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Depois de dar à costa numa praia na Carolina do Norte, em Janeiro, uma tartaruga-verde prepara-se para regressar ao oceano, em Maryland. Karin Brulliard/Washington Post

Chegaram feridas e geladas. Agora estas tartarugas voltam ao mar

Em Cape Cod, Massachusetts, as correntes frias estão a afectar as tartarugas, que acabam por chegar à costa com graves ferimentos — e as alterações climáticas podem ser as responsáveis. Em Maryland, foram devolvidas ao mar dez tartarugas.

Sete meses depois de dar à costa nas praias de Cape Cod, no estado de Massachusetts, uma tartaruga procurava pela praia enquanto era mantida no ar, pelas mãos do segundo mais alto representante eleito de Maryland. Está longe de ser a coisa mais estranha a acontecer a esta pequena tartaruga-de-kemp, uma nativa do golfo do México, desde que foi parar às águas frias do Norte, em Novembro. A temperatura corporal diminuiu, impossibilitando-a de nadar. Foi um grupo de voluntários que a encontrou quase morta na praia. Depois, foi trazida até Baltimore e aquecida pelos funcionários do aquário, que a chamaram Muenster e trataram da pneumonia. A tartaruga nadou numa piscina junto de outras tartarugas feridas (também elas com nomes de tipos de queijo) sem saber que, lá fora, a paralisação causada pela pandemia estava a atrasar o seu regresso às águas do Atlântico.

De calças de ganga arregaçadas até aos joelhos, Boyd Rutherford, o vice-governador republicano de Maryland, deixou a tartaruga nas ondas enquanto os visitantes da praia aplaudiam a acção, que representa um raio de esperança em tempos conturbados para o país. Sem olhar para trás, Muenster tornou-se a primeira das dez tartarugas-de-kemp a remar nesta manhã de Junho num oceano que, de algum modo, se tornou mais hospitaleiro para os répteis marítimos, mas que, segundo alguns indicadores —​ águas mais quentes e furacões mais intensos — se pode estar a tornar mais perigoso. 

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À esquerda, Kate Shaffer, responsável pela reabilitação no aquário de Baltimore, apresenta Muenster, a tartarug-de-kemp que está nas mãos do vice-governador de Maryland, Boyd Rutherford. Karin Brulliard/Washington Post

Seis de sete espécies de tartarugas marinhas estão ameaçadas ou em risco de extinção e as populações estão a ser reduzidas devido ao desenvolvimento das praias onde nidificam, à poluição das águas, às linhas e redes de pesca que as apanham acidentalmente, à caça e ao comércio. Mas apesar desse cenário sombrio, a situação dos animais que atravessam águas americanas parece mais positiva, de acordo com um estudo recente: a protecção das espécies ameaçadas ajudou seis de oito populações a aumentar.

As tartarugas-verdes que nidificam na Florida viveram uma experiência de “notável recuperação”, diz o estudo, tanto que o seu estado evoluiu de “em risco de extinção” para “ameaçadas”. No entanto, alguns especialistas estão preocupados que o aumento da intensidade dos furacões, que pode dever-se ao aquecimento global, represente uma ameaça crescente para as praias das tartarugas marinhas.

As tartarugas-de-kemp, como Muenster, a espécie mais ameaçada, são um caso diferente. As tartarugas jovens, dos dois aos cinco anos, costumam passar os meses de Verão nas praias de Massachusetts, onde se alimentam. Enquanto os ferimentos das tartarugas podem ser causados por emaranhamentos em redes, doença ou até pancadas de barcos, as tartarugas-de-kemp costumam ser atordoadas pelo frio: depois de seguirem as correntes oceânicas pelo Atlântico até ao golfo do Maine, aquelas que ficam por lá demasiado tempo acabam por ir parar a águas demasiado frias — talvez por ficarem presas no “gancho” de Cape Cod.

“Acho que estes pequeninos têm um sentido inato de que quando as temperaturas baixam, têm de nadar mais para Sul”, afirma Kate Mansfield, a bióloga que dirige o Grupo de Investigação de Tartarugas Marinhas da Universidade da Florida Central. “Mas se estiveres naquela zona de Cape Cod e tentares ir para Sul, vais ter à praia.”

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Praias de Cape Cod, em Massachusetts. Taylor Rooney/Unsplash

O número de tartarugas atordoadas pelo frio em Cape Cod varia anualmente, mas tem vindo a crescer. De acordo com o Santuário de Vida Selvagem Mass Audubon Wellfleet Bay, houve pouco mais de 200 animais afectados em 2010. Em 2014, bateu-se um recorde com 1241; em 2018, mais de 800. No Inverno passado, 301 tartarugas deram à costa.

O New England Aquarium, em Massachusetts, consegue recuperar algumas, mas os números elevados exigem que mais instalações recebam os animais. Quase todas têm pneumonia  que nas tartarugas marinhas resulta em respiração áspera e muitas têm problemas gastrointestinais e feridas externas, relatou Kate Shaffer, responsável pela área de reabilitação no National Aquarium de Baltimore, que cuidou das tartarugas que foram soltas. O pior caso a dar entrada no aquário na temporada passada, Mascarpone, chegou com um olho tão magoado que a equipa nem tinha a certeza se ele estava mesmo lá (estava, e recuperou).

“O processo de uma tartaruga que vai parar à praia contra a sua vontade é difícil. Provavelmente, andou às cambalhotas nas ondas”, disse o CEO do aquário de Baltimore, John Racanelli. “Muitas delas chegam com lesões nos olhos.”

Ainda não é claro o que estará a causar a onda de frio na baía de Cape Cod, embora alguns especialistas acreditem que possa ser um bom sinal mais ninhos significam mais dificuldades. Mas investigadores na Universidade de Massachusetts em Amherst concluíram, num estudo publicado no ano passado, que está relacionado com o aumento da temperatura da superfície do mar graças às alterações climáticas, e não com o aumento no número de novos animais. O golfo do Maine está a aquecer de forma particularmente rápida, o que pode fazer com que as tartarugas se expandam mais para Norte, escreveram os especialistas.

O mesmo estudo dizia que, embora os esforços de reabilitação como o que levou Muenster de volta ao oceano provavelmente salvem apenas uma percentagem minúscula das tartarugas-de-kemp, estes são críticos para continuar a “reforçar a resiliência da população”. Ou como disse Racanelli, parado na praia sob nuvens de neblina: “Este é um lugar onde podemos intervir e realmente fazer algo de bom para uma espécie... Só precisam de uma oportunidade de voltar para suas pequenas rotas.”

O aquário escolhe um tema todos os anos ao nomear os animais resgatados que recebe, e foi assim que nesta temporada as 35 tartarugas foram baptizadas com nomes de queijo. Das dez lançadas na semana passada, quatro eram tartarugas-de-kemp e seis eram tartarugas-verdes, que encalharam na Carolina do Norte, onde os animais podem ficar gelados por causa de ondas de frio incomuns. A primeira tartaruga atordoada pelo frio do aquário de Maryland, Cheddar, chegou nesta temporada, mas não sobreviveu. “Este lote em particular neste ano foi um grupo bastante difícil de tartarugas”, disse Shaffer.

Muenster, a estrela do dia (já que foi o 300.º animal reabilitado pelo aquário), deveria ter voltar ao mar no Inverno na Florida, mas ainda não estava suficientemente saudável. Depois disso, o lançamento planeado para Abril foi adiado por causa do novo coronavírus

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As tartarugas, todas com nomes de queijos, chegaram a Assateague em caixas de bananas. Karin Brulliard/Washington Post

Em Junho, as praias estavam abertas para humanos e tartarugas. Mas o lançamento na semana passada não foi típico. Foi realizado no Parque de Assateague, em vez de um local mais movimentado, como Ocean City, na esperança de um maior distanciamento social para todos os presentes. Os voluntários, a espinha dorsal do programa de reabilitação do aquário, não foram informados sobre o evento pelo mesmo motivo. A equipa do aquário cumprimentou-se como se estivesse numa reunião de família; a maioria não se via desde Março. Todos usavam máscaras e desinfectante para as mãos.

“Em tempos normais”, disse Racanelli, “estaria em Baltimore a gerir o aquário” e “à procura de doadores”. Mas o aquário estava fechado. “É bom estar aqui para vê-lo”, disse ele. "Precisamos de esperança.” As tartarugas foram retiradas de um camião branco, uma a uma, cada uma a descansar numa toalha em cima de uma caixa de cartão de bananas Chiquita doada por um supermercado.

Enquanto caminhavam em direcção ao oceano, os membros da equipa levaram Brie e Mascarpone, os dois “cavalheiros” de Kemp, por uma fila de espectadores atrás de uma fita amarela e cones alaranjados. Implantaram-lhes tags semelhantes a microchips para animais de estimação para que possam ser identificadas se se perderem novamente. Acontece.

As tartarugas moviam as suas barbatanas para frente e para trás, como se já estivessem no mar. “Espero que aproveites o oceano!”, gritou uma mulher.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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