Cannes 2020 brevemente nos cinemas perto de si

Estão seleccionados para Cannes 2020 ou estariam se...? O festival resolve o dilema e foca-se na abertura das salas, anunciando os filmes que vai ajudar a promover no lento despertar de um sono de três meses. São cerca de 50, e neles encontramos Wes Anderson, Sharunas Bartas, Thomas Vinterberg ou Steve McQueen, este em dose dupla. O britânico dedica os seus dois filmes a George Floyd e a todos os negros que foram assassinados pelo facto de serem negros em qualquer ponto do mundo.

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Lovers Rock, um dos dois filmes de Steve McQueen que o britânico dedica a George Floyd e a todos os negros que foram assassinados pelo facto de serem negros, nos EUA, no Reino Unido e em outro lugar qualquer
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The French Dispatch, de Wes Anderson, teria sido o filme de abertura de Cannes 2020 se tivesse havido Cannes 2020
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Dusk, de Sharunas Bartas, co-produção da portuguesa Terratreme
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Um dos "novos" com a marca Cannes: Oskar Roehler e L’Enfant Terrible, teatralização do impacto de uma existência “terrível”, a de Rainer Werner Fassbinder
,Filmes de gangorra
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De Francis Lee, Ammonite, com Kate Winslet e Saoirse Ronan como casal lésbico no século XIX
,Mads Mikkelsen
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De Thomas Vinterberg, Another Round: Mads Mikkelsen a atravessar a crise dos 50
,Polisse
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ADN, de Maiwenn: no cast ainda Fanny Ardant, Louis Garrel e Marine Vacth

Como se deve dizer? “Foi seleccionado para o Festival de Cannes” ou “teria sido seleccionado para o Festival de Cannes”… se tivesse havido Festival de Cannes em 2020? O festival dá um salto sobre este dilema e adopta um “brevemente num cinema perto de si” –​ Thierry Frémaux dixit.

Depois de a edição 2020 ter sido cancelada em Abril, consequência de um vírus, algo que só acontecera uma vez na história do festival, em 1939, por causa da Segunda Guerra Mundial (a edição de 1968 foi interrompida…), e numa altura em que as salas de cinema acordam lentamente do seu longo sono de três meses, o delegado-geral do festival e o seu presidente, Pierre Lescure, apresentaram, no cinema UGC Normadie nos Campos-Elísios de Paris, e em formato de entrevista ao Canal Plus, cerca de 50 filmes a que o festival, numa resposta acrobática à severidade imposta pela covid-19, dá a sua marca.

Cannes é o único festival que poderia fazer isto, note-se. É o único que pode atrair as atenções (é por isso que estamos aqui, afinal) sobre uma escolha que nunca chegou a ser programação mas que ficará a pairar nas nossas fantasias, com quem ficaremos a “conversar” e até a debater  virtualmente  porquê este filme e o que aconteceu àquele outro...

É uma curadoria, que vai acompanhar esses títulos à medida que começarem a chegar às salas e ao público, agora que se começa a ver a luz ao fundo de uma escuridão de três meses que é um inédito cinematográfico: a “primeira vez desde a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière a 28 de Dezembro de 1895”, notava Frémaux numa nota editorial que lançou nas vésperas deste anúncio.

Sobre a real capacidade interventiva desta iniciativa é precoce adiantar o que quer que seja, é por natureza um work in progress a que se regressará para balanço. Por isso vamos à lista. Começando pelos que os programadores assumiram ser os “fiéis”: Wes Anderson (The French Dispatch)Thomas Vinterberg (Another Round, com Mads Mikkelsen a atravessar a crise dos 50), Naomi Kawase, Sharunas Bartas (Dusk, de que a portuguesa Terratreme Filmes é um dos co-produtores), François Ozon (Été 85, que se estreia em França na abertura das salas, a 15 de Julho), Maiwenn (ADN, em que a cineasta de Polisse, premiada várias vezes no festival, se filma a regressar às suas origens argelinas), Fernando Trueba, Lucas Bélvaux (Des Hommes, com Gérard Depardieu, “sobre os que fizeram a guerra na Argélia e regressaram diferentes"), Jonathan Nossiter, o realizador de Mondovino, agora com Last Words, ou Steve McQueen, de quem foram seleccionados dois títulos, Mangrove e Lovers Rock, que contam diferentes histórias de uma comunidade negra de Londres, dos anos 60 aos anos 80, ameaçada pela polícia. O realizador já os dedicou a “George Floyd e a todos os negros que foram assassinados, quer isso tenha sido testemunhado ou não, pelo facto de serem negros, nos EUA, no Reino Unido e em outro lugar qualquer”.

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Thierry Frémaux e Pierre Lescure no UGC Normandie

Depois, os “novos” em Cannes e os que (mesmo que conhecidos em outras funções) estão a fazer o seu primeiro filme. Aí a lista é imensa, e pode causar a sensação de névoa ou de vale tudo, de Pascual Sisto, Danielle Arbid, Nicolas Maury, Charlène Favier, Ninja Thyberg ou Oskar Roehler (Enfant Terrible, teatralização do impacto de uma existência “terrível”, a de Rainer Werner Fassbinder) a Francis Lee (Ammonite, com Kate Winslet e Saoirse Ronan como casal lésbico no século XIX – comparações evidentes estabelecidas por Frémaux com Retrato de uma Rapariga em Chamas), passando por Viggo Mortensen, esse mesmo, o actor, que realiza Falling. É uma abertura do festival, que ainda vai buscar cinco comédias francesas e um filme de sketches sobre a história de Hong Kong (com os nomes de Ann Hui, Johnnie TO, Tsui Hark, Sammo Hung, Yuen Woo-Ping e Patrick Tam), o que só é possível pelo lugar deixado vago por títulos que, Frémaux assumiu, preferiram esperar por Cannes 2021. O que significa já agora que parte da edição do próximo ano está alinhada e incluirá, tudo indica, Benedetta, de Paul Verhoeven, sobre os distúrbios místicos e eróticos de uma freira no século XVII, cuja estreia comercial foi adiada para Maio de 2021, mês de… Cannes. Poderá perguntar-se se foi essa também a escolha de Memoria, de Apichatpong Weerasethakul, o filme em língua inglesa, com Tilda Swinton, do tailandês, ou de outras ausências que eram esperadas como certas para Cannes 2020 quando o mundo ainda não tinha mudado.

Esta é uma selecção que quer contribuir com a sua caução para o regresso às salas. Aposta em filmes cujos produtores, cineastas e distribuidores querem fazer chegar aos espectadores até ao final do ano. O delegado-geral até escreveu no tal texto que serviu de editorial que em vez da pergunta “este é um filme para Cannes?” o seu comité de selecção andou às voltas com uma outra: “Não é um filme perfeito para fazer as pessoas regressar às salas?”. É um assunto “crucial” para Frémaux & Ca., o das salas. Prova, se necessário fosse, de que os duelos com a Netflix e a decisão de não aceitar em competição filmes que têm o streaming como destino não são birra francesa. São talvez uma teimosia, mas teimosia necessária. Tal como a de manter o mais importante festival do mundo como experiência física. É por aí também que ele se justifica, e voltamos ao tal editorial, sobre a mais de duas dezenas de títulos franceses, o que pode ser visto como excessivo: a qualidade das propostas levou a esse número, diz, não é “tratamento favorável”, e para além disso Cannes pode intervir directamente no panorama das estreias nacionais. De resto, acrescentava, é uma decisão política justa: a França, segundo ele, é um exemplo de combate no cinema que produz, dentro do hexágono e fora dele.

Mais algumas coisas que sabemos sobre os filmes: a marca Cannes pode ser “exibida” em outros festivais e a Croisette chegou a acordo com dois deles, San Sebastián e Toronto, que estão dispostos exibir na sua competição títulos do festival francês, suspendendo um dos interditos dos festivais de nível A. Mas nada de acordos com Veneza... que parecia há meses, através de declarações do seu director Alberto Barbera, disponível para amar Cannes. Talvez porque, e isso explica outras ausências, o Lido apanhou alguns filmes para a sua competição, na sua tal edição “experimental” de Setembro que misturará o digital com a experiência física, e um deles pode ser Tre Piani, de Nanni Moretti.

Tendo começado a apresentação com um filme americano, o de Wes Anderson, “cada vez mais próximo da BD”, a sessão acabou com Soul, de Peter Docter, uma produção da Pixar.

Os títulos das curtas-metragens do concurso oficial e da competição da Cinéfondation serão divulgados “nos próximos dias”. E poderá haver produções portuguesas.

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