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Da utilidade dos desejos e objectivos de fim de ano

Precisamos de sentir, de tempos a tempos, que temos metas a atingir, precisamos de objectivos que norteiem a nossa vida. O início do ano funciona então como um marco. Haverá melhor data que o dia 1 de Janeiro para servir de ponto de partida para essa “nova vida”?

Na ressaca do fim de ano conversava com um amigo sobre as tradições que cumpríamos, ou não, no réveillon. Para mim é imprescindível comer as 12 passas: por cada badalada, uma passa, por cada passa, um desejo. A essa vou juntando outras de que me vou lembrando a cada ano (uma nota na mão, subir para uma cadeira, envergar uma peça de roupa nova). Mas aquele ritual que considero imprescindível é, sem dúvida, comer as passas. Não me lembro de uma passagem de ano em que não as tivesse comido. Nem que a passagem de ano fosse festejada na rua, o certo é que a pequena embalagem de passas de uva seguia comigo e, na hora certa, lá eram engolidas e os desejos para os próximos 12 meses efectuados.

Ora, nessa conversa com o meu amigo, o mesmo dizia-me que não tinha por hábito incondicional essa tradição. Havia anos em que comia as passas, sim, mas outros havia em que nem se lembrava. Acabou por me dizer que este ano as tinha engolido apenas, e só, por uma questão de hábito, mas que não tinha feito qualquer pedido/desejo para os próximos 12 meses que ali se iniciavam. O meu ar de espanto não passou despercebido e ele acabou por me colocar a pergunta que se impunha: “Tens mesmo fé nessa tradição? Acreditas mesmo que os pedidos feitos à meia-noite se vão realizar?”

É claro que tal pergunta não poderia ter uma resposta simples de “sim” ou “não”. É algo bem mais complexo do que isso. Dei por mim a pensar no que levaria tantos e tantos, nos quais estou claramente incluída, a comer as passas à meia-noite. Trata-se apenas de um hábito ou acreditamos, de facto, que os desejos se irão realizar?

Depois de pensar um pouco sobre o assunto concluí que o fazemos por tradição, é claro, não nos questionando muito sobre o porquê de realizarmos certas acções. Mas não considero que esta seja uma explicação cabal. Concluí que o fazemos também, e acima de tudo, por necessidade. Necessidade? — perguntarão vocês. De quê? Passo então a explicar.

Precisamos de sentir, de tempos a tempos, que temos metas a atingir, precisamos de objectivos que norteiem a nossa vida. O início do ano funciona então como um marco. Haverá melhor data que o dia 1 de Janeiro para servir de ponto de partida para essa “nova vida” que ambicionamos?

É a partir desse dia que a vida nos irá trazer muitas das coisas a que almejamos: melhorias a nível financeiro, amoroso e de saúde. (No geral, é isto que todos pedimos, com maior ou menos pormenor). Contudo, não deixamos tudo nas mãos do destino. Achamos que temos de o ajudar. E é por isso então que criamos uma série de objectivos que iremos colocar em prática logo nos primeiros dias do ano.

Decidimos que iremos ser menos sedentários. Iremos inscrever-nos ou regressar ao ginásio. Prometemos a nós mesmo que iremos caminhar todos os dias. É claro que a nossa alimentação irá ser bem mais regrada. Os excessos das festas ficaram no ano anterior. Prometemos, também, ser mais organizados no trabalho e, claro, menos nervosos e menos stressados. Iremos dedicar mais tempo aos amigos, aos tempos livres, à leitura. Estes são apenas alguns dos exemplos das muitas e muitas promessas que se fazem nos primeiros dias do ano para atingir os objectivos a que nos propusemos. Deste modo, pensamos nós, no final do ano a vida presentear-nos-á com a concretização dos desejos que fizemos na noite de fim de ano, enquanto comíamos as passas. Fomos proactivos e a vida está a recompensar-nos.

Mas, a verdade é que daqui um ano estaremos, no dia 31 de Dezembro, a fazer uma nova lista de desejos. Se tivermos sido umas pessoas organizadas, e tivermos escrito os desejos/objectivos do ano anterior num papel, iremos verificar, ao ler a lista, que muitos deles (se não a maior parte) terão ficado esquecidos. Com o passar dos dias e dos meses teremos deixado para trás a nossa determinação de novo ano e esquecido os objectivos. Contudo, lá estaremos nós, mais uma vez, à meia-noite, a pedir desejos “à vida e à lua”.

Por que raio não nos cansamos desta rotina anual? Quanto a mim esta resposta é simples. Não nos cansamos de comer passas, de pedir desejos, de traçar resoluções porque necessitamos deles para dar sentido à nossa vida. Necessitamos de acreditar que a vida pode sempre ser melhor, necessitamos de ter objectivos a atingir para que a vida não seja apenas um lento decorrer dos dias sem metas para chegar e ultrapassar.

É por isso que todos os inícios de ano acreditamos que esse será o ano em que iremos fazer diferente e ser diferentes. Tal como todos os anos, teremos esquecido grande parte das nossas determinações, no máximo, em três meses. É claro que parte dos nossos desejos não se irá realizar (convenhamos que pedir “paz para o mundo” é algo difícil de atingir!) e não iremos concretizar todos os objectivos que nos propusemos atingir. Mas é essa fé que colocamos na vida (quando pedimos desejos) e em nós (quando traçamos objectivos) que nos leva, ano após ano, a repetir esses comportamentos e que nos leva a acreditar que esse será o ano de todos os acontecimentos! E é dessa força e fé que necessitamos para encarar mais uma viagem à volta do sol que, este ano, irá durar 366 dias.

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