Jerónimo Martins lucra menos 43,8% e corta dividendos

Grupo dono da rede Pingo Doce, Biedronka e Recheio vai distribuir menos 40% dos dividendos anunciados e retirou as perspectivas para 2020 devido à incerteza provocada pela covid-19. Em Fevereiro, o grupo previa investir 700 milhões este ano.

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Andreia Carvalho

A companhia Jerónimo Marins, maior grupo de distribuição português, registou resultados líquidos, após interesses minoritários, de 35 milhões de euros entre Janeiro e Março deste ano, o que representa uma quebra de 43,8% face aos primeiros três meses de 2019.

No período em análise, a dona da rede de supermercados Pingo Doce e da grossista Recheio, em Portugal, registou uma descida de 0,4% dos resultados antes de juros, impostos, depreciações e amortizações, para 309 milhões de euros, “reflectindo os primeiros efeitos da pandemia ao nível dos custos operacionais”, é afirmado no comunicado divulgado esta quarta-feira pela empresa ao mercado.

Num trimestre em que Março ficou “marcado” pela pandemia, o grupo viu as vendas líquidas aumentarem 11% para 4,71 mil milhões de euros. Até Fevereiro, antes da pandemia, salienta a gestão liderada por Pedro Soares dos Santos, o ritmo de crescimento acumulado era de 12,1%.

Na comparação like for like (LfL) – indicador do sector para comparar o mesmo parque de lojas em operação em períodos distintos, retirando da análise encerramentos e aberturas de unidades – o acumulado nos três primeiros meses resultou num crescimento de 9,5%.

Contudo, olhando para os dados desagregados que o grupo dá para Março, percebe-se o grau do impacto da pandemia na operação da distribuidora alimentar: enquanto a cadeia Pingo Doce via as vendas crescerem 7% (excluindo combustível) até Fevereiro, a evolução LfL inverteu para uma queda de 2,7% em Março.

A cadeia de “cash & carry” Recheio – dependente em 35% das vendas de clientes operadores do canal horeca (hotéis, restaurantes e cafés) – passou de um crescimento LfL de 3,9% nos dois primeiros dois meses de 2019 para uma queda de 6,7% em Março.

Na Polónia, a Biedronka desacelerou de um crescimento LfL de 13,2% (Janeiro e Fevereiro) para 7,4% em Março e a rede de farmácias e drogarias Hebe inverteu de uma subida de 12,4% para uma queda de 27,4%.

Nas lojas alimentares de proximidade na Colômbia, com a marca Ara, o crescimento LfL acelerou de 32,7% (até Fevereiro) para 37% em Março.

Custos adicionais de 15,5 milhões

A administração da JM adianta que, em Março, “os custos incorridos nas várias unidades de negócio e estruturas do grupo para garantir a segurança e a sustentabilidade das actividades estimam-se em cerca de 15,5 milhões de euros”.

Apesar das contas hoje divulgadas serem referentes ao primeiro trimestre, o grupo deu já indicações sobre a actividade. “Em Abril, sob medidas estritas de  circulação de pessoas e com limites relativamente ao número máximo de clientes por loja, as vendas registaram um crescimento de 6,5% (em  moeda  local) na Biedronka e uma redução de 16,3% no Pingo Doce, em relação ao mesmo mês de 2019”.

No mês em que Portugal esteve sob estado de emergência todos os dias, a gestão da JM adianta que “perante a impossibilidade de as famílias se reunirem para celebrar, a Páscoa deste ano, muito diferente da registada em Abril de 2019, também não contribuiu significativamente para o desempenho de vendas”.

Menos dividendos

Há, para já, duas consequências do efeito da pandemia nas decisões que a gestão comunicou esta quarta-feira ao mercado, ambas cautelosas.

Por um lado, o grupo avança que vai reduzir a distribuição de dividendos, em cerca de 40% face ao anunciado em Fevereiro passado, antes de a pandemia ter efeitos na economia portuguesa.

Primeiro, os dividendos. “Dado o actual contexto mundial e a elevada incerteza prevalecente, o conselho de administração decidiu propor na assembleia-geral, a realizar a 25 de Junho, a distribuição, para já, de dividendos no montante de 130,1 milhões de euros, revendo a distribuição de 216,8 milhões de euros anunciada a 20 de Fevereiro de 2020”, e que representavam metade dos lucros obtidos em 2019.

Segundo, as perspectivas para 2020. “Dada a falta de visibilidade e por prudência, revimos o programa de capex [investimento] e retirámos o guidance [perspectivas] para o ano”, avança a gestão de Pedro Soares dos Santos, afirmando contudo que as companhias do grupo “estão sólidas e preparadas para enfrentar os desafios que se venham a colocar e para efectuar os ajustes necessários”.

O grupo justifica esta decisão também porque “dada a imprevisibilidade actual da evolução da pandemia”, entende “não estarem ainda reunidas as condições necessárias para uma estimativa válida sobre o impacto potencial desta crise na actividade do ano”.

A estimativa anterior, divulgada a 20 de Fevereiro, era que o investimento para o ano de 2020 ficasse entre “700 e 750 milhões”, segundo o comunicado nesse dia emitido ao mercado.

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