Eurodeputados querem que Merkel lidere e promova “acordo forte” para a recuperação da crise

Chanceler alemã viajou até Bruxelas para contactos políticos antes da reunião do Conselho Europeu da próxima semana.

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Chanceler Angela Merkel apresentou o programa da presidência rotativa da Alemanha no Parlamento Europeu Reuters/FRANCOIS LENOIR

Os eurodeputados não desperdiçaram a oportunidade de ter a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, no hemiciclo, para uma apresentação formal do programa e das prioridades do seu país para a presidência rotativa da União Europeia, para lhe fazer múltiplos pedidos, que podiam ser resumidos a apenas um: que assuma o seu papel de verdadeira líder da Europa e promova um “acordo forte” no Conselho Europeu para a aprovação do próximo quadro financeiro plurianual para 2021-27 e do novo fundo de recuperação da crise do coronavírus, no valor de 750 mil milhões de euros.

E por “forte” os eurodeputados queriam dizer que o acordo político para o novo pacote orçamental e de recuperação económica tem de fazer depender os pagamentos do respeito pelo Estado de direito por parte dos seus beneficiários e de incluir novos recursos próprios, isto é, outras fontes de receita além das transferências dos Estados-membros no seu financiamento.

Merkel ouviu e, sem fazer promessas ou comprometer-se com nenhum desfecho para o Conselho Europeu da próxima semana, garantiu que o objectivo da presidência alemã “é chegar a uma solução o mais depressa possível”, uma vez que “a situação que vivemos é extraordinária e única na História europeia”. “É preciso disponibilidade para encontrar soluções comuns e chegar a compromisso, com compreensão pela perspectiva dos outros”, afirmou a chanceler, que enfaticamente lembrou que “em muitos Estados-membros os adversários da Europa estão apenas à espera para instrumentalizar esta crise”.

Numa manifestação de fé e confiança no projecto europeu, que segundo disse “não é um destino obrigatório mas algo que podemos mudar e configurar”, Angela Merkel disse aos eurodeputados que na negociação que aí vem há dois elementos que são inegociáveis: um são os direitos fundamentais e as liberdades individuais — “Para mim são o elemento mais importante da nossa presidência”, vincou — e o outro é a coesão, “a mais-valia do projecto comum [europeu]”.

Os eurodeputados gostaram dos recados, que não podiam ser mais óbvios. Aos líderes do grupo de Visegrado, que ameaçam bloquear o acordo por causa do Estado de direito, Merkel lembrou que a UE é o espaço onde “todos podem exercer as suas convicções políticas, culturais e religiosas”, e que onde não se vê a diversidade também não se encontra a democracia.

Aos defensores da posição dos países chamados “frugais”, que querem reduzir as transferências e limitar as subvenções para os países mais afectados pela crise, a chanceler explicou que “a solidariedade não é um gesto humanitário, mas um investimento sustentável” e que “a coesão social não é uma ordem política, mas algo que nos traz muitos frutos”.

“As pessoas das regiões mais atingidas pela crise podem contar com a solidariedade extraordinária da Alemanha”, declarou Angela Merkel, que reconheceu que a crise financeira, tal como a crise dos refugiados, foram “muito duras” e “abriram muitas feridas”. “Mas também nos ajudaram a entender melhor as necessidades uns dos outros e a aprender”, acrescentou.

Como os parlamentares, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, insistiu que se está numa fase decisiva” e “as expectativas na presidência alemã são grandes”. Do discurso da chanceler reteve a palavra-chave “gemeinsam” — juntos, together, tous ensemble, traduziu — e disse que se sentia “muito feliz por poder contar com a experiência da Alemanha, já no Conselho Europeu da próxima semana”.

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