Noam Chomsky, Steven Pinker, Margaret Atwood e Francis Fukuyama apelam ao “debate livre” em carta publicada na Harper’s

No documento, mais de 150 artistas e pensadores aplaudem os apelos à “igualdade e inclusão” nos protestos desencadeados pela morte de George Floyd, mas manifestam preocupação pelo “novo conjunto de atitudes morais e compromissos políticos” que enfraquecem as “normas de debate livre e tolerância”.

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Protesto do movimento Black Lives Matter à porta da Trump Tower no dia 5 de Julho Reuters/JEENAH MOON

Em Junho, respirou-se um clima especialmente tenso nos Estados Unidos. Para além da pandemia que continua a deixar mazelas no país, prestes a chegar à barreira dos três milhões de casos confirmados, o mês foi de incontáveis protestos contra a brutalidade policial e o racismo estrutural, problemas que não são recentes na América, mas que voltaram a ser alvo de escrutínio apertado depois do assassinato de George Floyd. Esta terça-feira, 7 de Julho, mais de 150 artistas e pensadores publicaram na revista Harper’s uma “carta sobre justiça e debate livre”, aplaudindo os apelos à “igualdade e inclusão” que continuam a subir de tom, mas manifestando preocupação pela “intensificação” que os mesmos têm trazido de “um novo conjunto de atitudes morais e compromissos políticos que tendem a enfraquecer as nossas normas de debate livre e tolerância em detrimento da conformidade ideológica”.

O sociólogo Noam Chomsky, as escritoras Margaret Atwood e J.K. Rowling, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, o psicólogo Steven Pinker, o filósofo Francis Fukuyama e a activista Nadine Strossen, ex-presidente da União Americana pelas Liberdades Civis, são alguns dos signatários, apoiantes de diferentes ideologias políticas e representantes de diversos sectores de acção e pensamento. Argumentando que “o ‘iliberalismo’ está a ganhar força” e que este terá no Presidente Donald Trump “um aliado poderoso”, os autores sustentam que “a inclusão democrática que todos queremos só pode ser conseguida se nos manifestarmos contra o clima intolerante que se instalou nos vários lados da barricada”.

Os signatários defendem que “a troca livre de informação e ideias, que é vital numa sociedade liberal”, está cada vez mais em risco, sugerindo que a censura, da “intolerância a visões opostas” ao clima de sede por “humilhação pública e ostracismo” que as redes sociais potenciam, está a “espalhar-se amplamente na nossa cultura”. “Nós defendemos o valor de uma contra-resposta robusta — e às vezes até corrosiva — de todos os quadrantes. Mas agora é demasiado comum ouvirmos exigências de castigos rápidos e severos em resposta a supostas transgressões de discurso ou pensamento”, sublinham.

“Líderes institucionais estão a atribuir castigos precipitados e desproporcionados em vez de aplicarem reformas estruturais com consideração”, salientam. “Editores de publicações estão a ser despedidos por publicarem artigos controversos”, “jornalistas estão a ser impedidos de escrever sobre determinados tópicos” e “responsáveis por organizações estão a ser afastados por incidentes que, às vezes, são apenas erros descuidados”, exemplificam os escritores da carta, concretizando que, “quaisquer que sejam os argumentos em cada incidente particular”, os “limites daquilo que pode ser dito sem a ameaça de represálias” estão a ficar progressivamente mais “estreitos”. “A restrição do debate, quer por um governo repressivo quer por uma sociedade intolerante, invariavelmente prejudica aqueles que não têm poder”, concluem. “Devemos derrotar as más ideias através de exposição e persuasão, não através de silenciamento.”

O autor e crítico Thomas Chatterton Williams, um dos principais responsáveis pela carta, que foi escrita ao longo de um mês, fruto de um intenso processo de reflexão, explica ao New York Times que, inicialmente, estava preocupado com o timing da publicação do documento. “Não queríamos passar a ideia de que estávamos a reagir negativamente aos protestos nos Estados Unidos, que acreditamos surgirem como uma resposta aos abusos de autoridade notórios da polícia”, conta. O que se passa, sugere, é que “já existe há algum tempo um clima que nos preocupa a todos”.

“Há muitas pessoas que parecem pensar que o debate livre é uma coisa que não é saudável”, complementa, similarmente, Nicholas Lemann, autor na revista New Yorker e um dos signatários da carta que é também citado pelo New York Times. “Eu passei a minha vida inteira a discutir vigorosamente com pessoas que têm visões com que não me identifico, e não quero pensar que estamos a sair dessa realidade.”

O New York Times avança que a carta — que, depois da divulgação na Harper’s, será publicada em outros jornais internacionais — terá sido recebida com algumas críticas nas redes sociais. Muitos terão, por exemplo, condenado a assinatura de J.K. Rowling, cujos recentes comentários “transfóbicos” vão “contra a mensagem de tolerância” que o documento pretende transmitir. A historiadora Kerri K. Greenidge, uma das signatárias, escreveu no Twitter que não apoia “a carta da Harper’s”, sendo que a revista vai “respeitosamente” retirar o seu nome da lista de assinaturas. Outra autora, que, ao New York Times preferiu manter o anonimato, disse que, se soubesse quem eram todos os autores, provavelmente não teria apoiado a carta.

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