Os Dias da Música do CCB serão de Beethoven, inevitavelmente

No ano em que se cumprem 250 anos sobre o nascimento de um dos maiores génios da história da música, o Dias da Música, em Abril, ser-lhe-á inteiramente dedicado. Uma edição “mais inclusiva, aberta e disponível”, que terá o recinto aberto gratuitamente ao público.

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Escola Artística de Música do Conservatório Nacional joão vasco
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Escola Artística de Música do Conservatório Nacional joão vasco

Este ano vamos recordá-lo, celebrá-lo, contextualizá-lo e reenquadrá-lo, das grandes salas às pequenas agremiações, de celebrações oficiais a comemorações espontâneas. Assim será nos quatro cantos do mundo e essa será a justa medida do seu génio e da relevância da sua obra. A figura que agrega toda a programação do Dias da Música no Centro Cultural de Belém (CCB) não é, portanto, uma surpresa, antes uma feliz inevitabilidade. Nasceu em Bona há 250 anos e revolucionou a música a partir de Viena. Dias 17 e 18 de Abril e, depois, de 23 a 26, os Dias da Música 2020 serão de Beethoven.

Homem de “mau feitio”, criador guiado por uma aguda noção de humanismo, alguém que “resgatou para a música uma dimensão filosófica sem precedentes”. Assim começou por apresentar André Cunha Leal, programador de clássica no CCB e jornalista na Antena 2, um dos maiores compositores de todos os tempos, aquele que transportou a música do classicismo para o romantismo. Ouvimo-lo na conferência de imprensa realizada no CCB, na manhã desta quarta-feira, onde foi revelada a programação da edição 2020 Dias da Música e onde surge como grande novidade o facto de, este ano, o recinto da festa ser franqueado ao público, que poderá assistir gratuitamente, por exemplo, a espectáculos da Companhia Nacional de Bailado inspirados na música de Beethoven ou à ponte feita pelos Voice’n’Combo entre o compositor celebrado e o jazz. A programação em sala, entre concertos e masterclasses, tem bilhetes a preços que variam aproximadamente entre os 4 euros e os 22 euros. Poucos dias depois de iniciar funções como membro do conselho de administração do CCB com o pelouro da programação e comunicação, Delfim Sardo diz ao PÚBLICO que se reconhece “completamente” nesta versão “mais inclusiva, aberta e disponível” do festival. Quanto à sua visão e políticas para o CCB enquanto programador, considera que é “ainda muito cedo” para abordar a questão. “Entrei anteontem”, justifica. Tempo para Beethoven, então.

Beethoven é um farol

Numa apresentação que quase se aproximou de uma masterclass sobre o mestre alemão, dado o detalhe e entusiasmo posto na dissecação da sua música, do seu contexto histórico e dos seus paralelos no presente, André Cunha Leal teve como interlocutores o maestro Pedro Carneiro, que dirigirá a Jovem Orquestra Portuguesa em A Heróica (23 de Abril, 19h), e a maestrina Joana Carneiro, que dirigirá a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do São Carlos em Fidelio, a única ópera de Beethoven, dia 24 de Abril, 21h30 — a soprano Ingela Brimberg será Leonore e o tenor Stephen Gould encarnará Florestan numa encenação que contará como narradora com a actriz Leonor Seixas.

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Falou-se do génio musical de Beethoven, de como a sua obra preconizou uma “emancipação também instrumental”, como referiu Joana Carneiro, que nos conduziria depois a Wagner ou a Mahler. Falou-se de como “ao longo das suas nove sinfonias” testemunhamos “uma viagem pela condição humana”, destacou a maestrina. Pouco depois, era abordado o histórico concerto da semana de Natal de 1808, em Viena, prolongado por mais de quatro horas e em que Beethoven estreou quatro obras, entre elas a 5ª e 6ª Sinfonias. Vamos ouvi-lo dia 25 de Abril, a partir das 18h e dividido em três momentos, interpretado pela Orquestra de Câmara de Viena, com direcção musical de Bruno Borralinho — participarão a soprano Camilla Nylund e também um coro formado por coralistas amadores, sob direcção de Filipa Palhares. Foi nesse momento que Pedro Carneiro declarou: “A mensagem é nele mais forte que a nossa vontade. Por isso [Beethoven] é um farol”. Pretendia ilustrar como o génio musical se conjuga tão firmemente nele com a sua visão política democrática e anti-autoritária.

O Dias da Música irá celebrar Beethoven pondo-o em contacto com outras artes: dias 17 e 18, arrancará com o espectáculo de dança 9 (Neuf), inspirado na 9ª Sinfonia, criado pela companhia canadiana Cas Public em parceria com o teatro belga Kopergietery — um dos bailarinos, Cai Glover, bem como a coreógrafa, Hélène Balckburn, usaram a sua deficiência auditiva, de que padecia também Beethoven, como ponto de partida para a coreografia. No fim-de-semana seguinte, quando se instalar em pleno no CCB, o Dias da Música tentará abarcar, sem ambições exaustivas, parte considerável da obra de Beethoven. Ouvir-se-á tanto a 8ª Sinfonia e o Triplo Concerto pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, com os solistas Tatiana Samouil (violino), Pavel Gomziakov (violoncelo) e Andrei Korobeinikov (piano) — 26 de Abril, 19h —, ou a 7ª Sinfonia e o Concerto Para Violino, pela Orquestra da Ópera Estatal da Hungria, dirigida pelo maestro Nuno Côrte-Real (dia 26 de Abril, às 15h e 17h, respectivamente), como a reinterpretação, pelo pianista Daniel Bernardes, das menos conhecidas Canções de Diversas Nacionalidades, onde se incluem duas atribuídas a Portugal (ainda que uma delas em castelhano) — dia 26, 17h. Entre concertos e masterclasses, possibilidade ainda para o próprio público se tornar músico em palco. No intervalo dos concertos, haverá formação disponível para que possamos aprender a interpretar o Hino da Alegria. O coro que se formar ao longo do dia poderá então, quando este chegar ao fim, cantá-lo na sala Maria Helena Vieira da Silva sob a direcção da maestrina Inês Raspadinho.

“São os 250 anos de Beethoven e [o Dias da Música] coincide também com o 25 de Abril, um momento fantástico da nossa história e que também queremos celebrar”, destacou o presidente do CCB, Elísio Summavielle, em conversa com os jornalistas no final da conferência de imprensa. “O nosso objectivo é trazer cada vez mais público e procurar cumprir ao máximo a nossa ideia de cidade aberta”, afirmou, destacando o Dias da Música como “uma marca do CCB”, como “uma festa que já foi apropriada pelo público, que o público não dispensa e que nós próprios não dispensamos”. O festival conta com um orçamento de 500 mil euros, o correspondente a um terço da programação anual do CCB. “Um esforço grande, mas que vale a pena”, afirma Summavielle.