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Moro confirma pressão de Bolsonaro para trocar chefia da polícia: “Quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”

Depoimento do ex-ministro da Justiça do Brasil, divulgado nas últimas horas, inclui mensagens enviadas pelo Presidente brasileiro através do WhatsApp. Mas não trouxe novas provas, e Moro sublinhou que nunca acusou Bolsonaro de qualquer crime.

Sergio Moro disse aos investigadores que os motivos da pressão "devem ser indagados ao Presidente"
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Sergio Moro disse aos investigadores que os motivos da pressão "devem ser indagados ao Presidente" Reuters/Adriano Machado

O ex-ministro da Justiça do Brasil, Sergio Moro reafirmou, num depoimento prestado no sábado e revelado pela primeira vez na noite de terça-feira, a acusação de que o Presidente Jair Bolsonaro o pressionou para substituir o director da Polícia Federal do Rio de Janeiro. No testemunho, Moro sublinhou que nunca acusou Bolsonaro de ter cometido qualquer crime e disse que os motivos da insistência “devem ser indagados ao Presidente”.

Durante mais de oito horas, no sábado, Sergio Moro transmitiu à Polícia Federal de Curitiba as declarações que fez em público dia 24 de Abril, na conferência de imprensa em que anunciou a sua demissão do Governo

Esperava-se que a divulgação do depoimento de Moro, na íntegra, trouxesse mais declarações comprometedoras para o Presidente brasileiro, e que apontasse para a abertura de uma investigação oficial por parte da Procuradora-Geral da República. Em última análise, seria o resultado dessa investigação – só possível após autorização da Câmara dos Deputados – que poderia pôr em perigo o futuro político de Jair Bolsonaro.

Mas as reacções iniciais ao depoimento do ex-ministro da Justiça não foram animadoras para os críticos do Presidente brasileiro, com alguns comentadores a classificarem-no como “fraquíssimo”. 

“O ex-juiz se negou a imputar crimes ao Presidente e apresentou poucas provas da intromissão do antigo chefe”, diz o colunista Bruno Boghossian no jornal Folha de S. Paulo.

Num dos exemplos da acusação de Moro contra Bolsonaro, o antigo ministro da Justiça entregou aos investigadores da Polícia Federal de Curitiba uma mensagem que diz ter recebido do Presidente brasileiro na aplicação WhatsApp: “Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro.”

Ao longo do seu depoimento, no sábado, Sergio Moro disse dez vezes aos investigadores que os motivos que levaram Jair Bolsonaro a querer substituir o director da Polícia Federal do Rio de Janeiro devem ser perguntados ao Presidente brasileiro – uma posição que é vista como uma forma de o ex-juiz da Lava-Jato evitar ser, ele próprio, acusado do crime de denúncia caluniosa. 

Sem novas provas das razões que motivaram a pressão do Presidente Bolsonaro, é provável que a Procuradoria-Geral do Brasil não peça à Câmara dos Deputados que a autorize a investigar o caso, diz a imprensa brasileira.

Mas quem acompanha o inquérito sobre as declarações de Sergio Moro sublinha, também, que a ausência de novas provas no depoimento de sábado não significa que a insistência de Jair Bolsonaro em afastar o director da Polícia Federal do Rio de Janeiro deva ser desvalorizada.

“As oito horas de declarações do ex-ministro evidenciaram apenas a fixação de Bolsonaro com um único posto. Embora a Polícia Federal tenha 27 superintendências regionais, Moro afirmou que o Presidente dizia querer ‘apenas uma, a do Rio de Janeiro”, sublinha Bruno Boghossian.

“Moro disse dez vezes à Polícia Federal [de Curitiba] que os motivos da pressão de Bolsonaro ‘devem ser indagados ao Presidente’. Dessa vez, ele não poderá mandar os investigadores se calarem”, afirma o colunista da Folha de S. Paulo.

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