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Chegou a hora!

As alterações climáticas não são míopes: para alterar a trajetória de aquecimento do planeta, a queda de emissões necessita ser acumulativa, contínua e de longo prazo.

Num piscar de olhos, o mundo tal como o conhecemos mudou. A pandemia global da covid-19 ceifou milhares de vidas e desfez os nossos referenciais de normalidade. O metabolismo das grandes metrópoles abrandou para mínimos nunca vistos, condicionando o movimento de cidadãos e suspendendo atividades comerciais e serviços não essenciais. 

Nas ruas ouve-se o silêncio e os céus voltaram a ser dos pássaros. Segundo a avaliação da Flightradar24, na primeira semana de Abril o tráfego aéreo mundial diminuiu mais de 60%, em relação ao mesmo período no ano passado. A necessidade de isolamento físico acelerou a tendência do teletrabalho e relações sociais remotas. Por exemplo, dias atrás, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa) organizou remotamente pela primeira vez na história da instituição uma reunião com mais de 270 cientistas de 65 diferentes países sobre o 6º relatório de avaliação a ser publicado em 2021.

Em Portugal, a redução das deslocações da população para locais de trabalho, residências, compras e recreação resultou numa queda de mais de 50% nas vendas de combustíveis rodoviários. O consumo de energia elétrica caiu moderadamente, onde o maior crescimento do consumo residencial não tem superado a queda no setor industrial. Esta redução de consumo teve repercussões nos mercados de oferta de energia, que respondem nervosamente. A guerra de preços do petróleo, juntamente com a pandemia da covid-19, criou uma tempestade perfeita no setor de petróleo e gás, criando um impacto de curto e médio prazos altamente negativo, com excesso de oferta, preços baixos e esgotamento de capacidade de armazenamento. Pela primeira vez na história, os contratos futuros do barril de petróleo negociado em Nova Iorque (WTI) atingem valores negativos resultando numa descida de mais de 300% em apenas um só dia.

Fruto dessas transformações, esta crise traduz-se em melhorias imediatas para o ambiente, designadamente através da redução das emissões de poluentes atmosféricos e gases com efeito estufa (GEE). De acordo com as medições do Índice Mundial de Qualidade do Ar, houve uma vertiginosa redução na concentração dos níveis de dióxido de azoto e materiais particulados nos centros de Lisboa e Porto. Estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla inglesa) sugerem uma descida de 8% das emissões de dióxido de carbono (CO2) em 2020 face a 2019. Por outro lado, sabemos que durante esta década o mundo precisa de reduzir suas emissões entre 6-7% anualmente para atingir neutralidade carbónica em 2050 e estabilizar o aquecimento global em 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais até ao final do século, conforme destacado no recente relatório especial do IPCC sobre trajetórias de aquecimento global de 1,5 graus Celsius. 

Sendo assim, será que as medidas de emergência contra a pandemia da covid-19 nos ajudarão a fazer frente à emergência climática decretada o ano passado pelo Parlamento Europeu? A resposta crua: (muito) provavelmente não. Embora seja inequívoco que a pandemia está a ter um impacto imediato nas emissões de GEE deste ano, as alterações climáticas não são míopes, isto é, para alterar a trajetória de aquecimento do planeta, a queda de emissões necessita ser acumulativa, contínua e de longo prazo. 

Na nossa história recente, a retoma económica na ressaca de grandes crises resultou num aumento expressivo de atividades carbono-intensivas. Contudo, este interregno é importante para refletirmos sobre o nosso papel como espécie e o nosso modus vivendis para contribuir com a sustentabilidade do planeta. 

O que vai acontecer agora que entramos na fase I de flexibilização das medidas de isolamento físico e retomarmos gradualmente às nossas rotinas? Provavelmente uma das maiores aprendizagens tenha sido o sucesso do “achatar a curva”, quer de contágios da covid-19 quer da perda de biodiversidade ou de emissões de GEE. Nos próximos meses, esperamos ansiosamente que virologistas descubram uma vacina para nos imunizar contra a covid-19. Porém, não podemos negligenciar a “vacina” para o nosso planeta. Se o nosso futuro for pautado pela trajetória das últimas décadas, a temperatura média global do planeta pode atingir níveis críticos para o sistema climático com impactos imensuráveis e irreversíveis. A luta contra a crise climática não depende apenas de descobertas científicas, mas sim de ações orquestradas por governos, setor privado e sociedade civil. 

Mais de 190 países de todas as regiões do mundo anunciaram ambiciosos estímulos económicos na sequência da pandemia da covid-19 superiores a oito biliões de dólares, segundo o Fundo Monetário Internacional. Há duas prioridades macroeconómicas a ter em consideração na definição desses estímulos para superar a crise atual: primeiro, assegurar que os consumidores tenham rendimentos; segundo, garantir a estabilidade do setor privado para manter empregos. Portanto, é essencial preservar níveis salariais mínimos, dinamizar ofertas de trabalho inclusivas e promover empresas saudáveis para que a atividade económica recupere após o período de isolamento. 

Contudo, há diversos fatores que os governos devem ponderar ao delinear os seus pacotes de recuperação económica. Tal inclui não apenas prioridades económicas no imediato, mas igualmente critérios de longo prazo, considerando a sustentabilidade no seu sentido mais amplo. Estes são os princípios de um Pacto Verde para o Mecanismo Europeu de Estabilidade defendidos por alguns países da União Europeia, incluindo Portugal. 

Nesse sentido, necessitamos refletir sobre os nossos padrões de consumo. A pandemia ensinou-nos que aqueles que vivem com excessos podem aprender a viver com menos e melhor. Nos últimos meses, mais de um terço da população mundial viu-se “confinada” em suas casas, recorrendo a serviços digitais e procurando produtos locais nos seus bairros de residência. Vimo-nos obrigados a introduzir considerações de glocalidade nas nossas rotinas, ou seja, a interiorizar uma dimensionalidade local na nossa sociedade globalizada. Assim, houve um rodopio nos pequenos comércios e restaurantes de bairro com uma mobilização dos serviços de entregas para atender pedidos de take-away. Aprendemos que é possível adotar um estilo de vida mais dependente de produtos locais que tendem a ser mais responsáveis do ponto de vista ambiental e social. 

Além disso, é importante considerar as implicações do desenvolvimento económico no contexto amplo do seu impacto no capital humano, natural e físico. Investir em bens públicos no longo prazo, como serviços de energia de baixo carbono, financiamento de programas de educação e investigação é a melhor forma de garantir maior resiliência e adaptação a choques futuros.

Tal como reforçou Fatih Birol, atual diretor da IEA, é necessário que os investimentos em energias limpas sejam o pilar dos estímulos económicos para recuperar a economia mundial. Ao invés de ceder a pressões de grupos económicos, incluindo grandes petrolíferas, este é o ponto estratégico para canalizar apoios às pequenas e médias empresas com atuação no mercado de energias limpas.

No setor agropecuário, que garante o alimento na nossa mesa, há a necessidade de mais investimentos em sistemas agroflorestais e pastagens regenerativas. A crise atual deve acelerar a transição europeia para uma economia de neutralidade carbónica e antecipar metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, liderando os compromissos do Acordo de Paris. Por outro lado, muitos especialistas consideram que medidas de precificação de carbono são um instrumento de mercado eficaz para penalizar atividades prevaricadoras do ambiente, beneficiando indústrias hipocarbónicas. 

Por último, é fundamental solucionar falhas de mercado, como subsídios às indústrias e atividades dependentes de energia fóssil, responsáveis por aproximadamente dois terços do total de emissões de gases de efeito estufa antropogénicas. Estimativas recentes indicam que subsídios globais rondam cinco biliões de dólares por ano, ou seja, 6,5% do PIB global. Num mundo sem estes subsídios perversos, as emissões de dióxido de carbono poderiam cair mais de 25%, as vítimas por poluição atmosférica teriam sido cortadas quase pela metade e a receita dos governos poderia aumentar em cerca de 3,8% o PIB mundial, conforme avaliado pelo Fundo Monetário Internacional.

Caminhamos para uma encruzilhada e não podemos desperdiçar as oportunidades criadas por esta emergência de saúde pública para solucionar a crise climática do planeta, igualmente emergencial. No momento em que Portugal e outros países da União Europeia se prepararam para atenuar progressivamente o regime de confinamento, é essencial refletir sobre os nossos valores individuais, no sentido humanista. Chegou a hora de darmos um passo decisivo e interiorizarmos que os nossos destinos estão interligados por um metabolismo planetário. As nossas ações individuais de hoje ditam a reconstrução da sociedade do futuro. Não podemos cometer os mesmos erros do passado. Ao retornar às nossas rotinas, viremos a página do velho normal e procuraremos mutatis mutandis novos princípios inovadores para uma sociedade mais inclusiva, sustentável e resiliente aos desafios do futuro. 

Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico.

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