Reino Unido anuncia pacote de 1,74 mil milhões de euros para a cultura

O apoio de uma “generosidade inesperada” surgiu depois de várias semanas de pressão em várias áreas do sector.

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O National Theatre, em Londres, anunciou que vai dispensar até ao final de Agosto 400 trabalhadores Reuters/TOBY MELVILLE

O Reino Unido anunciou um fundo de emergência de 1,74 mil milhões de euros para a cultura, estimando que a pandemia já tenha provocado uma perda de 350 mil empregos. Mas este “investimento maciço" não dará para salvar “infelizmente” todos os empregos do sector, disse o responsável pela pasta no Governo de Boris Johnson, Oliver Dowden, citado pela BBC.

Em editorial, o jornal Guardian escreveu que o pacote, embora tardio em relação ao que a Alemanha anunciou há mais de um mês, mostra uma “generosidade inesperada” do Governo em relação ao sector das artes. 

No comunicado do Governo britânico, divulgado no domingo, explica-se que do total de 1,74 mil milhões de libras 1,27 mil milhões ficarão em Inglaterra, distribuídos através de bolsas (976 milhões) e empréstimos reembolsáveis (300 milhões), “realizados em termos generosos e feitos à medida das instituições culturais”. Do bolo geral, 110 milhões destinam-se às instituições culturais nacionais em Inglaterra e ao English Heritage Trust, responsável pela gestão do património, enquanto 133 milhões chegarão sob a forma de investimento para retomar as obras interrompidas pela covid-19, quer na área do património quer em várias infraestruturas culturais.

Quanto aos restantes territórios do Reino Unido, está previsto que recebam 208,5 milhões, distribuídos da seguinte forma: 36,5 milhões para a Irlanda do Norte, 107,5 milhões para a Escócia e 65,4 milhões para o País de Gales.

Na segunda-feira, Oliver Dowden, disse na referida entrevista à BBC que as bolsas e os empréstimos têm como objectivo salvar “jóias da coroa” como o Royal Albert Hallm mas também muitos equipamentos locais espalhados pelo Reino Unido, esclarecendo igualmente que se trata de “dinheiro novo” destinado “a durar todo este ano financeiro”. São elegíveis teatros, museus, salas de concertos, cinemas independentes, monumentos e sítios patrimoniais.

O apoio surgiu depois de muitas semanas de pressão em diversas frentes do sector. Na semana passada, várias estrelas da música — de Paul McCartney a Van Morrison, passando por bandas como Oasis, Blur, Rolling Stones, Coldplay e Queens of the Stone Age — escreveram uma carta aberta a Dowden defendendo que “o apoio governamental será crucial para evitar insolvências em massa”. Na sexta-feira, o National Theatre, em Londres, anunciou que vai dispensar até ao final de Agosto 400 trabalhadores, entre assistentes de sala e técnicos de palco.

Numa análise também publicada pela BBC, Will Gompertz descrevia que vários responsáveis do sector das artes “saudaram calorosamente” o pacote para salvar a cultura, com alguns a afirmarem que ultrapassou o que esperavam. O próprio comunicado do Governo britânico vinha acompanhado de várias citações de responsáveis do sector cultural elogiando o pacote, do maestro Simon Rattle ao produtor de teatro Andrew Lloyd Webber, passando por Nicholas Serota (Arts Council) e Ian Blatchford (National Museums Directors Council), entre outros.

“Mas, como sempre, o diabo está nos detalhes. O Governo ainda não especificou como é que o dinheiro vai ser dividido entre os sectores ou as regiões, nem como o acesso se vai processar”, escreveu também Will Gompertz, responsável pelo departamento das artes na BBC.

O secretário de Estado da Cultura de Boris Johnson disse apenas que as instituições culturais vão ter de concorrer através das entidades representativas do sector, e terão também de provar que podem contribuir para o crescimento económico. O Governo prometeu que a atribuição dos fundos será feita “juntamente com especialistas independentes do sector”, nomeadamente do Arts Council England ou do British Film Institute, lê-se no comunicado.

Citado pela BBC, o maestro Simon Rattle, director da London Symphony Orchestra, apelou a que o dinheiro fosse “distribuído o mais rapidamente possível”. Nicholas Serota, presidente do Arts Council e durante anos responsável pela Tate, disse que o pacote era “um resultado muito bom”: “Agora cabe às organizações artísticas e ao Arts Council fazerem o melhor uso deste dinheiros e trazer de regresso as artes às comunidades em todo o país. Este anúncio dá-nos os instrumentos para ajudar a construir uma recuperação.”

No seu comunicado, o Governo descreve o pacote como “o maior investimento feito de uma vez só na cultura do Reino Unido”. O primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que o dinheiro vai “contribuir para salvaguardar o sector para as futuras gerações, garantindo que grupos e equipamentos artísticos possam manter-se à tona em todo o Reino Unido e ajudar o seu pessoal enquanto as portas se mantêm fechadas e as cortinas em baixo”.

O comunicado sublinha que muitas instituições do sector das artes e do património já receberam assistência financeira, nomeadamente através do acesso a empréstimos e aos mecanismos especiais de layoff criados para a crise pandémica pelo Governo britânico

Julian Knight, deputado do Partido Conservador e presidente do comité da Cultura, defendeu junto dos media ingleses que deverão ser necessários mais apoios, “provavelmente envolvendo incentivos fiscais mais generosos”. Já a secretária de Estado da Cultura sombra do Partido Trabalhista na oposição, Jo Stevens, considerou, depois de dar as boas-vindas ao “muito necessário” pacote, que era “demasiado pouco, demasiado tarde” para muitos, e instou o Governo a actuar rapidamente para ajudar as entidades em dificuldades.

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