Estas meias são obras de arte feitas em Portugal — e querem dar a volta à crise

Meias ilustradas por artistas portugueses vão apoiar sectores mais afectados pela crise causada pela pandemia. Projeto Volta quer valorizar o que é “100% nacional”.

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Projeto Volta lança colecção com 12 pares de meias ilustradas por artistas portugueses DR

A ideia surgiu durante o confinamento. O economista e gestor Tiago Rodrigues, 35 anos, escreveu um texto sobre como ajudar a economia a ficar à tona de água cujas linhas mestras eram dar prioridade ao que era nacional e local. O amigo de infância, Tiago Esteves, também com formação em gestão, leu o artigo e desafiou-o a levarem os argumentos à prática. “Esta conversa aconteceu num domingo à noite, na segunda-feira delineámos todo o conceito”, recorda Tiago Rodrigues ao P3. 

Dois meses depois nascia o Projeto Volta, uma marca de vestuário solidária para ajudar a dar a volta à crise económica imposta pela pandemia da covid-19. “Lembrámo-nos das meias por ser um produto simbólico”, explica Tiago. “E pensámos logo nos sectores mais afectados.” Dos vinhos aos queijos, passando pelo turismo e pelo sector têxtil, os dois amigos não quiseram deixar de fora quem está na linha da frente: a saúde, as forças de segurança, a distribuição. 

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"Meias Cura", da artista urbana Glam, apoiam o sector da saúde DR

A fórmula para materializar esse apoio surgiu juntando 12 artistas portugueses a 12 associações de cariz económico e social. “Também os artistas foram muito afectados, com trabalhos e exposições cancelados”, diz Tiago Rodrigues. Decidiram que cada par de meias do Projeto Volta ilustraria um dos sectores escolhidos. Cada par de meias tem o valor de 12,50 euros, em dos quais um euro reverte para a associação que representa esse sector. 

Nas Meias Cura, por exemplo, a artista urbana Catarina Monteiro, conhecida como Glam, ilustrou o sector da saúde. “A minha ilustração é uma homenagem a todos os recursos de cura e profissionais de saúde, cujo empenho é essencial no bem-estar de todos, principalmente na era actual que vivemos”, lê-se no pequeno texto que escreveu para o site do projecto. Parte das receitas deste par de meias reverterá para o CHLC — Centro Hospitalar Lisboa Central.

Da colecção fazem parte outros modelos como as Meias Casta, desenhadas pelo artista urbano AKA Corleone (ver vídeo abaixo) e que apoiam o sector dos vinhos, através da ViniPortugal – Vinhos de Portugal. “Seleccionámos associações a nível nacional que conseguem ter um impacto grande, têm muito dinamismo e são motores dos seus sectores, como é o caso da ViniPortugal, mas também associações a nível local, como a Associação Nacional de Caprinicultores de Raça Serrana (ANCRAS)”, explica Tiago Rodrigues, recordando que, durante o período da Páscoa, mergulhados na quarentena, os produtores de cabritos viram-se numa situação desesperada e, com a ajuda da ANCRAS, conseguiram chegar directamente aos consumidores. 

Tiago Rodrigues e Tiago Esteves avançaram com o investimento inicial necessário para a confecção e venda das meias, numa “ajuda directa também ao sector têxtil”, mas o restante projecto assenta num modelo de partilha de receitas. O entusiasmo dos artistas foi imediato, e têm recebido mais propostas e contactos de outros artistas que se querem associar ao projecto. Os perfis são diversos, da arte urbana (AKA Corleone, GLAM) à pintura (Margarida Fleming), passando pelo design gráfico.

As meias são confeccionadas na fábrica da My Dara International, na Lousã. Inês Costa Monteiro
"Toda a cadeia de valor é portuguesa, da confecção à distribuição", explica Tiago Rodrigues, um dos criadores do Projeto Volta. Inês Costa Monteiro
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Inês Costa Monteiro

Numa semana venderam 200 pares de meias e estão optimistas quanto ao futuro. Preparam o lançamento de uma segunda colecção e já há planos para novos produtos e parcerias, mantendo a marca 100% nacional: “Toda a cadeia de valor é portuguesa, da confecção à distribuição”. A confecção é feita na Lousã, na My Dara Internacional; já as embalagens são fabricadas em Guimarães, por exemplo. A preocupação foi também a de criar um produto sustentável, minimizando o impacto ambiental e valorizando a justiça social e económica do processo de produção. “Não estamos a usar algodão orgânico, por exemplo, porque não havia a variedade de cores que precisamos disponíveis, mas queremos fazê-lo no futuro”, avança Tiago Rodrigues. 

Os dois amigos acabariam por arriscar fazer algo fora do seu papel de gestores e criar um modelo de meias com a sua marca, com a assinatura “TIAGOs”. Nas meias figuram rostos de personalidades nacionais reconhecidas, de várias gerações, como Fernando Pessoa, António Variações, Amália ou Vhils. Com o modelo idealizado apoiaram o sector do empreendedorismo, através da ANJE – Associação Nacional Jovens Empreendedores, que não queriam deixar de fora. “Queremos mostrar que é possível criar algo novo mesmo em tempos difíceis.”

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Inês Costa Monteiro
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