Crónica

As polícias da maternidade das outras

Dos nossos, daqueles que cresceram dentro de nós, dos que nós parimos, ninguém sabe tanto como nós. Nem as sogras, nem as vizinhas, nem as amigas ou uma suposta expert de Facebook cuja formação consistiu na visualização de meia dúzia de vídeos no YouTube.

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"Se isto é mau na gravidez, toma toda uma outra dimensão depois do nascimento do bebé" insung yoon/Unsplash

Uma coisa que todas as mulheres deviam saber antes de engravidar é que existe uma classe de polícias que o próprio Ministério da Administração Interna desconhece. Essa classe, composta quase exclusivamente por mulheres, não sendo um exemplo em termos de organização ou metodologia, é bastante eficaz na função que atribuiu a si própria: policiar a maternidade das outras.

O primeiro contacto que temos com estes elementos ocorre geralmente durante a gravidez, e a sua atenção costuma focar-se naquilo que comemos. No meu caso concreto conheci esta classe quando, com uma barriga gigante, numa conhecida marisqueira lisboeta, comia alegremente e com as minhas ricas mãozinhas um maravilhoso prato de gambas da costa cozidas. Juro que conseguia sentir, mesmo sem olhar, as miradas de fogo que a senhora da mesa ao lado deitava na minha direcção. E quando me levantei para ir à casa de banho, eis que sua excelência me segue e diz “Ó menina, grávida dessa maneira e a comer marisco? Não sabe que isso pode fazer mal ao bebé?”.

Agora penso que, se calhar, lhe devia ter respondido. Havia tanto para dizer… Mas na altura só lhe lancei um olhar de desprezo e segui caminho porque, como toda a gente sabe, bexiga de grávida é uma emergência que não se compadece com abelhudos.

Mas avancemos. Nós e as polícias, claro. Porque se isto é mau na gravidez, toma toda uma outra dimensão depois do nascimento do bebé (ou dos bebés, no caso de serem gémeos). E antes que me esqueça, deixem-me alertar-vos que, apesar da organização precária, há um departamento particular desta polícia que funciona de forma bastante agressiva e ininterrupta, o verdadeiro terror 24/7: a brigada das fanáticas da amamentação. Não me quero alongar muito sobre este tema em particular porque tenciono escrever-lhes uma carta de amor um dia destes, mas lanço-vos um pequeno repto: experimentem dizer perto de um elemento deste grupo que não vão amamentar por opção e depois venham cá contar-me como correram a vossa detenção e posterior julgamento.

De qualquer forma não pensem que é na amamentação que o policiamento se esgota. Longe disso. Durante os primeiros meses de vida dos vossos filhos vão ser vigiadas sobre temas tão variados como o peso dos vossos filhos, a forma como fazem a diversificação alimentar, as papas que lhes oferecem, o facto de os transportarem ou não num pano e, espantai-vos minha gente, até pela marca das cadeiras auto que decidirem comprar. É toda uma panóplia de situações, todo um mundo de oportunidades para serem escrutinadas, indagadas e, em alguns casos, até mesmo ofendidas.

Como é que se lida com isto? Suponho que haja diferentes formas, mas, no meu caso concreto, gosto particularmente da filosofia do cavalo em parada. Uma pena que seja demasiado carroceira para descrever num jornal de referência. A verdade é que, salvo raríssimas excepções, acreditem que cada mãe, cada uma de nós, sabe o que é melhor para os seus filhos. Dos nossos, daqueles que cresceram dentro de nós, dos que nós parimos, ninguém sabe tanto como nós. Nem as sogras, nem as vizinhas, nem as amigas ou uma suposta expert de Facebook cuja formação consistiu na visualização de meia dúzia de vídeos no YouTube.

Sei bem que não é fácil ignorarmos as opiniões que não pedimos, sei bem que a confusão hormonal e o cansaço nos empurram para lugares negros onde, embaladas pelo coro de vozes que nos criticam, começamos a questionar se realmente estamos a fazer o mais correcto. Há momentos em que nos sentimos a falhar em toda a linha e em que começamos mesmo a achar que talvez a razão não esteja do nosso lado. Mas sabem, nesses momentos o melhor é sempre olharmos para os nossos filhos e percebermos como eles estão bem, como são crianças felizes, como as nossas escolhas têm resultado até aqui. E depois é ignorar.

É que elas até se podem achar polícias, mas a verdade é que só têm a autoridade que cada uma de nós lhes concede.

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