O fóssil mais antigo de uma cenoura selvagem foi descoberto na ilha da Madeira

Uma equipa de cientistas descobriu a presença de plantas de cenoura selvagem — com caules e folhas gigantes — há cerca de 1,3 milhões de anos na ilha da Madeira. Além de ser a primeira vez que é descoberto um fóssil de uma planta com gigantismo insular, esta cenoura fossilizada é a mais antiga do mundo.

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Melanoselinum decipiens Maximovich Nikolay

Uma equipa de cinco cientistas (quatro deles portugueses) quis estudar fósseis de frutos e acabou por descobrir a cenoura fossilizada mais antiga do mundo. As conclusões dos investigadores revelaram a presença de plantas de cenoura selvagem (diferente das cenoura que são consumidas hoje em todo o mundo) — com caules e folhas gigantes — há cerca de 1,3 milhões de anos na ilha da Madeira. O estudo é pioneiro por duas razões: o fóssil de cenoura agora descoberto é o mais antigo alguma vez descrito a nível mundial e é a primeira vez que se caracteriza um fóssil de planta com evolução para gigantismo insular.

O estudo, cujo autor principal é aluno de doutoramento em geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, vai estar em destaque na revista científica Taxon editado pela Associação Internacional de Taxonomia de Plantas, depois de já ter sido publicado online.

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Miguel Meneses de Sequeira e Carlos Góis e Marques durante uma saída de campo Miguel Meneses de Sequeira

Identificado por Carlos Góis Marques e a restante equipa, o fóssil é de uma espécie exclusiva da ilha da Madeira, o aipo-da-serra ou aipo-do-gado (Melanoselinum decipiens), que actualmente é encontrado em clareiras da floresta laurissilva húmida — um tipo floresta húmida subtropical composta maioritariamente por árvores da família das lauráceas e endémico da Macaronésia (região formada pelos arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde). Este tipo de floresta possui maior expressão nas terras altas da ilha da Madeira, onde se encontra a sua maior e mais bem conservada mancha (cerca de 15 mil hectares), e foi considerada pela UNESCO como Património da Humanidade em 1999.

Segundo o comunicado que divulga o estudo, apesar do nome comum da espécie ser aipo, alguns estudos moleculares permitiram concluir que se trata de uma cenoura (género Daucus), que evoluiu para uma planta lenhosa insular, tornando-se uma cenoura gigante. O gigantismo insular é um fenómeno biológico onde o tamanho dos animais ou das plantas isoladas numa ilha aumenta dramaticamente ao longo de várias gerações. Os autores afirmam que este processo pode ser verificado em ilhas de todo o mundo e deve-se a “processos evolutivos e ecológicos”.

Charles Darwin foi o primeiro autor a propor a evolução destas plantas arbustivas a partir de antepassados herbáceos. Ao chegarem às ilhas, os antepassados destas plantas ficaram livres da obrigatoriedade de cumprir o seu ciclo de vida anual, tornando-se progressivamente em plantas perenes (vegetação com um ciclo de vida mais longo) e com um crescimento lenhoso (plantas que são capazes de produzir madeira como tecido de suporte dos seus caules). Este fenómeno pode ser relacionado com factores como o clima ameno das ilhas, a ausência de herbívoros e a competição pela luz solar.

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Em cima, Melanoselinum decipiens em floração (à esquerda) e silhueta do tamanho que a planta pode atingir (à direita); em baixo, fruto actual dea Melanoselinum decipiens e dois fósseis de fruto desta planta com 1,3 milhões de anos Carlos A. Góis Marques/Miguel Menezes de Sequeira

Na prática, e tal como explica Carlos Góis Marques ao PÚBLICO, o fóssil da cenoura e a imagem da planta no seu estado dito “normal” não corresponde ao tipo de cenouras a que estamos habituados, mas é da mesma família. “Neste caso, o que descobrimos foi uma cenoura selvagem que não tem um tubérculo tão desenvolvido. Em tempos, terá existido uma cenoura selvagem em Portugal continental que chegou à Madeira e, por causa destes factores, evoluiu para uma planta grande. Estas plantas não produzem uma cenoura como as que conhecemos porque, quando chegaram a uma ilha em que não existiam herbívoros a comer a sua parte superior, acabaram por crescer e desenvolver-se para cima e não para dentro da terra”, diz o investigador.

Apesar de o fenómeno já ter sido descrito há mais de 150 anos por Darwin, até agora não se conhecia nenhum fóssil de uma planta com gigantismo insular que pudesse fornecer pistas sobre quando (e como) é que os seus antepassados evoluíram em contexto insular.

A publicação resulta dos trabalhos de investigação de Carlos Góis Marques realizados na Faculdade de Ciências da Vida da Universidade da Madeira e do Instituto Geofísico Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, instituições a que pertencem a outros autores do estudo.

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