Editorial

O Brasil ameaçado pelo vírus do bolsonarismo

A forma como Bolsonaro usa o poder para se proteger e proteger o seu clã familiar de uma teia de suspeitas criminais que lhes tocam cada vez mais perto mete dó, revolta e indigna.

Os tempos difíceis mostram a fibra dos bons estadistas e revelam a indigência ou a natureza dos maus. Exemplos não faltam: a incompetência de Donald Trump, a propensão autoritária de Viktor Órban e a perfídia de Jair Bolsonaro estão aí para o provar. Mas se a forma como Trump tem gerido a crise da covid-19 mete dó, se a instauração de um Estado proto-autoritário na União Europeia revolta, a forma como Bolsonaro usa o poder para se proteger e proteger o seu clã familiar de uma teia de suspeitas criminais que lhes tocam cada vez mais perto mete dó, revolta e indigna. O Brasil, já o suspeitávamos, guiou-se pelo desespero da corrupção para eleger um homem ordinário; agora, já o sabemos, o Brasil está nas mãos de um presidente ordinário e perigoso. Pobre Brasil.

Já não é só a insensibilidade com que lutou contra o confinamento na pandemia que o desqualifica. Nem é o recente apelo ao regresso do Acto Institucional 5, que legitimou os assassinatos nos porões da ditadura militar, que o define. Bolsonaro, disse-o o ex-ministro Sérgio Moro na manhã em que se demitiu da pasta da Justiça, está a usar as suas prerrogativas presidenciais para matar a separação dos poderes no Brasil. Bolsonaro mudou o director da Polícia Federal porque este não o informava de investigações a casos que tocam de perto os seus filhos em inquéritos sensíveis como a criação de um “gabinete de ódio” no Palácio do Planalto para atacar desafectos, ou no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco. E trocou-o por um novo director que aparece em fotografias de festas com os seus filhos.

Sérgio Moro, o justiceiro do Lava-Jato, o juiz que recomendava nomes de testemunhas aos procuradores para garantir condenações, lembrou a Bolsonaro no discurso de saída que nem Lula da Silva nem Dilma Rousseff tentaram interferir na independência da Justiça, mesmo quando eram alvos de inquéritos que, no caso de Lula, os ameaçavam de prisão. Pôs dessa forma o Presidente abaixo até de figuras que acusou e condenou. E fez luz sobre o perigo que o Brasil enfrenta. Ferido pela pandemia, ameaçado pela crise, o país está entregue a um presidente capaz de tudo.

Se, depois de afastar Dilma com o célebre pretexto das “pedaladas fiscais” o Brasil tolerar Bolsonaro, passa uma certidão de óbito à sua já frágil democracia. O seu impedimento tornou-se por isso uma necessidade. Para salvar o Brasil e para lhe devolver o sentido da decência. E para mostrar ao mundo que os populistas com tiques autoritários são e serão sempre um problema, nunca uma solução.

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