A música elegante dos irmãos Graun pelo Ludovice Ensemble

O novo projecto discográfico desta formação especializada no barroco é lançado esta sexta-feira no Palácio da Ajuda, em Lisboa.

Piano
Foto
Tomás Monteiro

Del Signor Graun, uma compilação de obras para flauta e cravo compostas pelos irmãos Carl Heinrich Graun (1704-1759) e Johann Gottlieb Graun (1703-1771), é o mais recente projecto discográfico do Ludovice Ensemble, agrupamento especializado no barroco fundado em 2004 pelo cravista Fernando Miguel Jalôto e pela flautista Joana Amorim, cujo percurso artístico tem sido marcado pela redescoberta de repertórios pouco divulgados, em paralelo com a paixão pela música francesa e pelo património português. Esta sexta-feira, às 19h30, será possível escutar ao vivo o programa do CD, editado pela Veterum Musica, num concerto de lançamento na belíssima Sala dos Serenins do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa. Tratar-se-á também de uma excelente oportunidade para conhecer a Sala da Música da corte de D. Maria I, espaço emblemático que sobreviveu ao incêndio de 1794 da Real Barraca (residência da família real após o Terramoto de 1755). Depois de ter estado muitos anos fechada ao público, a sala tem vindo a ser utilizada para actividades culturais, incluindo concertos e audições do Conservatório Nacional. A entrada é gratuita, sujeita à capacidade do auditório.

“Queríamos muito gravar um CD só os dois, porque foi assim que o Ludovice Ensemble começou — um duo de flauta/traverso e cravo — e sentimos que saltámos essa etapa ao gravarmos o primeiro CD [Amour, viens animer ma voix!, com cantatas francesas] com um grupo maior e um cantor, o barítono Hugo Oliveira”, explica Miguel Jalôto ao PÚBLICO. “Queríamos também gravar algo inédito, faz parte da filosofia do grupo descobrir novos repertórios.” Joana Amorim fez a investigação inicial, tendo localizado os manuscritos das sonatas na Biblioteca Estatal de Berlim. Perceberam depois que havia muitas outras fontes, que usaram como comparação no processo de edição das partituras.

Activos na corte de Frederico II da Prússia, juntamente com figuras da estatura de Carl Philipp Emanuel Bach e Johann Joachim Quantz, os irmãos Graun eram muito conceituados na sua época, mas têm actualmente pouca presença na vida musical. “São dois compositores excelentes, hoje algo marginalizados. Então a música de câmara faz-se muito pouco”, diz Joana Amorim. “A estética deles atrai-nos muito: algures entre Bach e a geração seguinte, entre o barroco e o galante, com um cheirinho a classicismo e aspectos que lembram o movimento estético Sturm und Drang... uma escrita muito feliz para a flauta!”, acrescenta.  Na opinião de Jalôto, a música dos Graun é também aliciante para o cravo, uma vez que, para além de breves passagens de realização do baixo contínuo, este está em igualdade com a flauta. “Originalmente não eram obras para cravo obligatto, mas algumas fontes atestam esta possibilidade, pela qual optámos na nossa versão.”

PÚBLICO -
Foto
O cravista Fernando Miguel Jalôto e a flautista Joana Amorim são o núcleo duro desta formação especializada no barroco Tomás Monteiro

O cravista caracteriza as obras dos irmãos Graun como “ligeiras e elegantes, ocasionalmente difíceis mas nunca propositadamente virtuosas”. Evocam o lado mais despretensioso do Rococó prussiano, argumenta. “Pareceram-nos as imagens sonoras ideais de Saint-Souci e dos outros palácios construídos por Frederico II em Potsdam. É música escrita para um encontro informal entre amigos, que se divertem a partilhar momentos de entretenimento; obras muito pouco intelectuais — o rei detestava o contraponto! — e que oscilam entre o cantabile das árias de ópera napolitanas  e sugestões de dança francesa.” Como tal, o duo descartou na sua interpretação tudo o que parecia “demasiado rebuscado”. “Na elaboração das cadências dos andamentos lentos, por exemplo, optámos por gestos muito simples, que pudessem realmente ser improvisados por dois músicos amadores (da época, claro!), em vez de nos perdermos em grandes invenções”, explica Joana Amorim. A escolha de um cravo francês e de uma flauta alemã deveu-se também à vontade de se aproximarem do ambiente refinado e “afrancesado” da corte de Frederico II, patrono de Voltaire e coleccionador de Watteau.

Desde o último CD do Ludovice Ensemble passaram oito anos, um longo período que os músicos justificam com a crise do mercado discográfico. “Ninguém compra, tudo se ouve na Internet; as editoras são cada vez menos, mais pequenas, mais exigentes... Não queríamos lançar um CD nas editoras massificadas que editam tudo, apenas a troco de dinheiro”, aponta o cravista. “Como todos os nossos projectos são auto-financiados, precisamos de tempo para reunir fundos.” Mesmo assim, têm já outros projectos discográficos. “Queríamos gravar música de câmara portuguesa setecentista, mas mais uma vez faltaram apoios.” De resto, o novo Del Signor Graun, dedicado ao pai do cravista e à mãe da flautista, que faleceram durante o processo, está gravado desde 2016, mas a necessidade de controlar aspectos da produção atrasou o lançamento.

Um outro CD, já gravado e ainda por editar, evoca um sarau na corte portuguesa nas décadas de 1720-30. Inclui cantatas de câmara de Té y Sagau, Astorga e Giorgi, em colaboração com a soprano catalã Maria Hinojosa, e peças instrumentais de Laurenti, Seixas e anónimos. Mas o Ludovice Ensemble também tem vontade de regressar à música francesa.

Entretanto, o agrupamento continuará bastante activo em matéria de concertos. Depois da estreia recente em Tallinn, na Estónia, regressam em Março ao Festival Felicija Blumenthal de Telavive. Por cá, passarão pelos festivais Música a Norte, na Madeira, de Música Religiosa de Guimarães e de Marvão. Estão previstos ainda quatro concertos comemorativos dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, uma encomenda do Património Nacional de Espanha e do Festival de Aranjuez à qual se associaram outras entidades e localidades espanholas (Lugo, Jaca e Casalareina). O programa, com os cantores Orlanda Velez Isidro e André Lacerda, incluirá obras dos cancioneiros portugueses do século XVI e peças sacras de anónimos de Coimbra, de Damião de Góis e de Pedro de Escobar.

Sugerir correcção