Crónica

É urgente despolarizar

A luta contra a covid-19 ou a luta contra o racismo não pode ser levada para a dicotomia direita/esquerda que só vem desagregar lutas que são fulcrais para a nossa existência.

"Não tornem estas lutas mais uma arma de arremesso político, pois só lhes tira a força merecida"
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"Não tornem estas lutas mais uma arma de arremesso político, pois só lhes tira a força merecida" LUSA/FERNANDO VELUDO

Vai ser mesmo importante as pessoas saberem discordar, sem serem tão desagradáveis. Há três meses que atirei para o ar a profecia de que este ia ser o período mais difícil das nossas vidas, e infelizmente não me enganei. Temos de combater o maior desafio de saúde pública do mundo ocidental dos nossos tempos, antevê-se a pior crise económica desde 1929 e com ela a gritante crise social. E acresce a estas o desafio da nossa gestão de sentimentos, porque todos sofremos e todos estamos a sofrer, e aceitá-lo é um importante primeiro passo.

E este desequilíbrio de emoções pouco saudável traduz-se num extremismo de opinião, numa revolta para com todas as visões diferentes da nossa, e assim uma polarização de posições extremadas que nos tiram a alegria de viver e só catalisam a raiva e o ódio de homens contra homens. É urgente saber despolarizar e regressarmos a um ponto em que sabíamos discordar sem ser ofensivos. E se não for pedir demais perceber que há questões que não podem ser politizadas. A luta contra a covid-19 ou a luta contra o racismo não pode ser levada para a dicotomia direita/esquerda que só vem desagregar lutas que são fulcrais para a nossa existência.

Estamos todos a sofrer, estados todos mais sensíveis. É preciso perceber isso para nos protegermos de fazer mal a nós próprios e aos nossos, que almejamos proteger. À mínima diferença ideológica empurramos as pessoas para o grupo dos Hitlers ou dos Estalines, e esta polarização é perigosíssima.

É normal que para alguns seja mais importante ir à missa do que festejar o 1.º de Maio, como é normal o seu contrário. É normal que se respeite a gravidade terrível da covid-19 e ainda assim se escolha viver mais livremente, como é normal que critiquem quem o faça. É normal que todo o mundo se indigne com o crime hediondo e cobarde que ocorreu em Mineápolis e que tem contornos racistas óbvios demais para serem questionados, mas também é normal que para alguns ainda não seja tempo de grandes manifestações na rua por mais justa que seja a causa. Não tornem estas lutas mais uma arma de arremesso político, pois só lhes tira a força merecida.

Tem de haver espaço para a compreensão da gravidade da covid-19 e balançá-la contra os efeitos nefastos económicos e comportamentais, mas sem abrir espaço para teorias negacionistas ou da conspiração bacocas e ignorantes.

Tem de haver espaço para compreender que o racismo é dos maiores flagelos dos EUA e do mundo, mas balançá-lo com os efeitos destrutivos de manifestações contaminadas com pessoas mal-intencionadas de extrema-direita e extrema-esquerda, e mais ainda o desrespeito para com as forças policiais, elemento essencial para que vivamos em paz.

É urgente despolarizar, tirar a conversa dos extremos pois há sempre alguma razão em quase todos os argumentos das pessoas que vêm por bem. Lembrem-se que o nosso coração, ainda está frágil, reactivo, impulsivo e com isso estamos mais irritadiços nas nossas opiniões, o que só catapulta os conflitos.

Sensatez precisa-se! Apaziguar a alma e despolarizar.

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