Kutupalong, o maior campo de refugiados do mundo, no Bangladesh.
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Kutupalong, o maior campo de refugiados do mundo, no Bangladesh. Luís Octávio Costa

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Refugiados rohingya abandonados à fome no mar

Com o direito de nacionalidade e cidadania na Birmânia negado, os rohingya sofrem há décadas perseguição e abusos das autoridades do país. Em 2017, uma campanha de violência levada a cabo pelo exército da Birmânia tomou os rohingya como alvo e forçou mais de 700 mil pessoas a fugirem para o vizinho Bangladesh. Passados quase três anos, continua a não haver nenhuma solução à vista.

Carregados como carga humana numa traineira de madeira, cerca de 500 pessoas que tentavam chegar à Malásia desde os campos de refugiados no Bangladesh foram deixadas à fome e espancadas por traficantes ao longo de uma viagem que se arrastou por dois meses. Todos os passageiros no barco pesqueiro eram rohingya da Birmânia e, na maior parte, com idades entre os 12 e os 20; a bordo seguiam também algumas crianças pequenas.

Tendo-lhes sido negado desembarque na Malásia, os cerca de 400 sobreviventes acabaram por ser resgatados a 15 de Abril última pela guarda costeira do Bangladesh.

Amina (nome fictício), uma rohingya de 15 anos oriunda de uma pequena cidade de comércio na região ocidental da Birmânia, recorda estar sentada no convés sob o sol escaldante com centenas de outras pessoas durante dois meses. “Tínhamos de nos sentar assim”, explica, abraçando os joelhos contra o peito. “As pernas das pessoas inchavam e ficavam paralisadas. Algumas morreram e foram atiradas ao mar. Andámos à deriva com pessoas a morrerem todos os dias. Sentimos agora que nos tiraram do inferno.”

Os refugiados contam que eram espancados à mínima provocação e que lhes davam pouquíssima comida e água. “Fazia imenso calor e não havia comida, não havia água”, descreve Amina. “Davam-nos um punhado de dal [leguminosas] e um pouco de água por dia.” Outros sobreviventes contam que frequentemente não recebiam nenhuma comida nem água durante dias consecutivos. Desesperadas com a sede, muitas pessoas bebiam água do mar.

Todos os dias morriam pessoas, reportam os sobreviventes, os quais estimam que cerca de 100 pessoas que estavam a bordo morreram ou foram atiradas borda fora pelos traficantes. Ninguém sabe ao certo quantas foram.

Todos os passageiros na traineira acreditavam estar a caminho de um futuro melhor e de melhores oportunidades para si e as suas famílias, incluindo a possibilidade de trabalhar e de casar. Perseguidos e privados do direito de cidadania pelas autoridades da Birmânia e sem poderem voltar às suas casas no país de origem, centenas de milhares de rohingya definham em campos de refugiados sobrelotados no Bangladesh, desesperados por encontrarem uma saída. Sobreviventes do barco pesqueiro contam que as suas famílias juntaram todas as poucas economias que tinham para pagarem quantias avultadas aos traficantes de pessoas.

Ao alcançarem as águas da Malásia, recordam os sobreviventes, os traficantes forçaram-nos a telefonar aos familiares no Bangladesh para dizerem que tinham chegado em segurança e pedir que fizessem a transferência do dinheiro para pagar a passagem. Foi negada autorização ao barco para desembarcar na Malásia, ou em qualquer outro lugar, e a embarcação acabou por voltar para trás rumo ao Bangladesh. Alguns dias após se terem aproximado da costa, a maior parte dos traficantes abandonou a traineira e os seus esfomeados passageiros.

Depois de ter recebido informações de que o barco se encontrava à deriva na costa Sul do Bangladesh, a guarda costeira deste país resgatou os cerca de 400 sobreviventes a bordo. Estas pessoas estão a receber cuidados e permanecerão em quarentena durante 14 dias antes de serem encaminhadas de regresso às suas famílias nos campos.

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) enviou equipas de especialistas em cuidados de saúde e em saúde mental para prestar apoio no resgate e providenciar assistência de emergência aos sobreviventes, debilitados e macilentos, conforme estes chegaram ao Bangladesh.

“Muitos não conseguiam sequer manter-se de pé nem andar por si sós”, frisa a enfermeira da MSF Hanadi Katerji, líder médica desta equipa. “Eram pele e osso, algumas destas pessoas mal estavam vivas.”

As equipas médicas estabilizaram as pessoas em estado grave e indicaram cinco para transferência para hospitais da MSF por desnutrição, com severas complicações e outras condições de saúde. As equipas de saúde mental prestaram aconselhamento aos sobreviventes.

“As pessoas estavam muito subnutridas, desidratadas e, obviamente, profundamente consternadas”, reporta Hanadi Katerji. “Algumas tinham uma expressão no olhar de que nunca me esquecerei: cheias de medo. Alguns dos homens tinham ferimentos graves e que não estavam a sarar, provavelmente devido ao estado de desnutrição. Muitas tinham cicatrizes nos corpos, muitas contaram terem sido espancadas pela tripulação do barco.”

“Acima de tudo as pessoas estavam em enorme stress e muito traumatizadas, assustadas, imersas em imensa incerteza. As pessoas estavam em sofrimento pela perda de familiares, e havia crianças que tinham perdido os pais”, descreve ainda.

Com o direito de nacionalidade e cidadania na Birmânia negado, as pessoas da minoria rohingya sofrem há décadas perseguição e abusos das autoridades do país. Em 2017, uma campanha de violência levada a cabo pelo exército da Birmânia tomou os rohingya como alvo e forçou mais de 700 mil pessoas a fugirem para o vizinho Bangladesh. Passados quase três anos, continua a não haver nenhuma solução à vista.

“Os tripulantes do barco disseram-nos: ‘Vocês são refugiados em todo o lado’”, recorda Amina. “Disseram: ‘São refugiados na Birmânia, são refugiados no Bangladesh, aqui no barco e na Malásia também são considerados refugiados. Irão morrer para onde quer que vão.’”

Relatos recebidos pela MSF sugerem que há mais três barcos no mar, com outras mais de mil pessoas a bordo.

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