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Paulo Pimenta
Reportagem

Pela Europa numa van: Carsten quer captar mil rostos, para mostrar que “somos o mesmo”

Para mostrar que a Europa é “as pessoas que estão aqui”, Carsten Sander está a percorrer o continente com uma carrinha e uma câmara na mão. Vai captar rostos de mil pessoas de diferentes etnias e grupos sociais, para fazer nascer o Faces of Europe. Está no Porto até ao final da manhã desta terça-feira, à espera de todos os que queiram fazer parte do projecto.

Ainda não tinham passado duas horas desde que Carsten Sander tinha estacionado a carrinha em frente ao Palácio da Justiça, no Porto, e já contava com seis fotografias de rostos portugueses. “Isto não é normal”, comentava, satisfeito com a disponibilidade dos portuenses em entrar numa carrinha para serem fotografados. Há quase um mês a viver na van que anuncia o nome do projecto — Faces of Europe —, o fotógrafo alemão estacionou em Portugal esta segunda-feira, 6 de Junho, depois de uma noite em claro feita na estrada, para chegar de Bilbau ao Porto.

O convite é lançado a quem passa: “Quer participar num projecto fotográfico que está a ser realizado a nível europeu?” Os detalhes são explicados pelo próprio, ou por locais, em português. São simples e assentam na ideia de que a Europa é “as pessoas que estão aqui”. E é para mostrar isso mesmo que Carsten está a percorrer o continente à procura de mil pessoas de diferentes etnias e classes sociais — sejam elas celebridades, atletas, políticos ou encontradas fortuitamente na rua. Todas têm um denominador comum: o facto de serem cidadãs europeias.

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“Tudo começou há dez anos, em Berlim”, começa por contar o fotógrafo que já recebeu prémios como o German Photo Book Prize ou German Design Award e é especialista em retratos. “Fui a Berlim e percebi que a cidade era como uma ilha: muito fixe, muito relaxada e com muitas línguas”, continua. Assim nasceu a ideia.

Para continuar a explicação do projecto, recorda o Verão de 2006, ano em que a Alemanha recebeu o Mundial de Futebol e pôde provar a sua hospitalidade aos visitantes — o momento acabou por ficar conhecido como o “Conto de Fadas de Verão”. “Foi a primeira vez em que as pessoas puderam erguer bandeirinhas (e estavam tão contentes por isso!); toda a gente dizia que éramos simpáticos, bons perdedores, bons festeiros…”, ri. Foi o Verão em que os alemães puderam libertar-se do passado, ainda tão presente: “Quando era criança, lembro-me de ver o Hitler e todas essas porcarias todos os dias. Há sempre um documentário sobre ele a passar na televisão. É claro que não podemos esquecer o que aconteceu, mas podemos tentar seguir em frente”, afirma. Por isso, acha “estúpido” que se chame ao Verão de 2006 um “conto de fadas”. Porque “foi real.”

“O que posso fazer para trazer de volta esse sentimento que é tão normal?”, pensou. Decidiu que a melhor forma seria retratar os próprios alemães. Porque “para salvar os outros”, temos que nos “salvar primeiro a nós próprios”. E se inicialmente a ideia era fotografar apenas em Berlim, o projecto acabou por se arrastar durante “cinco ou seis anos”, numa jornada por todo o país, à procura de todos aqueles que lhe pertencem. Contactou embaixadas para localizar imigrantes, abordou pessoas na rua, agendou encontros com personalidades como Jean-Claude Juncker. E acabou com um catálogo diverso.

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Foi a primeira fase do Faces of Europe, com direito a um livro e exposições, sem ainda saber que uma segunda fase o esperava. Foi desafiado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para levar o projecto adiante, Europa fora: juntou a carrinha, o material e a disponibilidade, e arrancou. Desde 12 de Junho que está na estrada. Já passou por Amesterdão, Berlim, Breslávia, Bruxelas, Luxemburgo, Munique, Paris e Praga. Agora, é a vez do Porto, onde deverá permanecer até ao final da manhã desta terça-feira, 7 de Julho, à frente do Tribunal da Relação, o local onde estacionou à chegada. E à espera de todos os que queiram fazer parte dos 34 retratos que quer captar na cidade.

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Gitta Banko Carsten Sander
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Jean-Claude Juncker Carsten Sander
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Marco Girnth Carsten Sander
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Andreas Mies Carsten Sander
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Carsten Sander

Os olhares curiosos são visíveis. Ao passar pela carrinha, as pessoas param, comentam, perguntam o que está a acontecer. Ou são intersectadas pelo fotógrafo, como aconteceu com Bárbara Araújo. Um convite rapidamente aceite pela jovem, que iniciou o processo, levado a cabo sempre da mesma forma: entrar na carrinha, assinar um consentimento de imagem e permanecer de costas para um pequeno cenário bege, sóbrio, limpo. Carsten senta-se em cima da cama (o espaço não é muito, convenhamos) e capta o momento. A ideia é ser um momento de “meditação”, explica. Sem sorrisos, sem enfeites: um retrato cru e sincero do que é cada um. O sorriso vem no fim, e é comum a todos os fotografados, que seguem caminho enquanto ainda agradecem e se despedem.

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“Há poucos dias vi um documentário sobre ‘o que é sentir-se europeu’ e havia um búlgaro que dizia que se sentia europeu, mas um europeu de segunda classe”, comenta Carsten, agora de câmara pousada e sentado à sombra no Jardim da Cordoaria. “Porque eles ganham algo como 300 euros por mês. E isso é muito triste”, continua. Por isso mesmo, quis passar mais tempo no Leste da Europa para perceber “o que pensam eles sobre a Europa e a União Europeia”. Porque o conceito e a ideia pode mudar de país para país. 

O projecto, acredita, ganha outra dimensão num momento em que a Europa se depara com uma crise de refugiados. “Sou um entusiasta da ideia de distribuir refugiados por toda a Europa, proporcionalmente com a quantidade de pessoas que habitam um local, o dinheiro que lá existe, entre outros factores”, defende. Afinal, “o que importam as raízes?” E dá o seu próprio exemplo: “Eu sou de Rhineland e tenho um primo belga, outro esloveno e outro norueguês. Tenho um avô inglês e uma avó polaca. Posso dizer que ‘estas raízes são ok’, mas outras não?”

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A diversidade, acredita, torna um país “mais inteligente” e com “pessoas mais bonitas”, sorri. “Esta é a razão pela qual os países se tornam mais bem-sucedidos — porque há mistura.” E folhear o livro da primeira edição do projecto, que traz guardado na carrinha, mostra como é tão rica a diversidade que captou.

Depois do Porto, vai seguir para Sevilha, Marbella, Málaga, Barcelona, Saint-Tropez, Nice, Turim e Milão. Espera ainda ter tempo para passar outra vez pela Polónia, para visitar a última sobrevivente que figurava na lista de Schindler. Tudo isto antes do início de Setembro, data marcada para o final da viagem. E, a cerca de um mês do final, o corpo já vai acusando cansaço. “Não comemos propriamente, não dormimos propriamente”, lamenta. Agora com menos um membro na equipa, que teve de abandonar a jornada, são apenas um fotógrafo e um operador de câmara a fazer todo o trabalho de fotografia, vídeo, organização e logística. Mas as histórias que vai conhecendo dão-lhe vontade de continuar: “Tornam-te mais próximo do país, das pessoas.”

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A passagem por Lisboa, que tinha nos planos, foi cancelada devido ao surto do novo coronavírus. “Temos muito respeito [pelo vírus], mas não temos medo. Porque se tivermos medo, não trabalhamos”, diz, sobre a pandemia. “Mas temos de fotografar mil pessoas, por isso claro que temos de ser cuidadosos.” 

No final, o Faces of Europe vai percorrer a Europa. Está planeado o lançamento de um livro e há exibições marcadas por todo o continente e também em Moscovo. Carsten está determinado a mostrar que “somos o mesmo” e sonha em fazer um mural na rua, onde todos possam ver os mil retratos. Por causa da covid-19 e por ser mais “democrático”. E, por falar em exposições, relembra uma que fez quando o projecto ainda se cingia aos rostos alemães: “Fotografei actores, políticos, futebolistas, o próprio presidente. Na exposição, víamos um sem-abrigo à beira do presidente.” E é aí que reside a beleza do projecto: “Não podemos fazer pessoas iguais, mas podemos colocá-las no mesmo nível.”

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