyager 1 passou por Júpiter e descobriram-se os vulcões da lua Io.”

Já Stamatios Krimigis – mais conhecido como Tom Krimigis – começou a trabalhar na missão da Voyager 2 há 48 anos. “Não esperava passar o resto da minha vida neste programa”, diz ao PÚBLICO agora com 81 anos. Nesta segunda-feira assina um artigo em que se sugere que forma tem a heliosfera. “Percebeu-se assim que a heliosfera é esférica e que não tem uma cauda como um cometa. Era uma forma que não estava prevista.”

Por isso, o cientista assinala que as Voyager nos mostraram que vivemos dentro de uma bolha criada pelo campo magnético do Sol que protege a “nave espacial chamada Terra” da radiação cósmica que vem de fora da galáxia. “Podemos agora perceber melhor o que vemos à volta de outros sóis através dos telescópios instalados na Terra. Desta forma, podemos saber mais sobre o Universo.”  

Noutros dos artigos, revela-se que se observou uma camada entre a heliopausa e o espaço interestelar que não tinha sido detectada pela Voyager 1. Ou percebeu-se que a região mais exterior da heliosfera varia de espessura. 

Em futuros trabalhos, os cientistas querem responder a questões sobre as propriedades do espaço interestelar e de regiões que sofram menos efeitos do Sol. “Agora, que nos encontramos num novo ambiente da Via Láctea, pretendemos saber se é o ‘mar calmo’ que prevemos nos modelos teóricos ou se é perturbado por explosões ocasionais do nosso Sol que viajam desde a ponta do nosso sistema solar”, nota Tom Krimigis. “Através da travessia da Voyager 1, já sabíamos que algum material vindo do Sol abre caminho através da fronteira (sem precisar de passaporte!) e alcança o espaço interestelar. Não sabemos o quão comum é isto e se isto também terá sido verificado pela Voyager 2.”

John Richardson até já sonha: “Os humanos estão pela primeira vez a explorar regiões além do controlo do Sol. Sabemos agora quais são as condições que existem entre as estrelas e podemos considerar possíveis viagens a outras estrelas e planetas.”

Por sua vez, Tom Krimigis não se esquece do lançamento “dramático” de há mais de 40 anos. “Perdemos o contacto com a sonda por uns momentos, mas voltámos a ganhar controlo e aprendemos como ‘comandá-la’.” E faz questão de destacar os feitos técnicos alcançados por esta missão: “A Voyager 2 está a navegar em ‘águas desconhecidas’ pela galáxia e esperamos que novos fenómenos surjam. Não nos devemos esquecer de que esta sonda foi feita para cerca de quatro anos e já dura há 42 anos. Este é um verdadeiro golpe de sorte que nos ensina muito sobre a importância de construir sondas com fiabilidade.”

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