Adiar idas ao hospital é atrasar o diagnóstico e o estadiamento de cancro

“Cancro: Cuidar dos doentes em tempo de pandemia” foi o tema do webinar realizado pelo Público e pela Roche, no passado dia 29 de junho, em directo a partir da homepage e da página de Facebook do jornal. O debate veio responder a algumas dúvidas que os doentes oncológicos têm e que tipo de cuidados devem ser acautelados para melhoria da situação clínica ou da qualidade de vida.

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Com a duração de uma hora e meia, este webinar contou com a participação de António Araújo, director do Serviço de Oncologia Médica do Centro Hospitalar Universitário do Porto  (CHUP), de Filipe Froes, médico pneumologista, coordenador da unidade de cuidados intensivos médico-cirúrgicos do Hospital Pulido Valente e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19 e de Carlos Martins, médico de medicina geral e familiar e professor auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

António Araújo começou por reforçar a ideia de que ainda estamos com uma pandemia em curso. “Ninguém pode afirmar que estamos livres da pandemia, mesmo aqui na região Norte, onde temos registado, nos últimos tempos, um menor número de casos”, ressalvou. Independentemente de nos encontrarmos em fase de desconfinamento, o médico oncologista alertou para o facto de ainda estarmos “a meio da pandemia” e que, portanto, todas as medidas de protecção e de segurança ainda serão necessárias. O director de serviço sublinhou o impacto que a Covid-19 teve nos doentes oncológicos que segue no CHUP, em particular, nos meses de Março e Abril. “Suspendemos praticamente toda a actividade programada com a excepção de situações oncológicas urgentes.”

No que respeita aos exames de diagnóstico e de estadiamento do cancro, houve também um atraso, uma vez que os mesmos foram adiados. “Houve seguramente um impacto muito grande nos doentes oncológicos que ainda não sabemos quantificar”, referiu, sublinhando que só será possível perceber as consequências daqui a seis meses a um ano porque será necessário avaliar e comparar o número de casos diagnosticados, no mesmo período de tempo, em 2018 e 2019 com os diagnósticos que forem realizados em 2020. “Por outro lado, parámos os rastreios durante dois meses, dois meses e meio, sendo necessário algum tempo para verificar se esses doentes surgem em estádios mais avançados”, esclareceu. “Aquilo que antecipamos é que terá havido 50% ou mais doentes por diagnosticar no tempo certo ou com atraso no estadiamento.”

Um problema que é de todos

O pneumologista Filipe Froes acrescentou que é um erro considerarmos que, por estes dias, a pandemia é um problema circunscrito apenas à cidade de Lisboa. “O que temos actualmente é um risco e a manutenção de cadeias de transmissão na comunidade que rapidamente podem atingir todo o País. Enquanto houver actividade do vírus em Portugal, o problema é de todos”, disse. No que concerne aos doentes oncológicos, há que ter em atenção que, quer a doença, quer o tratamento, representam factores de risco para o desenvolvimento de formas graves de Covid. “Sabemos agora que há indivíduos assintomáticos, com muitos poucos ou sintomas ligeiros, que são transmissores do vírus na comunidade”, afirmou o médico, alertando para o peso destas pessoas na perpetuação da transmissão do vírus em todas as zonas do País.

A experiência dos meses que vivemos em pandemia veio também demonstrar que é errada a ideia de que só os idosos ou os mais doentes desenvolvem maior gravidade nesta infecção, o que justificava que os mais jovens pudessem ter comportamentos de risco. “Nós agora já sabemos que, embora a percentagem seja menor, há indivíduos jovens com formas graves de doença e que, muitas vezes, essa situação resolve-se sem grande impacto atendendo à elevada reserva fisiológica da juventude, mas o principal problema da manutenção do vírus nestas pessoas é o potencial de transmissão a doentes mais idosos e a doentes oncológicos”, referiu Filipe Froes.  “O que estamos a viver em termos epidemiológicos serve para alertar o doente oncológico de que deve estar sempre em máxima protecção”, aconselhou.

No dia da realização deste webinar, os dados da Direcção Geral da Saúde apontavam para o registo de um aumento de 31 doentes em internamento. “Isso significa que, desde o dia 9 de Junho, o número de doentes internados é consistentemente acima de 400 e, neste momento, estamos a aproximar-nos dos 500. A situação é preocupante e provavelmente obriga-nos a mudar a estratégia.” Agora, mais do que valorizar apenas os doentes com queixas e que possam ser suspeitos “provavelmente, há que ir atrás do vírus, alargar a malha de diagnóstico e fazer rastreios seleccionados para encontrar os indivíduos [sem sintomas ou com sintomas ligeiros] que mantêm o vírus na comunidade”.

Carlos Martins quis sublinhar a ideia de Filipe Froes e indicou alguns estudos científicos que apontam para a fase em que as pessoas assintomáticas mais contagiam outras, ou seja, “nas 24 horas antes do aparecimento dos primeiros sintomas”. O médico de medicina geral e familiar defendeu “a criação de uma aplicação móvel que permita fazer rastreio de contactos e detectar pessoas com quem possamos ter estado, mesmo sem qualquer sintoma a valorizar”. Todos devemos ter no pensamento que os cuidados individuais devem ter como objectivo a segurança colectiva. 

Não adiar consultas médicas

Os doentes oncológicos devem ter um acesso prioritário e não faz qualquer sentido ter receio de ir às consultas com medo de contraírem o vírus SARS-CoV-2, neste momento, asseguraram os oradores. “Já estamos numa fase em que foram implementadas todas medidas para proteger os doentes da infecção”, disse Carlos Martins. Adiar o tratamento em pessoas com cancro é algo que lhes pode ser “muito prejudicial”.

Pelo contrário, os adultos jovens saudáveis que não tenham nenhuma doença crónica e que tenham o hábito de realizar exames de rotina e fazer o seu check up anual, podem adiar um pouco “sem risco para a sua saúde” e porque “acabam por contribuir para quem realmente precisa e tenha alguns sintomas que possam indicar doenças graves. “

Nos meses de Março e Abril, os doentes com cancro do pulmão demonstraram um receio muito grande perante a possibilidade de contrair Covid-19, assinalou António Araújo. “Por isso, implementámos uma série de medidas no sentido de salvaguardar o doente oncológico ao nível da consulta no hospital e dos seus tratamentos. Começámos por separar as vias de acesso dentro do hospital para doentes potencialmente infectados e doentes oncológicos sem infecção por Covid-19.” Também as salas de espera do CHUP foram readaptadas com a reorganização dos cadeirões, de forma a promover o distanciamento social. “Foi proibida a presença de acompanhantes dos doentes, de forma a diminuir a circulação de pessoas nos hospitais”, explicou o médico oncologista.

Foi privilegiado o contacto por telefone, em particular, com os doentes que estavam a fazer medicação por via oral e naqueles que estavam em seguimento. “Assim, reduzimos o número de doentes que vinham ao hospital, ficando os que estavam em início de tratamento ou em tratamento activo, com medicação endovenosa.” No caso concreto da imunoterapia e, de acordo com as guidelines internacionais, o CHUP alargou o período entre administração de tratamentos, o que permitiu que os doentes fossem menos vezes ao hospital e diminuísse o risco de contraírem a infecção. “Actualmente, estamos a voltar progressiva e rapidamente ao normal. As consultas já se fazem presencialmente, temos ainda consultas de seguimento que continuamos a realizar por contacto telefónico, os tratamentos já estão a ser realizados de uma forma praticamente normal, bem como, os exames complementares de diagnóstico, de estadiamento e as cirurgias”, adiantou.

António Araújo enalteceu o grande esforço que tem sido feito no sentido de recuperar o atraso na realização de exames. “Neste momento, os doentes não devem ter medo de vir ao hospital”, aconselhou. O médico considera ainda essencial a realização de testes generalizados [para despiste da Covid-19] à população. “Temos de continuar a testar – e cada vez mais – os cidadãos, de forma a identificar o número correcto de casos positivos”. De igual modo, os doentes estão a ser testados antes da realização de tratamentos de quimioterapia e de radioterapia para acautelar uma maior segurança.

O CHUP é um centro oncológico de média dimensão e, apesar de tudo, o número de doentes oncológicos infectados por SARS-CoV-2 é “muito baixo” neste hospital e a explicação pode estar no facto de o doente oncológico ser ainda mais cauteloso e proteger-se mais do que o cidadão normal “com medo de ser infectado” e das consequências que a Covid-19 pode trazer à sua doença. Filipe Froes acrescentou que este não é provavelmente o período mais fácil da vida dos doentes. “Nesta altura de confinamento, o Centro de Cirurgia Torácica do meu hospital conseguiu assegurar 85% de cirurgia oncológica pulmonar.”

Humanização dos cuidados

Embora se perceba que tenha de existir restrição de movimentação de pessoas nos hospitais, há que assegurar pelos bons princípios que regem a Medicina, defendeu o médico pneumologista, considerando que há que garantir a dignidade do doente. “Nós temos, no nosso regulamento, normas para restringir a presença de pessoas a acompanhar o doente mas damos a liberdade ao director de serviço para avaliar a situação, caso a caso. A pessoa que está internada sente-se sozinha e a presença de um familiar é fundamental para o tratamento. Por outro lado, o familiar tem todo o direito de estar por dentro da situação para poder ajudá-lo da melhor forma.” Isto significa que são identificados os familiares de referência e, a ser permitida a sua presença, têm de entrar devidamente protegidos e acautelando as adequadas medidas de higienização e segurança.

Por outro lado, há pessoas com maior grau de dependência e de maior dificuldade de entendimento relativamente àquilo que é transmitido em consulta. “É evidente que tem de ir acompanhada. Colocar isto em causa é pôr em causa a dignidade da pessoa e os princípios da Medicina. Essa questão nem se coloca no meu hospital. Geralmente, em patologias mais graves, eu faço questão que o acompanhante venha sempre ainda que tenhamos precauções a dobrar”, defendeu. As regras são para cumprir, mas existe liberdade de actuação para tomar outra decisão em situações específicas.

Relativamente às teleconsultas, Filipe Froes esclareceu que até poderão vir a ser integradas como forma de actuação mas apenas para confirmar se o doente tem dúvidas, se está bem, se precisa de receitas, não substituindo as consultas médicas presenciais que resultam da interacção entre médico e doente. António Araújo, neste contexto, acrescentou que um dos aspectos mais penosos na consulta, nesta fase de pandemia, é “a impossibilidade de cumprimentar ou dar um abraço” aos seus doentes. “Esta é uma situação temporária”, garantiu Filipe Froes. “É verdade que este é um processo longo e demorado mas é transitório”, sublinhou Carlos Martins. Enquanto este problema não está solucionado, é importante assegurar a promoção da saúde mental. “Há que ter um espírito positivo e a vida há de claramente voltar ao normal”, aconselhou o médico de medicina geral e familiar. Nesta adaptação, há medidas de protecção que não podem ser descuradas, como por exemplo, “o uso correcto de máscara facial enquanto medida que nos protege a todos”. E mesmo em locais ao ar livre, o médico aconselha a sua utilização sobretudo quando não é possível manter a distância mínima entre as pessoas. “A higiene e desinfecção frequente das mãos e das superfícies é igualmente importante.”

Carlos Martins recomendou a vacinação da gripe nos grupos de risco e para os mais idosos e sublinhou que não devem deixar de ser vacinados com medo da Covid-19 adiantando que todas as medidas de protecção contra o coronavírus serão essenciais para nos protegerem de outras infecções respiratórias que são muito comuns no Inverno. Filipe Froes rematou a afirmar que “o tempo conta para todos, mas, para o doente oncológico, conta mais depressa” e reforçou que o facto de “os surtos hospitalares serem detectados leva a uma análise exaustiva do que aconteceu, a uma testagem de centenas de profissionais e a um refinar das medidas”. A aprendizagem que se retira destes surtos é fundamental enquanto processo de melhoria.

O pneumologista despediu-se deste webinar de forma optimista ao afirmar que esta pandemia irá passar muito graças à capacidade e ao engenho humano. António Araújo defendeu que “iremos conseguir conviver com esta doença e desenvolver uma vacina que seja suficiente para nos proteger dos malefícios da SARS-CoV-2 mas infelizmente esta é uma infecção vírica que veio para ficar, tal como o vírus influenza ou a gripe A”. O médico oncologista ressalvou que devemos ter os devidos cuidados e manter “a protecção necessária para continuarmos a nossa vida como antes”. Carlos Martins rematou dizendo que o vírus vai permanecer, mas a pandemia vai terminar. “No fundo, este é um fenómeno natural”, disse. Relembrou ainda a pandemia de 1918 (gripe espanhola) “que foi ultrapassada pelos nossos antepassados que sobreviveram e conseguiram subsistir a uma crise difícil, sem os meios, a tecnologia e os cuidados de saúde que temos hoje claramente ao nosso dispor. Nós, também vamos ultrapassar”.

O webinar terminou com a ideia de que há que encarar esta fase que estamos a viver com alguma adaptação mudando alguns hábitos e comportamentos do dia-a-dia para nos protegermos, uns aos outros, e com um grande sentido de responsabilidade colectiva. “Certamente que isto irá passar até mais depressa do que nos possa parecer”, concluiu Carlos Martins.

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