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Megafone

A vida é para ser vivida

Estamos presos à maior fatalidade dos nossos tempos, que é a “falta de tempo”, e à cegueira do “tem de ser concluído o quanto antes”. E a essa sobrevivência chamamos nós viver. Mas será isso viver?

A nossa existência está constantemente em risco. Não é a forma mais animada de iniciar uma crónica, mas o facto é que esta é uma verdade incontestável. Na nossa vida, morrer é a possibilidade mais certa, aliás, a única certeza que todos temos logo quando nascemos. Lembro-me, na minha juventude, de gritar ao meu pai que os problemas e desgraças podiam acontecer em qualquer lado e a qualquer hora quando o meu pai respondia ao meu desejo de sair à noite com um “Não há melhor andar, que em casa estar”. Esta frase tinha o dom de me enlouquecer, confesso.

Sempre tive, e penso que todos nós temos, mais cedo ou mais tarde, esta certeza de que a vida que nos é dada tem um prazo de validade e que, findo esse prazo, partiremos deste mundo. A maior parte de nós apercebe-se desta realidade aquando da primeira morte de alguém mais próximo. Até esse momento sentimos que é algo que pode acontecer, mas que está lá bem longe. A primeira morte de alguém próximo obriga-nos a colocar firmemente os pés na terra e a perceber que, afinal, a morte não acontece só lá longe e que a possibilidade da mesma é algo com que temos de aprender a viver, diariamente.

Mas, passado o primeiro momento de tristeza, depressa aprendemos a viver sem pensar muito na possibilidade da morte. Até porque não temos tempo para pensar nessa possibilidade. Para não enlouquecermos com essa ideia, procuramos esquecer que a vida pode acabar num piscar de olhos; que, num repente, um acidente acontece, uma doença chega ou até que o inesperado acontece, tal como a chegada de um vírus que, em menos de nada, nos coloca numa situação de pandemia.

Contudo, é um facto que não podemos negar: a vida está constantemente em risco. Morrer é uma possibilidade. O caos acontece nas nossas vidas e no nosso mundo, num fósforo. E por mais correcta e adequada que seja a vida que levamos, nada disso nos pode livrar de uma doença ou de uma morte prematura. A morte acontece e não pode ser evitada.

Aqui chegados, tenho de esclarecer que não é minha vontade, agora que fomos presenteados com dias de sol brilhante, pôr-vos a pensar na morte e na sua inevitabilidade. Muito pelo contrário! A ideia é pensar na vida e reflectir sobre a melhor forma de a gerir. Estes tempos de confinamento, de distanciamento social (que devemos cumprir), podem levar-nos a olhar para a vida de uma forma ainda mais rotineira.

A verdade é que já antes deste vírus muitos de nós estávamos presos a horas marcadas por “trabalho/casa/telejornal/série/dormir”. E todos os dias se repete esta receita, sensaborona. Passamos a semana a suspirar por um fim-de-semana que há-de chegar. E, quando chega, que fazemos? Ora, aproveitamos para fazer aquela limpeza máxima na casa. Aproveitamos os dias de sol para lavar e secar a roupa toda que podemos, para assim estarmos mais livres durante a semana. Preparamos a próxima semana de trabalho, porque assim será mais fácil o decorrer da mesma. Pergunto: quanto do tempo de fim-de-semana é aproveitado em prol de actividades nossas e que nos fazem bem (não só ao corpo, mas também à alma)? Estamos presos à maior fatalidade dos nossos tempos, que é a “falta de tempo”, e à cegueira do “tem de ser concluído o quanto antes”. E a essa sobrevivência chamamos nós viver. Mas será isso viver? Será que quando a morte chega (cedo ou tarde) o nosso último pensamento vai para a casa limpa que deixamos, as roupas passadas e arrumadas no guarda-fatos, para os relatórios muito bem redigidos ou para aquela reunião em que, finalmente, conseguimos brilhar?

Não creio. No final da vida, o que realmente importa são aqueles momentos que foram preenchidos de vida: os momentos de qualidade que partilhámos com os nossos, aqueles momentos perfeitamente loucos em que rimos e gargalhámos, aqueles momentos em que nos permitimos ter tempo para parar e observar o mundo que nos rodeia. Os acontecimentos que contam são aqueles em que, de facto, sentimos que nos estávamos a divertir e a aproveitar a vida com tudo o que de bom ela tem para nos oferecer. A vida, a amizade e o amor não podem ser cronometrados. Não podemos pensar que não temos tempo para isso. Temos a obrigação de construir esse tempo e de o viver intensamente. 

Não faz sentido viver sem diversão. Não faz sentido viver sem fazer aquilo que nos faz feliz; tal como não faz sentido viver sem aqueles que amamos efectivamente, aqueles que tornam o nosso mundo menos cinzento e mais brilhante, por falta de tempo. Por fim, não faz sentido viver de um modo morno sem criar memórias dignas de relembrar no momento em que abandonarmos este mundo. No fim de tudo, o que importa e o que fica são os momentos em que nos sentimos verdadeiramente felizes e vivos.

Há que relembrar: estamos aqui. Não sabemos por quanto tempo. É a vida. Desfruta-a até a festa acabar.

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