Starmer sucede a Corbyn na liderança do Partido Trabalhista

Antigo “ministro-sombra” do “Brexit” foi eleito pelos militantes e organizações filiadas do Labour, com 56,2% dos votos. “Temos uma montanha para escalar”, assume o novo líder da esquerda britânica.

Sir Keir Starmer era o grande favorito à vitória
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Sir Keir Starmer era o grande favorito à vitória Reuters/Henry Nicholls
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Líder e ex-líder do Labour trocaram elogios EPA/NEIL HALL

Novo líder, nova vida, o dobro dos desafios. O Partido Trabalhista britânico deixou este sábado para trás a “era Corbyn”, ao escolher Keir Starmer para líder do partido e da oposição ao Governo de Boris Johnson. Militantes, apoiantes registados, sindicatos e organizações filiadas do Labour elegeram o antigo “ministro-sombra” do “Brexit” para o cargo ocupado nos últimos cinco anos por Jeremy Corbyn, oferecendo-lhe um mandato recheado de obstáculos por ultrapassar. A definição de um plano concreto de combate ao novo coronavírus e a conceptualização de uma estratégia ambiciosa para inverter o ciclo insucessos eleitorais são tarefas prioritárias para o novo líder.

Na derradeira e decisiva votação de um processo eleitoral que começou há quatro meses, Starmer foi eleito à primeira volta, com 56,2% dos votos nas primeiras preferências dos eleitores. Rebbeca Long-Bailey logrou 27,6% e Lisa Nandy ficou-se pelos 16,2%. Participaram mais de 490 mil pessoas.

Em disputa estava também o cargo de vice-líder, vago desde que Tom Watson se demitiu no final do ano passado, em discordância com a direcção de Corbyn. Foi eleita Angela Rayner, superando os outros quatro concorrentes, mas só à terceira volta.

No seu discurso de vitória – gravado durante a semana, por causa da pandemia, a pedido dos organizadores da eleição interna trabalhista, e publicado na sua conta de Twitter – Keir Starmer afirmou que ser eleito líder do Partido Trabalhista é a “maior honra e privilégio da sua vida” e fez questão de “prestar tributo” ao “amigo” e “colega” Jeremy Corbyn, por ter “guiado o partido em tempos muito difíceis” e por ter “dinamizado o movimento” trabalhista.

E assumiu, sem rodeios, que o insucesso do Labour nos últimos tempos, colocou-o numa posição muito fragilizada: “Perdemos quatro eleições seguidas. Estamos a falhar no nosso propósito histórico. Não tenham dúvidas de que compreendo a dimensão da tarefa e a gravidade da posição onde nos encontramos. Temos uma montanha para escalar”.

O novo líder da esquerda britânica também dedicou especial atenção à crise sanitária causada pela propagação da covid-19 pelo Reino Unido e prometeu fazer uma oposição “construtiva” à estratégia do Governo de Boris Johnson.

“Quer tenhamos votado ou não por este Governo, todos confiamos que está a fazer o que acha mais acertado. É por isso que, em nome do interesse nacional, o Partido Trabalhista vai desempenhar o seu papel”, afiançou Starmer, que se vai juntar ao primeiro-ministro numa reunião de emergência sobre a pandemia, na próxima semana.

“Sob a minha liderança vamos interagir construtivamente com o Governo, não vamos fazer oposição só por ser oposição. Não vamos marcar pontos político-partidários ou fazer exigências impossíveis. Com coragem, vamos apoiar quando for o mais acertado fazê-lo”, prometeu. “O nosso objectivo é o mesmo que o do Governo: salvar vidas e proteger o nosso país”.

Vitória esperada

A vitória de Starmer já era apontada pelas sondagens e pelas casas de aposta britânicas como a mais provável, muito por causa dos importantes apoios que recebeu logo no início da corrida, por parte de deputados, repartições locais do Labour e sindicatos com peso dentro do partido.​

Tendo estado na linha da frente no longo e cansativo combate político que a liderança trabalhista travou com o Governo conservador, por causa do processo de saída do Reino Unido da União Europeia, mas sendo, ao mesmo tempo, crítico da estratégia de Corbyn sobre a questão do segundo referendo, Starmer conseguiu lograr o apoio de diferentes facções e é tido como o candidato ideal para recuperar eleitorado aos tories, numa próxima eleição nacional.

Mais moderado que Corbyn – cuja facção era representada, nesta eleição, por Long-Bailey – Starmer garante, no entanto, que não quer “recuar do radicalismo dos últimos anos”: “Prometo-vos que irei manter os nossos valores radicais e trabalhar incansavelmente para colocar o Labour no poder (…) com base nas questões morais do socialismo”, lê-se no site oficial da sua candidatura.

A eleição para a liderança do Partido Trabalhista começou em Janeiro, mas foi convocada por Corbyn em Dezembro, depois de o Labour ter sido derrotado pelo Partido Conservador, de Boris Johnson, nas legislativas antecipadas desse mês – foi a pior derrota do partido desde 1935.

Entre o final de Fevereiro e a passada quinta-feira teve lugar a última etapa do processo eleitoral trabalhista, que contou com a participação dos militantes, já depois de deputados, eurodeputados, sindicatos e repartições do partido por círculo eleitoral terem reduzido a lista de candidatos, de seis para apenas três, nas fases anteriores.

Após um início interessante, a eleição acabou por ficar para segundo plano nas últimas semanas, por causa da crise sanitária. Foram cancelados comícios e acções de campanha e o congresso extraordinário, onde deveria ter sido revelado o nome do vencedor, acabou por não se realizar.

Advogado, procurador, político

Sir Keir Starmer tem 57 anos e é deputado por Holborn e St. Pancras, círculo eleitoral da área metropolitana de Londres, cidade onde nasceu. Formado em Direito pela Universidade de Oxford, foi advogado e mais tarde procurador, liderou o Ministério Público de Inglaterra e do País de Gales, e destacou-se na defesa de casos relacionados, sobretudo, com questões de direitos humanos.

Já depois de regressar à advocacia, ingressou na política partidária em 2014, tendo sido eleito deputado, pela primeira vez, nas eleições legislativas de 2015. Não tendo apoiado a candidatura de Jeremy Corbyn à chefia do Labour, nesse mesmo ano, foi, ainda assim, convidado pelo então novo líder, para o cargo de “ministro-sombra” do Interior.

Demitiu-se da pasta um ano depois, em protesto contra a direcção do partido, mas voltaria aos frontbenches da Câmara dos Comuns, para ocupar o importantíssimo posto de “ministro-sombra” para o “Brexit”, onde se evidenciou por defender uma postura muito mais pró-UE do que Corbyn, nomeadamente na defesa de uma posição remainer dos trabalhistas, num cenário de segundo referendo à Europa.

Agora como líder, para além da resposta à ameaça da covid-19 e da estratégia para disputar as próximas eleições com o Partido Conservador, Keir Starmer tem como desafios e tarefas dirimir a incómoda questão dos casos de anti-semitismo dentro do partido – no seu discurso pediu “desculpa em nome do Labour” às comunidades judaicas a assumiu que o problema é “uma mancha” no trajecto do partido – e definir um plano de acção para o período de transição do “Brexit”, que termina no final de Dezembro, e que pode culminar com um divórcio sem acordo com a União Europeia.